Cartas do Mundo

Francesas divididas na luta feminista

A polêmica em torno do manifesto comprovou que vai ser muito difícil formar uma 'frente unida' na luta contra a milenar dominação masculina

19/01/2018 12:27

REGIS DUVIGNAU REUTERS

Créditos da foto: REGIS DUVIGNAU REUTERS

 
Catherine Deneuve defensora dos agressores sexuais ?

Por ser a francesa mais conhecida internacionalmente entre as 100 mulheres que assinaram o manifesto publicado no “Le Monde” de 10 de janeiro pela “liberdade sexual” e contra o “puritanismo” como reação à campanha – americana, depois mundial – de denúncias de estupros e agressões sexuais, a atriz ficou exposta a todas as críticas que o texto suscitou.

Esta semana ela resolveu falar através de uma carta ao jornal “Libération” para explicar suas motivações e negar uma pretensa posição machista. Na carta, ela pede desculpas às mulheres vítimas de “atos odiosos que possam ter-se sentido agredidas” pelo texto.

Ao mesmo tempo, em sua carta Deneuve se distancia de Brigitte Lahaye, uma das signatárias do manifesto, que afirmou numa entrevista à TV BFM que uma mulher “pode gozar durante um estupro”. “Esta afirmação é pior que uma cuspida na cara das vítimas desse crime”, ressaltou Deneuve.

“Nada no texto que assinei pretende defender o assédio sexual como sendo uma coisa aceitável. Se assim fosse, não o teria assinado. Será que tenho que lembrar aos que me criticam por não ser uma militante feminista que assinei o “Manifeste des 343 salopes”, escrito e assinado por Simone de Beauvoir ? Naquele ano de 1971, 343 mulheres corajosas como Marguerite Duras e Françoise Sagan, declaravam, como eu, que tinham abortado, quando o aborto ainda era proibido na França”, diz a atriz na carta.

As feministas francesas mais radicais não viram com bons olhos nem o texto do manifesto nem a reação de algumas de suas signatárias que, como a escritora Catherine Millet, resolveram fazer humor. Millet disse em uma entrevista à rádio France Inter que “se todas as moças bonitas fogem agora dos homens com medo de ser importunadas, quem sabe as menos bonitas aproveitarão para encontrar um lugar junto a esses homens”.

O problema desse manifesto é que ele exprime a posição de signatárias plenamente reconhecidas em suas diversas profissões (escritoras, editoras, psicanalistas, artistas), que têm uma independência e uma autonomia de que não gozam todas as mulheres do mundo. Reivindicando um feminismo individualista e “não puritano”, elas atraíram a fúria de milhares de mulheres em todo o planeta.

Mas o manifesto tinha trechos positivos quando denuncia o clima inquisitorial de caça às bruxas : “Essa febre para mandar os “porcos” ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a conquistar sua autonomia, serve na verdade aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários e daqueles que acreditam, em nome de uma concepção substancial do bem e da moral vitoriana que os envolve, que as mulheres são seres “à parte”, crianças com rosto de adultos, que pedem para ser protegidas. Diante delas, os homens são instados a fazer seu mea culpa e a encontrar, no fundo de sua consciência retrospectiva, um “comportamento deslocado” que poderiam ter tido dez, vinte ou trinta anos atrás, e do qual deveriam se arrepender».

Outro trecho do manifesto que julgo positivo é a denúncia de uma censura a obras de arte, num revisionismo perigoso. Ele diz : “A onda expiatória parece não ter limites. Aqui, censuramos um nu de Egon Schiele em um cartaz; ali, pedimos a retirada de um quadro de Balthus de um museu alegando que seria uma apologia da pedofilia; na confusão entre o homem e a obra, pedimos a proibição da retrospectiva de filmes de Roman Polanski na Cinemateca e conseguimos o adiamento daquela dedicada a Jean-Claude Brisseau. Uma universitária considera Blow Up, o filme de Michelangelo Antonioni, “misógino” e “inaceitável”. À luz desse revisionismo, John Ford (Rastros de Ódio), e até mesmo Nicolas Poussin (O Rapto das Sabinas) ficam numa situação delicada».

Mas ao parecer minimizar o trauma sofrido por quem foi agredida sexualmente ou estuprada, o texto é infeliz em algumas passagens.

A principal crítica que faço a Catherine Deneuve é ter colocado sua assinatura num texto desigual e canhestro, quando por exemplo fala da “liberdade de importunar”. Mas, principalmente por ter ele sido assinado por algumas representantes do antifeminismo e do neoconservadorismo. Na primeira categoria está a psicanalista Hélène Vecchialini que defende os homens como “vítimas da onipotência feminina”. Na segunda, Elisabeth Lévy, editora da revista “Causeur”, que publicou em 2013 um manifesto intitulado “Touche pas à ma pute”, contra a lei que na França penalizaria os clientes de prostitutas, como na Suécia.

Uma coisa é certa : essa polêmica em torno do manifesto comprovou que vai ser muito difícil formar uma “frente unida” na luta contra a milenar dominação masculina que vê as mulheres como seres inferiores em todos os níveis ou como “coisinhas frágeis” que devem ser protegidas em troca da alienação de sua liberdade.



Conteúdo Relacionado