Cartas do Mundo

Carta de Paris: Uma ditadura que nunca acaba

 

15/12/2021 09:17

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
O livro Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar (recém-lançado na França com o título Tito de Alencar - Un dominicain brésilien martyr de la dictature) nasceu no dia 18 de junho de 2011 no 5º Seminário da Associação Primo Levi: “Linguagem e violência: os efeitos dos discursos na subjetividade de uma época”.

Após ter assistido à conferência “Tratar, testemunhar”, do psiquiatra e psicanalista Jean-Claude Rolland, que tratou de Tito de Alencar, pedi a ele que me desse uma entrevista, a ser publicada na revista Carta Capital. Um editor brasileiro me sugeriu realizar a entrevista não para publicar, mas para um futuro livro sobre Tito de Alencar, o frei dominicano que se suicidou na França. Tito havia sido preso e torturado junto com seus confrades em São Paulo, acusados de colaboração com a Ação Libertadora Nacional, do revolucionário Carlos Marighella.

Depois de muitas entrevistas no Brasil, em 26 de junho de 2012, um ano após a conferência da Associação Primo Levi, Clarisse Meireles e eu viajamos para Lyon e L’Arbresle, onde encontramos o Dr. Jean-Claude Rolland. Depois de uma longa entrevista, fomos com ele ao convento dominicano Sainte-Marie de la Tourette, onde Tito de Alencar viveu o último ano de sua curta vida. Fomos recebidos pelo prior Alain Durand e, depois de conversar com os frades que haviam conhecido Tito, visitamos a bela construção projetada por Le Corbusier. Em seguida, fomos visitar o cemitério onde o brasileiro ficou enterrado até 1983, quando seus restos mortais foram transferidos para Fortaleza, sua cidade natal.

Na lápide, pode-se ler: “Fr. Tito de Alencar Lima, O.P. -1945-1974. Frei da Província do Brasil. Encarcerado, torturado, banido do país, atormentado... até a morte por ter proclamado o Evangelho lutando pela libertação de seus irmãos, Tito descansou nesta terra estrangeira. No dia 26 de março de 1983 ele foi trasladado para sua terra de Fortaleza, onde descansa com o seu povo.

«Digo-vos que, se os discípulos se calarem, as próprias pedras clamarão» (Versículo do Evangelho de Lucas 19,40).

Um homem torturado - Nos passos de frei Tito de Alencar, que escrevi com a jornalista Clarisse Meireles, é a reconstituição do engajamento militante de Tito, uma das figuras mais trágicas da resistência à ditadura militar brasileira de 1964-1985.

A tortura

Durante o regime dos generais, a tortura era negada por todas as autoridades, civis e militares, mas fazia parte do arsenal da ditadura, sendo utilizada sistematicamente em sessões de interrogatório dos militantes de esquerda.

No prefácio do livro, o filósofo Vladimir Safatle escreveu:

“Tito suicidou-se em 10 de agosto de 1974 perto de Villefranche-sur-Saône, não muito longe do convento de Sainte-Marie de la Tourette. A tortura havia conseguido quebrá-lo psicologicamente, transformando sua vida posterior em um inferno de delírios e alucinações.

Sua história é uma das representações mais bem acabadas do engajamento da esquerda católica na luta contra as ditaduras latino-americanas, engajamento que foi apenas um capítulo da longa história de setores da Igreja Católica em sua aliança com os movimentos operários e comunistas no século XX.”

Brasil 2021

Hoje, podemos nos perguntar como, depois de uma ditadura tão longa - que deixou tantos mortos, desaparecidos e milhares de exilados - o Brasil pôde eleger um ex-militar nostálgico da ditadura. Bolsonaro tem em seu governo mais generais do que havia no governo Castelo Branco, o primeiro ditador da lista dos generais que governaram o Brasil a partir de 1964.

A resposta é simples: o Brasil não fez um trabalho de memória da ditadura e não puniu os responsáveis pela tortura. O país aprovou em 1979 uma lei de anistia que garantia impunidade a todos os militares e agentes do Estado responsáveis por crimes contra a humanidade como tortura e desaparecimentos forçados.

