Cartas do Mundo

Carta de Paris: Tarso Genro : Brasil está vivendo processos de exceção

Em Paris, o ex-ministro da Justiça do governo Lula disse que nossas classes dominantes têm uma tradição escravocrata

17/04/2018 19:32

 

 

Uma voz que defendia a necessidade urgente de votar uma lei para regular a mídia no Brasil e garantir a informação honesta e o pluralismo da imprensa ouviu de um companheiro com importante cargo no governo do presidente Lula: "Temos a Rede Globo, não tem problema".

Essa história, que eu já conhecia com os personagens devidamente nomeados, foi contada nesta segunda-feira, dia 16, pelo ex-ministro Tarso Genro, na Maison de L’Amérique Latine em Paris, durante uma conferência-debate com brasileiros e franceses. O ministro falou em espanhol na presença de alguns diplomatas franceses e do embaixador do Brasil Paulo Oliveira Campos.

O fato relembrado por Genro revela ingenuidade ou cegueira ? Como pessoas inteligentes e com um passado de luta política podem ter sido tão cegas a ponto de negar a realidade da luta de classes, a impossibilidade de conciliar interesses das oligarquias com os dos trabalhadores ?

Apresentado por Christophe Ventura, do Institut de Relations Internationales et Stratégiques, e do alto de sua experiência de ex-ministro da Justiça de Lula, Tarso Genro analisou com detalhes o "teatro circense" como ele qualificou o impeachment de Dilma Rousseff.  A derrubada de uma presidente que não cometeu nenhum crime de responsabilidade foi "um golpe institucional", segundo o ex-ministro, que relembrou cenas patéticas do voto dos deputados.

 "A prisão do ex-presidente Lula tem consequências graves para a democracia no Brasil”, pensa Genro. Ele acrescentou que o que se passa atualmente no país lembra a exacerbação do clima social da Alemanha pouco antes do nazismo e da Itália do pré-fascismo.

Para Tarso Genro, estamos vivendo no Brasil processos de exceção convivendo com resíduos de republicanismo. Mas ele não vê sinais de reversão a curto prazo pois mesmo que Lula possa ser candidato e venha a ganhar a eleição vai ter dificuldade de estabelecer a governabilidade. "Ele ou qualquer outro que se eleger por uma união democrática", avalia.

"A criminalização da política leva à politização da criminalidade e ambas têm como consequência a anomia, a ausência de normas civilizatórias básicas, com a ruptura do tecido social", diagnosticou Genro que vê uma "crueldade insuportável" das classes dominantes do Brasil que rompem atualmente com o pacto social.

"Todos sabemos que o tráfico de drogas não está nas favelas, isso é mentira, é fraude".

Para ele, qualquer presidente que for eleito sem Lula participando normalmente da campanha não terá legitimidade para governar.

"Por isso dizemos que eleição sem Lula é fraude".

Segundo o ex-ministro, o PT é vítima de um sistema político indutor de corrupção e o partido está em quarto lugar entre os que têm mais dirigentes políticos processados. Ele lembrou que o presidente Lula tentou fazer a reforma política mas foi impedido pelo Congresso que tinha e tem interesse em que nada seja mudado no sistema que alimenta a corrupção.

O que o partido do presidente contesta, disse Genro, não é o fato de se processar um ex-presidente mas a ilegalidade do processo montado e desenrolado num clima de "campanha orquestrada por uma mídia totalmente alinhada aos interesses da oligarquia para destruir toda a esfera política".

As classes dominantes no Brasil têm uma tradição escravocrata e para ilustrar, Genro citou a reclamação de uma pessoa que julgava um absurdo sua mãe ter que cozinhar porque não podia mais pagar uma empregada com todos os direitos que essa categoria adquiriu : férias, décimo-terceiro salário e horas suplementares pagas, entre outros benefícios que foram garantidos por lei.

 Ao ser indagado como os brasileiros expatriados podem ajudar a informar o mundo do que se passa no Brasil Tarso Genro aconselhou : "Façam encontros, organizem debates e palestras, mantenham-se na luta».

Na saída, uma ex-exilada da ditadura de 1964 fez uma observação que outros participantes do debate devem ter feito : não se falou das privatizações nem de leis que atentam contra a soberania nacional, entre outras, a venda futura do Aquífero Guarani.

Mas, como disse Genro ao responder a uma pergunta bastante abrangente : há temas para vários seminários.

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