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Cartas do Mundo

Oposição não assina acordo nem define se participará das eleições

O presidente da República Dominicana, Danilo Medina, anfitrião do diálogo, sentenciou que "as conversas entraram num recesso indefinido", logo depois de confirmar que a data estipulada nas reuniões era 22 de abril

12/02/2018 09:18

 

Por Álvaro Verzi Rangel

Finalmente, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela acabou com o suspense e determinou o dia 22 de abril como a data das eleições presidenciais. A oposição se absteve, no último momento, de assinar o compromisso alcançado com o governo após o diálogo em Santo Domingo, capital da República Dominicana, e tampouco decidiu se participará ou não das eleições.

O presidente da República Dominicana, Danilo Medina, anfitrião do diálogo, sentenciou que “as conversas entraram num recesso indefinido”, logo depois de confirmar que a data estipulada nas reuniões era 22 de abril. Segundo Medina, “a oposição não entendeu que estava obrigada a assinar, e pediu (mais) tempo”.

O ex-presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, enviou uma carta à oposição, indicando que após dois anos, com o acompanhamento de um grupo de países amigos, se chegou a um consenso básico para um grande acordo, que “supõe uma esperança real e valente para o futuro da Venezuela, através de um documento apresentado às partes que dá a resposta aos temas essenciais discutidos durante meses”.

“De maneira inesperada para mim, o documento não foi firmado pela representação opositora. Não pretendo julgar as circunstâncias e os motivos, mas meu dever é defender a verdade e meu compromisso é não desistir de alcançar um compromisso histórico entre venezuelanos. Por isso, e pensando na paz e na democracia, peço que os líderes da oposição assinem formalmente o acordo que remito, uma vez que o governo se compromete em respeitar fielmente o que foi estabelecido no documento”, dize ele em sua carta.

O chefe da delegação do governo durante o diálogo foi o ministro de Informação Jorge Rodríguez, que denunciou a participação de agentes do governo dos Estados Unidos pressionando a oposição para impedir, por conveniência, que este setor político assinasse o acordo. “Foi um momento vergonhoso, uma ligação de Bogotá especificamente dirigida ao chefe da missão da direita, Julio Borges”, relatou o ministro, e logo completou dizendo que este acontecimento “ficará na história como um ato de vexatório daqueles que receberam instruções do exterior para se negar a consignar um acordo de convivência democrática pelo bem da Venezuela”.

Rodríguez também lembrou que o secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson estava em Bogotá, durante sua viagem aos países do Grupo de Lima, na qual também busca anunciar ações unilaterais para atacar a Venezuela – a qual poderia incluir até mesmo um embargo petroleiro.

Os pontos de acordo do documento foram: soberania e sanções unilaterais contra a Venezuela, cronograma eleitoral e garantias do processo eleitoral, fortalecimento do Estado de direito constitucional, situação econômica na Venezuela e ações que emanariam da mesa de diálogo para ajudar no processo de acompanhamento ao povo venezuelano: a criação de uma Comissão da Verdade e outra Comissão de Seguimento e Verificação do Acordo.

Rodríguez detalhou que de parte do Governo solicitou a incorporação de dois pontos adicionais, um com respeito aos direitos da Venezuela sobre o território da Guiana Essequiba e outro que obrigue ambas as partes a reconhecerem o resultado das eleições presidenciais de 2018, qualquer que seja o resultado.

O presidente, Nicolás Maduro, que tentará em abril a sua reeleição, e que agora enfrenta a dúvida da oposição em participar ou não do processo, afirmou que deixará “em aberto” o canal de diálogo com a oposição, “para quem quiser falar hoje, amanhã ou quando seja preciso”. Mas também aproveitou para denunciar as “pressões” de outros governos sobre a oposição, principalmente a do governo estadunidense.

Para surpresa de muitos, a oposição não aderiu formalmente ao pacto, e em vez disso entregou uma proposta final na qual exige, entre outras coisas, que se derrubem as sentenças de inabilitação política ao candidato presidencial Henrique Capriles e a Leopoldo López, dirigente opositor que vive em prisão domiciliária, por sua responsabilidade nos atos terroristas de 2014, que custaram a vida de 43 venezuelanos.

A oposição não tem um candidato unitário e tampouco definiu como ele seria escolhido. Há muitos pré-candidatos: Henry Ramos Allup, Henri Falcón, Claudio Fermín, Andrés Velázquez, entre outros. Também há muitos que preferem apostar no abstencionismo.

Mas a realidade é que se busca um consenso sobre um outsider: o empresário Lorenzo Mendoza. “É um homem que vem do mundo empresarial, mas é um empresário que já mostrou ações bem sucedidas enquanto o Governo apresenta fracassos, essa é uma realidade. Não podemos desconhecer o fenômeno eleitoral e político de Lorenzo Mendoza, isso é como desconhecer o chavismo. Se ele decidir, hoje ou amanhã, que será o nosso candidato, para este plano de salvação nacional, contará com o nosso apoio”, disse Falcón, um dos principais líderes da MUD (Mesa de Unidade Democrática, a coalizão opositora).

Maduro acredita que a oposição tem um plano B: “o governo de Donald Trump está teleguiando a estratégia deles de se retirar do processo eleitoral, como forma de sabotar o pleito e provocar uma abstenção massiva”. O presidente convocou os políticos da oposição com aspirações presidenciais a inscrever suas candidaturas. “Vamos às ruas para que o povo vote e decida, soberanamente, qual é a sua vontade”, instou.

Álvaro Verzi Ranger é sociólogo venezuelano e codiretor do Observatório de Comunicação e Democracia



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