Cartas do Mundo

Carta de Buenos Aires: A Argentina de Macri no fundo do poço: e agora?

É bom saber que Macri já foi, independente de quando será o dia exato em que deixará o seu governo. Já é tempo de que os argentinos se perguntem e se preocupem por seu futuro. E agora? Essa será pergunta a se fazer nos próximos meses, talvez anos

13/05/2018 15:05

 

Por Rubén Armendáriz

A corrida cambiária continua na Argentina, com um aumento da cotização do dólar de 7% nesta última semana – 27% durante todo o ano, e 51% desde maio de 2017 –, e um Banco Central que sacrificou mais 1,1 bilhão de dólares das reservas internacionais para tentar impedir um aumento maior.

Num clima generalizado de tensão e angústia da população, o presidente Mauricio Macri se reuniu com o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, recentemente chegado dos Estados Unidos, onde manteve reuniões com autoridades do Fundo Monetário Internacional (FMI), sobre as que não se informou nem ao Congresso nem à população.

Logo, se reuniu com empresários, encontro que terminou com o ministro de Produção, Francisco Cabrera, oferecendo uma coletiva na que assegurou que o tema do aumento do dólar não foi discutido, porque “para nós não é um problema”.

Ninguém informa nada, num governo que ainda mantém no secretismo as negociações de um Tratado de Livre Comércio entre Mercosul e a União Europeia, mas a notícia de que o FMI se inclinaria por uma flutuação cambiária sem intervenção oficial vazou, e bem no momento em que o país registra um déficit recorde de conta corrente.

O ministro de Economia, Luis Caputo – outro dos funcionários denunciados por manter contas offshore –, disse que o acordo com o FMI permitirá assegurar os créditos hipotecários e os planes sociais, o que provocou uma indignada reação entre comentaristas nas redes digitais, onde o chamaram de serial liar (“mentiroso serial”), entre outros adjetivos que também foram usados contra o presidente e sua equipe econômica, recordando todas as crises e tragédias do país surgidos de planos tutelados pelo FMI.

As críticas pela falta de informação oficial não foram só da oposição. A deputada Elisa Carrió, dirigente da Coalizão Cívica, integrante da aliança governante Cambiemos, reprovou a atitude dos produtores rurais, a quem Macri suspendeu o pagamento de impostos sobre a exportação de soja e outros cultivos e permitiu a eles colocar seus dólares onde quisessem, e por isso puderam reter o pagamento das exportações, especulando com o aumento do dólar e criando um forte déficit, assim como as mineradoras transnacionais.

Como se isso já não fosse um grande problema, o drama vem vestido com um pedido de “ajuda” ao FMI, essa nefasta entidade identificada com o pior do atual mundo capitalista. Com isso, finalmente teremos “uma divisão de poderes, embora desta vez mais profunda que as vistas em outros tempos, já que o FMI passará a ser quem dá as ordens na economia, e o governo deverá cumprir”, comenta o analista Juan Guahán.

Com as “condições” que acompanharão a ajuda do FMI se criarão as circunstancias para que, num futuro mais ou menos imediato, floresça o fenómeno da “estagflação”, a inflação com estagnação, que parece ser uma consequência irremediável do que está se discutindo agora com o FMI.

Banco Central insolvente

Mas o grande dia para o mercado será a próxima terça-feira (15/5), quando o Banco Central argentino deverá convencer investidores, os quais reúnem 674 bilhões de pesos (cerca de 30 bilhões de dólares) em títulos de dívida (chamados lebacs), de renovar esta dívida e não querer comprar dólares, em meio a expectativas de uma nova desvalorização e com as reservas nacionais fechando em 54,4 bilhões de dólares, com uma queda – só na sexta (11/5) – de 1,9 bilhão, e quase 10 bilhões em todo o ano.

“O Banco Central garantiu ter reserva suficiente para pagar os títulos. No dia 12 de dezembro de 2017, a dívida por esses títulos já alcançava cifras muito superiores às reservas. Em 2018, se tomamos um dólar a 23 pesos, a dívida chegaria a 78 bilhões de dólares, ou seja, superaria e muito as reservas existentes”, analisou Óscar Natalich, do Centro de Investigações Econômicas e Sociais de Buenos Aires.

Natalich se sustenta nesses dados para mostra que os investidores ligados a esses títulos – bancos fundos abutres e empresas monopólicas – não poderiam recuperar o investimento, pois esse valor supera em ao menos 20 bilhões de dólares as reservas do país atualmente. A não ser que apareça alguém disposto a salvar o Estado. Esse alguém seria o FMI, pois é um organismo que responde, em grande parte, ao grande capital financeiro.

Segundo o JP Morgan, há temores de que, por esse motivo, haja “desordens no valor do peso”. As taxas de juros que se pactuem nas renovações darão uma ideia do que será o futuro.

O que virá

Até há algumas semanas, o sistema midiático e político parecia atravessado por um abismo que dividia a sociedade entre os que tinham certeza de que tudo estaria bem e os que achavam que o país estava mal, mas se endereçando, porque estava governado por gente capaz, reconhecida pelos grandes dirigentes mundiais, enquanto, lá no fundo das covas do pessimismo, ficavam os que achavam que “tudo está mal”, e o que ainda não está logo estará pior.

