Cartas do Mundo

Carta de Paris: Em Paris, Mélenchon defende Lula e Ciro Gomes mira o espólio do PT

'A prisão de Lula e o afastamento de Dilma Rousseff fazem parte do golpe de Estado judiciário', disse Mélenchon explicando que um líder como Lula 'tem uma estatura política que não está à venda'

09/04/2018 19:35

 

 

Leneide Duarte-Plon

Enquanto o Partido Socialista (PS), com o qual o PT tem relações institucionais, mantém um silêncio ensurdecedor sobre o golpe e sobre a prisão de Lula, Jean-Luc Mélenchon defendeu enfaticamente a inocência de Lula, em entrevista à Rádio Europe1, no domingo, dia seguinte à prisão.

Didático, Mélenchon deu uma breve aula de geopolítica em três minutos explicando como o Brasil e a América do Sul estão submetidos aos interesses norte-americanos.

O deputado francês que criou o movimento  La France Insoumise  e o Parti de Gauche explicou que a direita brasileira acusa e prende Lula, "um presidente que tirou milhões de pessoas da extrema pobreza", para impedi-lo de voltar à presidência.

"A prisão de Lula e o afastamento de Dilma Rousseff fazem parte do golpe de Estado judiciário", disse Mélenchon explicando que um líder como Lula "tem uma estatura política que não está à venda".

"Lula não é corrupto, é preciso ignorarem a ideia que ele tem de si mesmo para imaginarem que pode ser comprado por um apartamento", declarou Mélenchon.

No mesmo dia, na Place de la République, mais de 200 pessoas se reuniram para ouvir políticos e sindicalistas e protestarem contra a prisão do presidente Lula, o primeiro prisioneiro político do golpe de 2016.

Os slogans diziam, entre outras coisas :  Trump, Temer, CIA, bas les pattes devant Lula  (Trump, Temer, CIA, tirem as patas de Lula).

Menos claro e incisivo que Mélenchon, Ciro Gomes nem tentou questionar a justiça de exceção do Brasil. Falando a um público de brasileiros na Sorbonne, dias antes da prisão de Lula, o ex-ministro entremeava a suas análises pequenas tiradas de humor. Em momento algum se declarou de esquerda. Definiu-se como um "progressista" e afirmou que "o trabalhismo nunca abominou a iniciativa privada".

O ex-ministro da Integração Nacional do presidente Lula repetiu várias vezes que o Brasil vive "o fim de um ciclo", uma alusão velada à necessidade de virar a página do  "lulismo".  Mas admite que o Brasil vive hoje um retrocesso em todos os níveis.

Com um discurso voltado para análises econômicas, Ciro Gomes falou muito de números, taxa de câmbio e outros indicadores econômicos para tentar explicar o ambiente de crise mas brilhou por sua omissão em condenar os tiros sobre a caravana do ex-presidente, fato que ocorrera dois dias antes. Ele não teve nenhuma palavra forte para condenar o ato fascista.

Não fez nenhuma menção ao papel deletério da mídia brasileira que desde o julgamento que ficou conhecido como  mensalão  dedicou-se a destilar ódio ao PT e aos presidentes Lula e Dilma. Ciro Gomes não chegou nem mesmo a mencionar o papel de ator político da mídia nativa, que se esmerou em deformar e mentir em todas as notícias relacionadas ao PT.

A impressão que tive quando deixei o prédio em que Ciro Gomes falou é que o ex-ministro, apesar de declarar que "Lula é um gênio da política" estava mais preocupado com espólio do PT que com a defesa do ex-presidente.

Nenhuma palavra foi pronunciada por ele afirmando a inocência de Lula e condenando o processo eminentemente político de que ele é vítima.

Ele preferiu parecer neutro.

Até onde sua ambiguidade o levará ?
 



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