Cartas do Mundo

Carta de Paris: Os tutores da República vestem verde-oliva

 

10/09/2021 21:47

(Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)

Créditos da foto: (Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)

 
« O Exército vai deixar Lula voltar ao poder ? » (Libération, 7 de setembro de 2021)

« Cúpula militar garante posse se PT ganhar » (Relatório Reservado, 30 de outubro a 5 de novembro de 1989)

« Leônidas com Collor, faz tudo contra Lula » (Relatório Reservado, 20 a 26 de novembro de 1989)

« Sarney temia forte reação militar à vitória de Lula » (Relatório Reservado, 1 a 7 de janeiro de 1990).

Entre o título do jornal de esquerda francês, « Libération », e os outros três do « Relatório Reservado » - uma newsletter brasileira de negócios, finanças e política – se passaram mais de 30 anos.

Mas a especulação sobre a possível interferência militar nas eleições presidenciais brasileiras permanecem. E revela um país tutelado desde o golpe de Estado militar que proclamou a República.

Ao voltar do Brasil, onde descobri nos meus arquivos uma grande documentação sobre a eleição presidencial de 1989, pude constatar que os militares brasileiros continuam se vendo como aquele pai que pode vetar o casamento da filha com um indivíduo por considerá-lo « subversivo ».

É inimaginável o « Libération » perguntar se os militares permitirão a posse de um presidente dos Estados Unidos ou de qualquer outra democracia ocidental. Essa pergunta feita em relação às Forças Armadas diante de uma vitória de Lula em 2022 denota a fragilidade da democracia brasileira, que dependeria sempre do aval militar quando o governante eleito é de esquerda.

« Militares ultra-politizados e um Bolsonaro, que ameaça contestar o resultado eleitoral, permitiriam seu retorno ao poder em caso de vitória » ? interroga o texto da correspondente do jornal Chantal Rayes.

Em 1989 Lula queria diminuir o papel dos militares

Na primeira eleição direta após o fim da ditadura, em 1989, os militares brasileiros se mostraram preocupados com a passagem de Lula para o segundo turno. E apostaram todas as fichas em Collor, afastado por impeachment apenas dois anos depois de eleito, por inúmeras revelações de corrupção.

Numa entrevista de página inteira publicada no jornal “O Globo” em 15 de janeiro de 1989, Luis Inácio Lula da Silva, o candidato do PT à eleição presidencial, ex-sindicalista e deputado mais votado da Constituinte, foi questionado :

« Numa eleição direta para a presidência da República ainda é indispensável algum tipo de respaldo das Forças Armadas ? »

Sua resposta foi clara : « Eu não pretendo buscar esse respaldo. Não pretendo ter compromissos anteriores com os militares. »

Numa pergunta anterior, Lula respondeu sobre uma possível alteração da Constituição, caso fosse eleito.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 26 de agosto. (Arisson Marinho/AFP)

 « Eu gostaria de diminuir o papel dos militares porque acho que eles tiveram na Constituição um privilégio muito grande, ou seja, em nome da lei e da ordem eles podem tudo, são considerados seres superiores ao restante da sociedade. Eu penso que os militares deveriam ter o papel importante que têm em qualquer país do mundo, seja capitalista ou socialista. Mas acho que deveriam ter uma preocupação maior com a segurança externa, uma instituição que tivesse mais preocupação em defender a sociedade de adversidades externas, como na França, Itália e Estados Unidos, e não preocupação com problemas políticos internos. Nos Estados Unidos entra governo, sai governo, e as Forças Armadas não reagem dizendo que vai ser dessa ou daquela forma. Aqui no continente sul-americano, os militares são verdadeiros tutores da sociedade. Os militares brasileiros estão amadurecento para isso. Não é possível mais permitir a manutenção da doutrina de que o. golpe é a solução para a crise. »

O tweet do general Villas Bôas, em abril de 2018, provou que Lula foi muito otimista ao constatar, em 1989, que os militares brasileiros estavam amadurecendo. Naquele mês, um simples tweet pressionando o STF para não dar o habeas corpus a Lula garantiu a vitória de Bolsonaro, eternamente agradecido ao general que havia postado :

"Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?", dizia a primeira postagem, feita no dia 3 de abril. "Asseguro à nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais", completava.

E o STF encaixou perfeitamente o recado dos militares que continuam agindo como um partido político.

Lula assustava Leônidas Pires Gonçalves

Segundo o Relatório Reservado, o general Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército do governo Sarney, começara a “organizar os oficiais sobre os quais tem influência para a oposição ao candidato Luís Inácio Lula da Silva, em conversas informais no Quartel-General, o chamado Forte Apache de Brasília”.

O texto prossegue:

“Embora comprometido com a posse de quem for eleito – “tomar posse qualquer um toma, é da tradição republicana” – o general Leônidas, segundo um político com acesso aos bastidores da área militar, muda o discurso ao falar de Lula. “Este toma posse mas não governa”.

Não é, pois, de hoje que a cada possível eleição de um governo de esquerda os militares tiram do chapéu o coelho mágico do parlamentarismo ou do “semipresidencialismo”.

« Leônidas defendeu a adoção imediata do parlamentarismo, para tolher Lula, caso o dirigente petista seja eleito e lamentou que o Congresso não tenha aprovado o voto distrital, proposto por emenda do senador José Richa, do PSDB paranaense », conta a reportagem do Relatório Reservado.

A terra fez milhões de voltas em torno do sol e nada mudou na visão do Estado dos fardados brasileiros. Os políticos, como todos os brasileiros, devem estar sob a bota dos militares.

O texto do Relatório Reservado sobre o general Leônidas Pires Gonçalves continua : « O general rejeita o discurso de Lula contra “privilégios militares” e sua pregação em favor da criação do Ministério da Defesa. Acha que do ponto de vista econômico, não é conveniente unificar as pastas militares. O que o agride e irrita mais em Lula, entretanto, é a contundência com que o candidato defende a apuração do que ocorreu nos choques entre as Forças Armadas e os adversários – armados ou não – do regime militar. Na opinião do ministro do Exército e do Alto Comando, vasculhar o passado, depois da Anistia é inaceitável e poderá gerar turbulências de todo tipo nas Forças Armadas. »

Depois do segundo turno, segundo a mesma newsletter, o presidente José Sarney afirmou entre amigos que a vitória de Fernando Collor de Mello, de quem era adversário, teve um único aspecto positivo : desfazer o clima de insubordinação que havia constatado nas Forças Armadas diante da hipótese da vitória de Luís Inácio Lula da Silva.

O entåo presidente disse que teve conhecimento de um plano das Forças Armadas para desestabilizar o processo democrático em caso de eleição de Lula.

Ainda na campanha, Collor mostrou o nível de vale tudo de sua candidatura ao contratar a ex-namorada de Lula para dizer ao Brasil que ele lhe pedira para abortar o bebê que ela esperava.

Escândalo nas sacristias.

A própria filha de Lula, Lurian, veio depor em favor do pai que assumira plenamente a paternidade.

Na « Folha de São Paulo » de 14 de dezembro de 1989, o jornalista Jânio de Freitas escreveu :

« Não se conhece caso de político que adotasse métodos indecorosos para chegar ao Poder e, uma vez nele instalado, se revelasse escrupuloso, seja como governante ou como homem. O Poder antes agiganta vícios e deformações do que inocula virtudes. »

Ele comentava o ignominioso recurso ao depoimento muito bem remunerado de Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula.

Mas essa observação cai como uma luva para o presidente atual.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional





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