Cartas do Mundo

Carta de Manágua: Daniel Ortega assume a presidência da Nicarágua pela quinta vez: entre a democracia e a ingerência

 

12/01/2022 09:10

(AFP)

Créditos da foto: (AFP)

 

Em um ato realizado na Praça da Revolução de Manágua, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega (76), assumiu o cargo para um novo mandato de cinco anos, o quarto consecutivo e o segundo tendo como vice-presidente a sua esposa Rosario Murillo (70).

A cerimónia teve como pano de fundo a punição “brutal” aplicada pelos Estados Unidos e pela União Europeia a familiares, parentes, funcionários e algumas entidades como a Polícia e o Ministério Público, por alegada corrupção e violação de direitos humanos. Sanções que não se aplicam a corruptos, torturadores e assassinos nos Estados Unidos.

Em nome da “democracia”, o governo de Joe Biden e seus parceiros na União Europeia impuseram novas sanções à Nicarágua e a várias autoridades do país. Ortega foi irônico com as sanções de Washington e disse que se tratava de uma “condecoração”, em referência ao castigo imposto à presidente do Conselho Supremo Eleitoral nicaraguense, Brenda Rocha, e a seus dois de seus filhos.

Diante da recusa da União Europeia e de Washington em reconhecer seu governo, Ortega agradeceu a presença de delegados de governos e povos amigos da FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional). Entre eles, destacou o pacifista norte-americano Brian Wilson, que perdeu as pernas em 1987, quando protestou nos trilhos de uma ferrovia pelo envio de armas aos “contras” da Nicarágua.

Ortega obteve 75,92% dos votos em uma eleição questionada, realizada em 7 de novembro, após a prisão de sete adversários. Além desses, também foram presas 120 pessoas que foram acusadas de participar dos protestos de 2018, que deixaram 355 mortos e mais de 100 mil exilados. O governo os considera “criminosos” que organizaram um golpe com a ajuda dos Estados Unidos.

Ortega, um dos comandantes da FSLN que libertou o país das ditaduras de Anastasio Somoza, em 1979, governou o país pela primeira vez na Década de 1980. Ele voltou ao poder há 15 anos, e nesta segunda-feira (10/1) iniciou um novo mandato de cinco anos.

Democracia e intromissão

Washington e Bruxelas consideram que essas eleições “não foram democráticas”. Ortega acusou o país norte-americano e o bloco europeu de “desrespeito à soberania e tentativa de intromissão” em seu país. Em novembro passado, ele anunciou a retirada do seu país da OEA (Organização dos Estados Americanos).

Por meio dessa mesma OEA, alguns países latino-americanos, como Chile e Costa Rica, desconheciam a legitimidade das eleições e exigiam a libertação de opositores presos, enquanto outros, como Bolívia, Cuba e Venezuela, felicitaram Ortega pela vitória.

Nesse contexto, a Nicarágua retomou as relações diplomáticas com a China. Em 9 de dezembro, após desfazer os laços que o país mantinha há mais de 30 anos com Taiwan e reconhecer o princípio de “uma China”, os dois países fizeram seu primeiro grande acordo em anos, que foi acompanhado de uma doação de milhares de vacinas. Três semanas depois, a China reabriu sua embaixada em Manágua.

Ortega também fortaleceu seus laços com Moscou, que lhe oferece ampla cooperação na venda de trigo, de vacinas anticovid, veículos para renovar o transporte público e inclusive equipamentos para construir uma estação de satélite.

“Vamos continuar lutando para defender o povo, para que ele tenha saúde, educação e moradia”, disse o ex-comandante sandinista, depois de empossar seus novos ministros.

O presidente também pediu o fim das sanções dos Estados Unidos contra Cuba e Venezuela, e assegurou que o governo de Joe Biden mantém mais de 700 pessoas como presos políticos, em alusão aos seguidores do ex-presidente Donald Trump que invadiram a sede do Capitólio há um ano.

Victoria Korn é jornalista venezuelana, analista de temas sobre a América Central e o Caribe, associada ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli


Conteúdo Relacionado