Cartas do Mundo

O Partido Social Democrata alemão tornou-se um apêndice útil da política conservadora hegemônica

No último fim de semana o Congresso Extraordinário autorizou a direção partido mais antigo da Europa ainda em funcionamento a prosseguir nas negociações para formar o que aqui se chama "Groko", de "Grosse Koalition"

24/01/2018 09:31

 

Flavio Aguiar

Ontem, assistindo o comício no centro da capital dos gaúchos, não deu para esconder a emoção nem o orgulho. Pelo menos de momento Porto Alegre deixava de ser a cidade em que uma parcela sem vergonha na cara da classe média e da elite econômica conseguiu votos suficientes para eleger, como prefeito, um projeto de proto-fascista, para voltar a ser a Capital da Democracia, da Legalidade, do Fórum Social Mundial, do Século XXI.

Para quem viveu in loco, ao vivo e a cores, a resistência da Legalidade em 1961, o espírito de Leonel Brizola passeava no meio da multidão que saudava o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma. Junto dele, pairavam também - a partir das palavras do próprio ex-presidente - os espíritos do Vargas trabalhista e do Jango das Reformas de Base.

Valeu.

Enquanto isto, aqui na Alemanha o Partido Social Democrata (SPD) continua com seu barquinho amarrado à nau capitaneada por Angela Merkel e sua União Democrata Cristã (CDU, em alemão) junto com a União Social Cristã (CSU) da Baviera. No último fim de semana o Congresso Extraordinário convocado na antiga capital da Alemanha Ocidental, Bonn, autorizou a direção partido mais antigo da Europa ainda em funcionamento a prosseguir nas negociações para formar o que aqui se chama “Groko”, de "Grosse Koalition”, quando o SPD e CDU/CSU se juntam.

A votação, num universo de 642 delegados, foi de 56% (362 votos) contra 44% (280).

Ficou claro que houve uma divisão de gerações. O principal líder da corrente que não aceitava a coalizão foi Kevin Kühnert, presidente da facção conhecida como “Juventude Socialista”. Acusado de querer reduzir o SPD à dimensão de um “anão”, ele respondeu que “às vezes é necessário tornar-se um anão para poder voltar a ser um gigante no futuro”. A acusação se referia ao fato de na última eleição federal o SPD ter colhido o resultado mais baixo de toda a sua história, algo em torno de 20% dos votos.

Para a direita do partido (que tem algo de geriátrica) isto se deve à inclinação para a esquerda que lhe deu seu novo líder, Martin Schulz, ex-presidente do Parlamento Europeu, anunciando previamente que não renovaria a coalizão com Merkel e prometendo rever alguns aspectos das políticas neo-liberais que seu próprio partido implementou, quanto formou governo com os Verdes. Isto num momento em que a extrema-direita crescia, roubando votos da própria Merkel, devido à questão dos refugiados e sua presença no país, sobretudo os muçulmanos.

Para esta fração do SPD a míngua de votos que o partido enfrentou nada tem a ver com a situação esquizofrênica em que ele se colocara: se Schulz anunciava a ruptura com o governo de Merkel, o partido continuava a fazer parte do mesmo governo de Merkel…

O SPD tornou-se, e vem confirmando esta condição, apenas um apêndice útil da política conservadora que é hegemônica na Alemanha, e na União Europeia como um todo. O mesmo acontece com os partidos socialistas ou equivalentes na França, na Espanha, na Itália. Este último país tem eleição nacional marcada para 4 de março, e a expectativa é a de um fracasso para o Partido Democrata de Matteo Renzi e uma possível volta triunfal de… Sílvio Berlusconi, cujo partido se saiu muito bem nas últimas eleições regionais no sul da Itália. A centro-esquerda na Espanha esta esfrangalhada, abrindo caminho para o saudosismo proto-falangista de Rajoy, e na França o PS foi rebaixado a nanico na cena política - embora tenha tido a coragem de renunciar às políticas neo-liberais de François Hollande, num gesto promissor e corajoso de recuperação de identidade.

Na Alemanha a pressão da mídia e do pensamento mainstream sobre o SPD foi enorme, para que este “não fugisse de sua responsabilidade” e ajudasse Merkel a formar o novo governo. Parte destas correntes dominantes diziam que este seria o único meio de impedir que, em novas eleições quase inevitáveis se Merkel não formasse o governo, o Alternative für Deutschland, AfD, de extrema-direita, crescesse ainda mais, já que nas últimas eleições ele tornou-se o terceiro partido mais votado no Bundestag.

Outros analistas apontam, no entanto, que se o SPD tomar parte no governo e se a tradição parlamentar for mantida, o AfD será reforçado, porque diz esta que o maior partido de oposição tem o direito de ter, por exemplo, a presidência da poderosa Comissão de Finanças, que aprova, em primeira instância, o Orçamento Federal.

As negociações entre SPD, CDU e CSU devem se estender ate meados de fevereiro. Posteriormente, no caso do SPD, o resultado deverá passar por referendo de seus 443 mil filiados. A julgar pelo resultado do Congresso Extraordinário, dificilmente um resultado positivo seria revertido.

Para nossa situação no Brasil isto não prenuncia boas notícias. Por exemplo: tenho informação de fonte segura que um altíssimo dirigente do SPD enviou carta à presidenta Dilma, quando esta passou por Berlim recentemente, solidarizando-se com ela devido ao golpe de estado que a derrubou. Mas oficialmente o SPD nada pode fazer, integrando o governo, pois a posição oficial deste é de que a democracia no Brasil está mantida.

Em todo caso, há também bons sinais de fumaça no horizonte. Hoje pela manhã (24.01), ouvindo uma emissora francesa no rádio que comentava os acontecimentos no Brasil, pude notar que um espaço enorme foi dado aos argumentos da defesa do ex-presidente Lula e às denúncias sobre a falta de provas contra ele. O mesmo vem acontecendo em boa parte da mídia europeia. Nos últimos dias entrevistas com o ex-presidente ganharam grande espaço nesta, o que é alentador, pois quando o golpe que depôs a presidenta Dilma começou a tomar corpo, a tendência majoritária era a de copiar as fake news e os comentários fake da nossa mídia mainstream.



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