Cartas do Mundo

Carta de Buenos Aires: Um governo de videoclipe e a bronca acumulada do povo

 

06/03/2018 10:29

 

 
Na quinta-feira passada (1/3), o presidente argentino Mauricio Macri iniciou um novo período de sessões parlamentarias com um insosso e curto discurso, no qual deveria detalhar seu plano anual. Em seu tom voluntarista de sempre, voltou a recordar que não crê na existência de crise alguma e ratificou sua ideia de que “o pior já passou, e que agora virão os anos em que vamos crescer”, exibindo dados positivos sobre emprego e inflação que chocam com a realidade de milhões de pessoas desempregadas e famintas.

O tema da corrupção tampouco teve relevância em seu discurso: o macrismo parece ter aceitado que eles também formam parte do mesmo passado e da corrupção que assola o país, e que os casos dentro do atual governo crescem e preocupam.

Mas deve-se entender o discurso e sua preparação dentro do contexto, em meio a uma queda importante na credibilidade do presidente, que vem sendo alvo de pesados insultos em coro nos estádios de futebol, concertos musicais, atos culturais em geral. Macri e seus assessores de imagem estavam preocupados não com o discurso, e sim com o videoclipe que resultaria do mesmo.

Eles pensam como o que são: empresários que nunca perdem e para os quais uma mentira que favorece um grande negócio é o mesmo que uma razão de Estado para um estadista. “Quando um empresário pensa em comunicação, pensa em como vender um produto, não como estadista”, já dizia o analista político Luis Bruschtein.

Por isso pensam em um videoclipe, curtinho, com frases simples com um vocabulário entendível até mesmo para uma criança, onde o calmo sorriso do Presidente mostra que tudo está bem, que este é um país perfeito. O roteiro parecia perfeito, até a cena final, donde Macri sai do Congresso com o sorriso e a mão para o alto, para saludar o povo… mas não havia ninguém: ele mesmo fechou todas as ruas mais próximas ao edifício.

Foi pura atuação. Dentro e fora do Congresso, seguiram o script ao pé da letra, enquanto fora dele se transmitiam notícias falsas (fake news) para criar imaginários coletivos afastados da realidade, os produtos pseudojornalísticos difundidos através de portais de notícias, imprensa escrita, rádio, televisão e redes sociais com o objetivo de desinformar deliberadamente.

Apesar desta realidade virtual, também existe a realidade real, a raiva que se vê generalizada nos estádios e nos lugares onde convergem milhares de pessoas, com esse cantinho que passou a ser o “hit do verão” e que preocupou o governo e seus mensageiros. Continuou nas redes sociais e hoje é um grito generalizado que alcança todos os rincões e espaços do país: “Mauricio Macri, vá para a pqp”.

É muito difícil que o novo slogan “vamos invadira a Rússia”, um texto futeboleiro musicalizado com a popular melodia do “Despacito”, que agora querem instalar, possa se equiparar ao caráter massificado dos cantos contra o presidente, que ninguém sabe onde nem quando podem terminar, já que acompanha o ritmo da raiva social que vai se acumulando.

A Copa do Mundo, que antes era uma carta forte do governo, agora se mostra como algo obscuro e com nuvens que pressagiam duras tormentas. Nunca antes havia ocorrido, pelo menos com a contundência que se vê desta vez. “O futebol, que está na origem do poder construído pelo macrismo, e que sempre é considerado em seus planos propagandísticos, se está tornando seu pior inimigo. Por isso um canto como o que se ouve hoje país afora, constituído como tendência cultural, é difícil de ser contido”, comenta o advogado e militante social Juan Guahán.

O governo esperava, nestes próximos cem dias daqui até o início do torneio na Rússia, manter uma ofensiva de marketing centrada nos medos e fantasmas do passado. Hoje, há algo mais para se preocupar. Imaginam que esses cantinhos contra o presidente possam ser reproduzidos pelos grupos de torcedores argentinos que estarão em Moscou, em São Petersburgo e em Novgorod, onde Macri pretendia estar para presenciar as partidas da seleção do seu país na primeira fase.

Isso seria o cúmulo, um vexame difícil de reverter diante da opinião pública mundial, ainda mais quando o poder económico global já vem evitando dar a ele mais apoio.

O governo sabe que precisa resolver este novo problema logo. É a primeira vez que sente um acosso popular para o qual não têm explicação racional, vacinas ou antídotos. A estabilidade do governo corre perigo? Ainda é cedo para saber, mas se esse costume se instala definitivamente na alma coletiva, será muito difícil se recuperar depois.

Rubén Armendáriz é jornalista e cientista político uruguaio, analista do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

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