Clarisse Meireles, coautora do livro, escreveu um artigo para um jornal brasileiro, onde mostra o verdadeiro trabalho de ocultação da história da ditadura, o que se chama de "memoricídio", o assassinato da memória:

Ela escreve: “A ditadura não nos roubou apenas 20 anos de democracia. Ela está viva na truculência e na violação sistemática dos direitos humanos na política oficial de segurança, na precariedade da educação e da saúde públicas que só beneficia grupos privados, na despolitização de parte da população que repete que “político é tudo safado”, menosprezando qualquer militância política. E no onipresente sistema audiovisual de discurso único e linguagem infantilizada.

Só nossa cegueira coletiva nos permite continuar a aceitar as atrocidades das polícias militares de hoje, que se beneficiam de eterna impunidade, e não só a partir da ditadura. Temos que lembrar que a polícia sempre torturou e matou pobres neste país. Durante a ditadura civil-militar, militantes operários e pequeno-burgueses experimentaram essa mesma truculência em nome de uma “guerra anti-subversiva” e do anticomunismo, quando prisões arbitrárias e tortura se tornaram política de Estado e a imprensa, censurada, era obrigada a se calar”.

No prefácio do meu livro A tortura como arma de guerra, da Argélia ao Brasil, Vladimir Safatle cita a socióloga americana Kathryn Sikkink, que afirma que se tortura mais no Brasil hoje do que se torturava durante a ditadura.

Amigo mais próximo de Tito de Alencar em seu último ano no convento de la Tourette (1974), o dominicano Xavier Plassat desenvolve, desde 1989, um trabalho pastoral no Estado do Tocantins e coordena a campanha da Comissão Pastoral da Terra contra o trabalho escravo. Ele escreveu em seu belo texto de apresentação de nossa biografia de Tito de Alencar:

“Precisamos escutar, resgatar e honrar com justiça as vozes abafadas e os sonhos dos resistentes e lutadores.

Sem a elucidação constante da verdade, particularmente em relação às sombras mais trágicas da nossa história, tornam-se incompreensíveis e insuperáveis as recorrentes e brutais manifestações de violência, de barbárie, que continuam pontuando nosso tempo, nos presídios, nas delegacias, nos morros, nas fazendas: a matança de jovens, de posseiros, de negros, de índios, de migrantes, de travestis, de prostitutas; a comercialização de gente e sua escravização; a confiscação da esperança, a negação do bem-viver”.

O melhor amigo brasileiro de Tito no Convento Saint-Jacques em Paris, Magno Vilela, disse a Clarisse Meireles e a mim:

“Antes de nosso engajamento junto a Marighella achávamos que a nossa generosidade, a virulência do Evangelho bastariam para transformar a realidade, e aprendemos com a ditadura que isso só não bastava. Percebemos que os autores da ditadura reivindicavam também o mesmo Evangelho”.

Hoje, muitos dos que tomaram o poder no Brasil com um discurso de ódio e de destruição do adversário, visto como um inimigo a ser eliminado, também se definem como evangélicos.

De uma coisa podemos ter certeza: não falamos do mesmo Evangelho. A ação dos frades dominicanos que foram torturados e exilados inspirava-se no Cristianismo da Libertação, da Fraternidade e da Partilha.

Muitos religiosos engajados durante a ditadura pagaram com a vida.

É preciso lembrar que o atual presidente brasileiro disse que o erro dos militares brasileiros foi não ter matado 30 mil "subversivos", como o regime de Pinochet.

O memoricídio e a amnésia, construídos deliberadamente pela direita e pelos militares, permitiram o apagamento da história do terrorismo de Estado implantado no Brasil de 1964 a 1985. E a lei da anistia, confirmada pelo STF em 2010, garantiu a impunidade aos torturadores.

A cumplicidade da mídia permitiu neutralizar o fabuloso trabalho da Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório final foi apresentado à Presidenta Dilma Rousseff em 10 de dezembro de 2014.

*Palestra feita na Soirée Tito de Alencar, em Paris, dia 7 de dezembro que reuniu num debate o dominicano Paul Blanquart, o cientista político Michael Löwy, o filósofo Vladimir Safatle, o editor Robert Ageneau e o psiquiatra que tratou de Tito, Jean-Claude Rolland, além do dominicano Xavier Plassat, coordenador da Comissão Pastoral da Terra, que falou do Brasil

Tradução de Clarisse Meireles




Conteúdo Relacionado