Cartas do Mundo

Carta de Montevidéu: Medidas sanitárias insuficientes de Lacalle Pou são alvo das críticas carnavalescas

 

14/01/2022 14:29

(Reprodução/Twitter)

Créditos da foto: (Reprodução/Twitter)

 
O governo de direita do Uruguai, liderado por Luis Lacalle Pou, tem grande flexibilidade tática e um senso de pragmatismo herdado de seu pai, o ex-presidente Luis Lacalle Herrera, e o qual ele sabe utilizar. É por isso que, quando quer demonstrar que ele é o presidente e que tem capacidade de comando, ele monta cenas chamativas, como uma série de conferências diárias em horário comercial, na pior fase da pandemia, numa espécie de cadeia nacional camuflada.

Uma rede midiática com a qual seus consultores de imagem tentam mostrar um presidente atuante e presente – mas que, ao mesmo tempo, nega a apoiar entidades como a Associação de Mães e Familiares de Desaparecidos da Ditadura, a única central sindical PIT-CNT e a Comissão Nacional Pró Referendo.

Assim, Lacalle Pou consegue ser, ao mesmo tempo, negligente e ausente. O presidente insiste em ignorar a existência das cozinhas populares, nunca visitou nenhum deles. Esses pequenos refeitórios comunitários alimentam milhares de uruguaios que foram abandonados pelas medidas do governo da coalizão de direita, e que sobrevivem graças à ajuda de outros compatriotas – em muitos casos, essas pessoas que ajudam vivem em situação de necessidade, quase igual a que vivem aqueles que estão sendo ajudados.

Claro, o mandatário uruguaio também participou de algumas inaugurações nos balneários do leste do país, incluindo hotéis luxuosos e com direito a selfies com jet set local. Também foi visto em eventos posteriores aos incêndios florestais em Paysandú, no litoral norte, mas só apareceu quando já eram o fogo já havia sido controlado pelos bombeiros.

Ao mesmo tempo, não teve vergonha de criticar o governo anterior da Frente Ampla. “Não sei se as rédeas da corrupção foram soltas. Não estou falando desse governo, estou falando do anterior. Talvez devesse ter sido mais rigoroso”, disse Lacalle Pou, que está no poder há quase dois anos, desde que a Frente Ampla perdeu as eleições em 2019.

Desta vez, a agência de publicidade do governo freou um pouco a campanha para “humanizar” o presidente. No verão passado, houve uma catarata de selfies, Lacalle Pou surfando, ou recolhendo papéis na rua, passeando em um parque, posando só de bermuda e sem camisa, comprando legumes na feira, etc.

Em uma espécie de “macrismo oriental” – uma tentativa de se assemelhar ao ex-presidente neoliberal argentino Mauricio Macri, que deixou seu país em ruínas – Lacalle Pou foi fotografado tirando o lixo de um contêiner público. Ele deixa a barba crescer para sair melhor nas coletivas, reforça seu bronzeado, anda sob a chuva e ajuda nos incêndios.

O presidente está quando decide estar e quando convém à sua imagem. Em declarações recentes, ratificou a estratégia do governo e quando o novo presidente da Frente Ampla (centro-esquerda), Fernando Pereira, perguntou pelas medidas a respeito da nova onda de infecções por covid-19, ele ironizou: “que medidas vocês querem?”.

Parece que a temporada de verão continuará seu curso, apesar do setor de turismo exigir medidas e denunciar que os protocolos sanitários não estão sendo seguidos. Nesta semana, o Uruguai chegou a registrar 10 mil novos casos de covid-19 em um único dia.

Por outro lado, porta-vozes não oficiais do governo saem do controle e dizem que o presidente não tem coragem, ou não prefere dar declarações sobre o aumento dos casos, e, na verdade, o silêncio de Lacalle Pou acaba sendo cúmplice de tais declarações. Na semana passada, a senadora nacionalista Graciela Bianchi, terceira na linha de sucessão, disse que o Poder Judiciário estava “infiltrado”, e que isso “explica porque não há mais gente da Frente Ampla em cana”.

Além de ser uma frase pouco republicana – algo que a própria senadora tanto se gaba –, o fato é que não há nenhum membro da Frente Ampla “em cana”, por isso chama a atenção esse anseio. Essa mesma frase, se fosse proferida por um dirigente da Frente Ampla em referência a líderes de partidos da direita teria gerado um rebuliço de grande magnitude.

Por fim, o inefável deputado do Partido Colorado, Felipe Schipani, famoso por sua perseguição aos sindicatos da educação, disse que espera um carnaval com muitos ataques ao governo e à LUC (Lei de Urgente Consideração Urgente), por seu caráter impopular, e por isso propôs instalar postos de defensores da lei nos locais onde haverá eventos carnavalescos, como o Velódromo de Montevidéu e o Teatro de Verão.

O primeiro é o maior palco da capital, onde se apresentam os grupos de murgas e os conjuntos carnavalescos. O segundo é onde acontece o concurso de carnaval. “Vamos entrar na boca do lobo com nossos militantes”, assegurou o deputado.

No dia 27 de março, será realizado o referendo para a revogação de 135 artigos da LUC, após o sindicalismo e a esquerda coletarem mais de 700 mil assinaturas. Se o referendo fosse votado no próximo domingo, 49,4% dos cidadãos concordaria em revogar a LUC, segundo pesquisa da consultora Nómade, mas há também 41,2% a favor de manter a lei, enquanto 9,4% estão indecisos.

Como é costume, a direita quer atacar o carnaval. Em 2020, houve uma ação agressiva para instalar mecanismos de censura aos grupos carnavalescos. Em 2021, as festas foram suspensas devido à pandemia. Em 2022, os artistas estão novamente sob ataques. Se governassem pelo povo, estaríamos cantando em outro ritmo… que também é o das murgas.

Nicolás Centurión é psicólogo formado pela Universidade da República, do Uruguai, membro da Rede Internacional de Estudos da Dívida Pública (RICDP) e analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




Conteúdo Relacionado