Hoje, aqueles que estavam nos dois primeiros grupos só têm uma certeza: o governo não sabe para onde está indo. A tal “equipe (econômica) de primeira” do governo se mostrou ser um conjunto de rapazes descolados, arrogantes e vacilantes, e que agora buscam apoio cúmplice dos irmãos mais velhos que estão vendo o jogo do banco de reservas. Entre outras “burradas”, a pior foi a de se abrir ao mundo num momento que a principal economia, a estadunidense, promove um crescente protecionismo.

Os que estavam escondidos nas cavernas da mídia dizendo que tudo estava errado parecem ser os que estavam certo, depois de tudo. Mas agora, eles têm outra preocupação: o que vai acontecer? Porque o governo pode perder as eleições e até cair antes de chegar nelas, por sua quota de (ir)responsabilidade no que está ocorrendo. Mas, e depois, o que virá?

Ninguém sabe como enfrentar o que vem por aí, incluindo os que talvez tenham que voltar ao governo. Ainda mais agora que os propagandistas do sistema dominante nos convenceram da ideia de que os “investimentos estrangeiros” são a nossa única salvação. Por isso, quando a economia norte-americana absorve recursos, se complica a nossa existência.

Esse é um dos dramas deste país, com uma economia onde os bens comuns ou recursos naturais são essenciais para sua integração com o mundo. Aqueles que governam em tempos de crise, geralmente de preços internacionais baixos, afundam o drama da dependência e do endividamento. Nos tempos de “vacas gordas”, quando aumentam os preços dos commodities, e graças a governos meio progressistas, houve melhor distribuição dessas riquezas.

Quando esses preços internacionais voltaram a cair, reapareceu a crise e começou de novo um ciclo vicioso, já que uns e outros não conseguiram oferecer alternativas diferentes da imposta por este modelo agroexportador nos Anos 80, e que até hoje rege o sistema econômico.

“Nossa cultura classe média – alcaguete do poder oligárquico, que olha para cima e para fora em vez de fazê-lo para dentro e para baixo –, querendo imitar os poderosos, faz com que nós pensemos ser mais do que somos, e nos impulsa a consumir mais que produzimos, levando a um endividamento cada vez maior. Claro, o faz à custa dos setores mais humildes, e para benefício dos que estão em cima. Por isso a pobreza estrutural cresce, e por isso temos, depois de 35 anos desta democracia, o dobro de pobreza que havia no final da genocida ditadura militar, em 1983”, comenta o analista Juan Guahán.

A potencialidade da crise de 2018 encontra pontos de contato com a de 2001, quando o povo foi às ruas e o presidente Fernando de la Rúa foi evacuado da Casa Rosada de helicóptero. Este governo avança como uma locomotiva na direção de um paredão, como ficou evidente em outra jornada de assombro para os argentinos, que acompanham absortos como o desgoverno de Cambiemos atua a favor dos mais ricos, com total impunidade.

A corrida de urgência do ministro da Fazenda Nicolás Dujovne ao FMI foi uma tentativa desesperada de evitar uma crise social. Um ajuste do gasto público de 300 bilhões de pesos em 18 meses, o aumento da idade de aposentadoria, a demissão de milhares de empregados públicos da Nação e das províncias, a paralisação de obras de infraestrutura, o aumento da inflação a níveis de 30% como piso, foram o que levaram o país de volta ao “Fundo” do poço.

É preciso associar esses problemas com outros, como o aumento do desemprego, que já alcança cifras com dois dígitos, o ataque aos direitos básicos dos trabalhadores, a desaparição de milhares de pequenas e médias empresas, a queda acelerada do poder aquisitivo do salário, a diminuição das aposentadorias e pensões da seguridade social, o forte aumento das taxas de pobreza e indigência.

Um novo documento do FMI, publicado nesta mesma sexta-feira (11/5), oferece uma antecipação de um de condicionalidades associadas ao empréstimo que a Argentina busca Argentina: redução do déficit fiscal, maior abertura comercial, liberalização financeira e aprofundamento das reformas estruturais. O informe adverte também sobre as consequências que poderia haver com uma vitória de Lula da Silva ou do PT e seus aliados, nas eleições presidenciais de outubro, no Brasil. “O crescimento do populismo supõe riscos para a execução de reformas muito necessárias em muitos países da região”, sustenta o documento.

Mas os burocratas do FMI tampouco defenderam o governo de Macri (“o informe foi concluído no começo de março, e não reflete os últimos acontecimentos na Argentina”) e aliás adverte a “vulnerabilidade dos países que dependem do financiamento externo em grande quantidade, como a Argentina, e por isso estão à mercê da atitude dos investidores estrangeiros”. Claro, esquece o respaldo total oferecido pelo FMI ao modelo econômico e às reformas do governo de Macri desde 2015: o processo de liberalização cambiaria e financeira que catapultou a vulnerabilidade externa do país.

É bom saber que Macri já foi, independente de quando será o dia exato em que deixará o seu governo. Já é tempo de que os argentinos se perguntem e se preocupem por seu futuro. E agora? Essa será pergunta a se fazer nos próximos meses, talvez anos.
 
Rubén Armendáriz é jornalista e cientista político uruguaio, analista do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
www.estrategia.la



Conteúdo Relacionado