Cartas do Mundo

Carta de Buenos Aires: Argentina vive momentos de decisão

 

14/01/2022 23:10

(Adriana Groisman)

Créditos da foto: (Adriana Groisman)

 
As situações de crise são os momentos em que as contradições se tornam evidentes. Tudo que parecia confuso semanas atrás começou a ficar mais claro. As intenções da aliança neocolonial – coordenada entre Washington e os neoliberais macristas - foram expressas com implacável clareza.

Os Estados Unidos estão pressionando para que o governo de Alberto Fernández faça um ajuste fiscal em conluio com a horda empresarial doméstica, composta, entre outros, pelos barões do agronegócio, as transnacionais oligopolizadas – que impõem suas tabelas de preços inflacionadas, depois que eliminaram a concorrência –, as usinas de propaganda comunicacional e as associações de banqueiros e financistas.

Em 2018, o FMI (Fundo Monetário Internacional) deu ao governo do neoliberal Mauricio Macri o maior empréstimo já concedido em toda a sua história, com o intuito de viabilizar sua reeleição nas presidenciais do ano seguinte. Mas ele falhou em sua missão. Assim, o que era para ser um presente para a direita argentina, se transformou em chantagem para o governo peronista que assumiu naquele então.

O que era simpatia há quatro atrás, agora se tornou imposição. Duas caras diferentes, uma para anunciar os benefícios aos seus representantes locais e contribuir para seus negócios funcionais com paraísos fiscais. Outra mais de acordo com as ameaças aos rivais estratégicos na região.

Em 2018, as autoridades do FMI não estavam interessadas em saber como a Argentina poderia pagar o empréstimo. Hoje, buscam submeter o atual governo a um acordo absurdo, com o intuito de fazer com que o partido que está no poder seja punido em 2023. Há absoluta coerência entre conceder o empréstimo em 2018 e exigir o reajuste só agora.

O interesse por trás dessa pressão tem componentes econômicos – para dar continuidade ao modelo neoliberal – e geopolíticos – minar a integração regional progressista.

O Departamento de Estado observa com grande preocupação os últimos resultados eleitorais na América Latina e no Caribe. Primeiro foi a Bolívia, depois o Peru e Honduras, e finalmente o Chile. A agenda deste 2022 pode trazer mais notícias ruins para o Comando Sul: na Colômbia (em junho) e no Brasil (em outubro) a direita prevê derrotas.

Em meio a esse quadro, o FMI aparece como peça fundamental e agente de extorsão. A entidade quer condicionar a Argentina com um programa econômico ortodoxo, supondo que sua aplicação vai amarrar o projeto nacional e popular de forma a poder engoli-lo mais facilmente.

A do acordo por parte de Fernández permitiria ao FMI impor condições de acordo com os seus interesses. Por exemplo, prolongando a paralisação do crescimento econômico evidenciada ao longo de 2021, promovendo o desgaste da Frente de Todos (coalizão peronista) e sua potencial implosão em decorrência das divergências em torno ao acordo, diminuindo o investimento estatal em infraestrutura e assistência social em detrimento dos grupos mais desfavorecidos; aumentando a hostilidade do governo para com seu próprio eleitorado, garantindo que a recuperação de divisas será usada exclusivamente para pagar os credores privados e ressarcir os cofres do FMI, entre outras coisas.

Diante de tais danos estruturais, vislumbram-se três cenários:

– Aceitar as cláusulas do FMI e concordar com uma provável reação social semelhante à do ano de 2001 – durante a crise do “corralito”, que levou à renúncia do então presidente Fernando de la Rúa.

– Rejeitar as exigências do FMI de forma definitiva e se aventurar em uma experiência de inadimplência sem precedentes, com um final imprevisível. O papel das centrais sindicais, dos movimentos sociais e dos referentes políticos se tornaria central para enfrentar a ofensiva global, que implicaria em rejeitar totalmente qualquer acordo. Essa atmosfera seria análoga a uma façanha independentista, que vem sendo atiçada pela oposição – aliada aos centros de poder global e que busca um cenário no qual tudo exploda em mil pedaços.

– Recusar as condições do acordo, mas, ao mesmo tempo, pagar aquilo que é devido, em relação direta com a capacidade real de economizar moeda estrangeira. Esse cenário também supõe uma tensão permanente, devido à negativa explícita em aceitar o programa do FMI, mas suas perspectivas parecem ser menos conflitivas que a da segunda opção. O papel da oposição, neste caso, seria o mesmo da hipótese anterior.

Os patriotas argentinos se enfrentaram contra um império em pleno Século XIX. Não é verdade que essa condição patriótica se extingue. Ainda há entusiasmo latino-americano no território onde lutaram Mariano Moreno, José de San Martin, Manuel Belgrano, María Remedios del Valle, Manuel Dorrego e Juana Azurduy, entre muitos outros.

Acreditar que façanhas são apenas para heróis distantes e inalcançáveis %u20B%u20Bé a maneira mais natural de se resignar a ser súditos. Manuel Rodríguez foi um dos oficiais chilenos que lutou sob as ordens de San Martín, cumprindo tarefas semelhantes às executadas por Juan Martín de Güemes, na região que hoje é o Norte da Argentina. Uma de suas frases mais lembradas é: “Ainda temos uma pátria, cidadãos”.

Jorge Elbaum é sociólogo, doutor em Ciências Econômicas e analista sênior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE).

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli






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