Cartas do Mundo

Carta de Buenos Aires: Plano de choque proposto pelo FMI choca com a realidade argentina

 

13/01/2022 12:14

(Arquivo NA)

Créditos da foto: (Arquivo NA)

 

Os pagamentos da dívida externa argentina foram estipulados em 692 milhões de dólares esta semana. Trata-se de valores vinculados à reestruturação de títulos de 2020, e de uma quantia importante, se levarmos em conta as dificuldades na frente externa e os compromissos com o FMI (Fundo Monetário Internacional) para os próximos meses.

No primeiro trimestre do ano, o país deve pagar ao FMI cerca de 3,976 bilhões de dólares, relativos à dívida em si e aos juros, dos quais 1,1 bilhão tem vencimento entre o final deste mês e o início de fevereiro.

Por isso, o presidente Alberto Fernández ratificou sua negativa à pretensão do FMI de impor um programa de choque em troca do refinanciamento da dívida de 44 bilhões de dólares, contraída pelo governo neoliberal de Mauricio Macri.

Ele assegurou que a dívida com o FMI não pode ser paga nas condições atuais, e deve ser renegociada antes de março. Mas a prioridade dessa negociação é que o programa do acordo não signifique uma austeridade fiscal que prejudique a recuperação interna.

Não há dúvida de que a Argentina não está em condições de pagar as dívidas contraídas por Macri. Fica claro, também, que suas pretensões de pagamento com redução da dívida, os prazos mais longos, os juros mais baixos e a menor pressão para reduzir o déficit fiscal têm poucas chances de serem aceitas pelo FMI, nas condições estabelecidas pelo país.

Alberto Fernández quer mostrar ao FMI que tem o apoio de governadores, parlamento, empresários, partidos políticos e algumas centrais sindicais da Argentina. Sua aspiração é que todas essas superestruturas associem o critério de aceitar o acordo, com a suposta condição de que isso permitirá ao país voltar a crescer.

Em meio a essas negociações, houve uma posição notoriamente diferente, a do governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saa, que destacou a seus pares que “negociar com o FMI, com a catástrofe que significa para os próximos anos, e a condenação das gerações futuras, e não qualificar essa dívida como odiosa, como uma farsa, é um caminho errado, que não aceito. Lamento, sei que isso é uma verdade incômoda”.

Nesta mesma linha do presidente argentino, o economista estadunidense Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, disse que o FMI cometerá um erro se insistir em pedir à Argentina um novo programa de ajuste mais rigoroso, que impeça o crescimento do PIB dos últimos meses.

“O FMI ganhou novo respeito por respostas eficazes às crises globais, desde a pandemia, e também graças às mudanças climáticas e a desigualdade. Se esse curso for revertido com as antiquadas exigências de austeridade para a Argentina, as consequências para o próprio Fundo seriam graves”, disse o economista, um dos mentores do ministro argentino da Economia, Martín Guzmán.

Os resultados deste que é o maior empréstimo concedido na história da organização foram deploráveis tendo em conta que o objetivo era ajudar a Argentina a restaurar a confiança, reduzir a balança de pagamentos e os desequilíbrios fiscais e reduzir a inflação.

Na realidade, a estratégia do macrismo ao pedir o empréstimo ao FMI foi justamente o de sustentar a implementação de um ajuste fiscal e monetário, combinado com reformas estruturais específicas, para catalisar novos fluxos de capital.

Portanto, o mínimo que a agência pode fazer hoje é reconhecer a inviabilidade de suas políticas, o sofrimento causado por elas e sua absoluta contradição com os direitos humanos das populações sobre as quais são aplicadas. E, consequentemente, apresentar aos argentinos um plano de pagamento de acordo com a realidade.

Em março passado, Fernández havia descrito como “impossíveis de pagar” os vencimentos de 19 bilhões de dólares para este ano, e de 20 bilhões de dólares para o próximo ano. Desde então, seu governo vem conversando com o FMI para encontrar uma fórmula que permita pagar a dívida sem sacrificar o crescimento, e sem esquecer os 40% da população argentina que sobrevive abaixo da linha da pobreza.

Para o atual governo, o crédito concedido ao macrismo é inqualificável em termos técnicos, e serviu apenas para apoiar um regime ultraneoliberal, que estava em seu último ano no poder, e já havia se mostrado tão inepto quanto destrutivo para a economia da Argentina.

Apesar do empréstimo sem precedentes, a Argentina não deixou de sofrer com uma desvalorização brutal da sua moeda, inflação de 56%, aumento nos preços de eletricidade, gás e gasolina, demissões em massa nos setores público e privado, fechamento massivo de empresas de todos os tamanhos e, como resultado de tudo isso, uma precariedade das maiorias sociais, que sentem que o país está longe de se recuperar.

O FMI reconheceu, em seu próprio relatório de avaliação de empréstimos, que o programa não atingiu seus objetivos, apesar de ter propiciado mudanças significativas nas políticas econômicas do país: a taxa de câmbio continuou a se depreciar, a inflação aumentou e o valor da dívida pública e das rendas reais enfraqueceram, principalmente a dos pobres.

Se persistir em sua intransigência, o FMI será responsável por mais um ciclo de crise econômica e social na Argentina, uma das nações mais punidas por suas intervenções fracassadas, diante de um governo que ainda não ousa deixar de pagar a dívida e continua negociar e negociar.

Rodolfo Koé Gutiérrez é jornalista econômico argentino e analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli


Conteúdo Relacionado