Cartas do Mundo

Carta de Paris: Corpos no Sena

O trabalho de memória da guerra da Argélia emerge dificilmente

25/10/2021 11:14

Argelinos presos após manifestação independentista; massacre deixou cerca de 200 mortos (Arquivo/AFP)

Créditos da foto: Argelinos presos após manifestação independentista; massacre deixou cerca de 200 mortos (Arquivo/AFP)

 
17 de outubro de 1961.

Naquela noite, em Paris, a polícia francesa cometeu um massacre considerado por historiadores como a mais violenta repressão de uma manifestação pacífica na Europa, depois da Segunda Guerra Mundial.

Naquela noite, cerca de 200 argelinos foram mortos e muitos corpos foram jogados no Sena por policiais franceses. Os historiadores nunca puderam estabelecer o número exato de vítimas. Os policiais autores do massacre eram submetidos à autoridade de Maurice Papon, « préfet de police de Paris ».

Maurice Papon tinha sido o responsável pela deportação de judeus da região de Bordeaux durante a guerra. No fim da vida, em 1998, ele foi julgado e encarcerado por esse crime de colaboração com o ocupante nazista, mas jamais foi responsabilizado pelos mortos do 17 de outubro.

Naquela noite, um ano antes do fim da guerra da Argélia, os trabalhadores argelinos estavam desarmados e tinham vindo da banlieue parisiense protestar pacificamente na capital contra o toque de recolher. Discriminatória, a proibição de sair à noite dizia respeito apenas aos argelinos, chamados então de « franceses muçulmanos da Argélia ». A Frente de Libertação Nacional (FLN) convocou os trabalhadores a manifestar em Paris contra a medida.

Naquela noite, a République cometeu um « crime de Estado » nunca reconhecido como tal. Ao contrário, a imprensa praticamente não noticiou o massacre. A narrativa do que se passou foi totalmente truncada, censurada, e os arquivos oficiais ficaram inacessíveis aos historiadores.

"Aqui afogamos os argelinos' (Jean Texier/Mémoires d’Humanité - Archives départementales de la Seine-Saint-Denis)

O ministro do Interior Roger Frey, o primeiro-ministro Michel Debré e o presidente Charles de Gaulle estavam na cadeia de comando do crime de Estado até hoje não reconhecido. Essas autoridades sempre foram protegidas pelo silêncio que se abateu sobre o 17 de outubro.

Da « repressão sangrenta » aos « crimes imperdoáveis »

Mesmo Emmanuel Macron, que este ano reconheceu o massacre em um comunicado do Eliseu, não ousou dizer que a République tem uma página manchada de sangue e que autoridades estavam por trás do crime.

O comunicado dizia : « Os crimes cometidos naquela noite sob a autoridade de Maurice Papon são imperdoáveis para a République ».

O comunicado « esqueceu » de dizer quem era Maurice Papon na época do massacre. E quem eram seus superiores diretos.

Mesmo assim, esta frase já representa um enorme passo na reconciliação de memórias, entre a ex-colônia e a França, promovida por Macron.

Em 2012, o presidente Hollande reconhecera a « repressão sangrenta » na noite de 17 de outubro de 1961. Tinha sido o passo mais importante até o comunicado de Macron e sua participação este ano numa cerimônia oficial, inédita, em memória das vítimas dos crimes da polícia de Paris.

Somente agora, 60 anos depois, na véspera do aniversário, um presidente francês depositou, perto de uma das pontes do Sena, uma coroa de flores em memória das vítimas, que nos números oficiais da época se resumiram a três pessoas.

Depois de passados 60 anos do « crime de Estado » os franceses puderam ver o que o « Le Monde » qualificou de « demi-pas » (meio passo), na edição do dia seguinte à cerimônia.

« Papon é o culpado expiatório”, lamentou Mehdi Lallaoui, fundador da associação « Em nome da memória » e autor do documentário « Le silence du fleuve » (O silêncio do rio). « Charles de Gaulle era o presidente, Michel Debré era o primeiro-ministro, Roger Frey era o ministro do interior e Maurice Papon era o chefe de polícia ».

Emmanuel Macron presta homenagem durante cerimônia que relembra argelinos mortos em massacre em Paris em 1961 (Rafael Yaghobzadeh/AFP)

Todo mundo sabe que Papon não agiu por decisão pessoal. Era uma das autoridades de uma cadeia de responsabilidade.

Para protestar contra um crime de Estado nunca assumido como tal, no dia 17 de outubro deste ano, milhares de manifestantes foram para as ruas com cartazes que diziam : “17 de outubro, crime de Estado ». Outros diziam : « Não esqueceremos ».

Colonização, crime contra a humanidade

Um pouco antes de sua eleição, de passagem por Argel, o candidato Macron reconheceu em entrevista a um jornalista argelino que « a colonização é um crime ».

« É um crime contra a humanidade. É uma verdadeira barbárie e isto faz parte deste passado que devemos olhar de frente apresentando nossas desculpas àqueles contra quem cometemos estes gestos. Ao mesmo tempo, não podemos varrer este passado e não lamento isso porque existe uma bela frase que vale para a Argélia : « A França instalou os direitos humanos na Argélia, mas simplesmente esqueceu de lê-los ».

Esta entrevista de Macron poucos meses antes de sua eleição lhe valeu todo tipo de crítica da direita e da extrema-direita. A mesma extrema-direita que não admitia a independência da colônia e atentou mais de uma vez contra a vida de De Gaulle.

A independência da Argélia foi assinada entre o governo francês e o governo provisório da República Argelina nos Acordos de Évian, em 18 de março de 1962.

A guerra da Argélia não cessa de motivar a polêmica na França. Mas o que não se pode negar a Macron – o primeiro presidente francês que nasceu depois do fim dessa guerra – é sua vontade de assumir a História francesa, sua glória e seu horror.

Não se deve esquecer que foi ele quem reconheceu a responsabilidade do Estado francês na morte de Maurice Audin, torturado e desaparecido em Argel, depois de preso pelo Exército francês. Em 2018, Macron foi pessoalmente pedir perdão à viúva de Audin, Josette Audin, que desde 1957 lutava para o reconhecimento do desaparecimento como um « crime de Estado ».

Madame Audin morreu alguns meses depois do pedido de perdão de Macron, aos 88 anos.

Este ano, Emmanuel Macron reconheceu que o advogado Ali Boumendjel foi « torturado e assassinado » pelo exército francês na Argélia. Uma mentira de Estado espalhada pelos militares na época da guerra da Argélia atribuía sua morte a um suicídio na prisão.

Todas essas iniciativas de Emmanuel Macron – bem como a cerimônia e o comunicado deste ano – foram criticadas pela direita e pela extrema-direita, que não admitem nenhum ato do que elas chamam de « arrependimento ».

Em julho de 2020, o presidente da República deu ao historiador Benjamin Stora, reconhecido especialista da história da Argélia, a missão de dirigir um grupo de trabalho para apontar os pontos justos e precisos que ainda são problemáticos na memória da colonização e da guerra da Argélia.

Em janeiro de 2021, o historiador entregou o « Relatório Stora » ao presidente com cerca de trinta recomendações no sentido de continuar a construção de uma memória comum.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional



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