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Após ação de Doria, famílias ficam sem abrigo e sem materiais de trabalho

Retirados de viaduto em São Paulo de forma truculenta por agentes da prefeitura, GCM e PM, pessoas em situação de rua tiveram seus pertences apreendidos

02/08/2017 13:13

TVT/REPRODUÇÃO





São Paulo – A gestão de João Doria deixou, no último sábado (29), parte da população de rua sem perspectiva de como será o dia seguinte. Retirados do viaduto Julio de Mesquita Filho, no centro de São Paulo, de forma truculenta por agentes da prefeitura, pela Guarda Civil Metropolitana e Polícia Militar, cerca de 30 famílias ainda não têm para onde ir e estão sem materiais para trabalho e moradia.
 
Para ativistas, esta é a principal ação higienista do prefeito tucano. Reinaldo Serafim Figueiredo é vendedor ambulante e ainda não sabe como vai retomar a vida. Ele morava num barraco debaixo do viaduto, e teve todos os pertences levados pela GCM. "Eu estava com um carrinho cheio de água, refrigerante e cerveja, porque eu ia trabalhando no sábado, melhor dia para trabalhar em farol, mas levaram tudo", relata, em entrevista à repórter Vanessa Nasakato, da TVT.
 
Não foi só ele que teve os materiais de trabalho levados. O marceneiro Charles Miranda Santos e a artesã Beatriz Felix contam que também estão sem a possibilidade exercer suas profissões. "Levaram todas minhas ferramentas de trabalho, agora estou sem material para trabalhar. Eu não tenho condições para comprar novas", diz Charles. 
 
Já Beatriz relata que, além de levarem seus pertences, também viu os agentes agirem com truculência. "Enquanto minha companheira tentava salvar um lado, eu estava tentando salvar o outro. Quando eles abordaram e secaram a barraca, só deixaram a gente levar o que já estava nas nossas mãos, o resto ficou lá. Ela retornou para tentar recuperar a bolsa de materiais, mas eles jogaram a bolsa para dentro do caminhão e xingaram ela de "vagabunda", pedindo para ela se afastar, se não agiriam com violência."
 
No sábado, a gestão do prefeito João Doria iniciou uma operação de zeladoria e limpeza embaixo do viaduto Júlio de Mesquita Filho. Cerca de 200 famílias foram expulsas do local de forma truculenta. Na confusão, barracos foram incendiados e alguns moradores foram detidos.
 
As 30 famílias que estão sem para onde ir vivem com uma cozinha improvisada e dormem ao relento. O pouco de alimento e roupas que têm são doados. "Dentro dessa higienização do município, a prefeitura tem coibido as entidades de distribuir alimentos, roupas, qualquer coisa. Agora surgiu a história de que, se a entidade doar alimentos, vai ter que ter um laudo da vigilância sanitária. Eles estão preocupados com os alimentos possivelmente estragados, mas não conseguem ver o que estão fazendo com essa população", denuncia Nina Laurindo, do Núcleo de Direitos Humanos do Povo de Rua.
 
Robson Mendonça, presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua, apanhou dos agentes e foi conduzido coercitivamente para a delegacia. "O GCM estava agredindo um cidadão de rua e eu protestei. Ele veio violentamente contra mim, porque estava filmando a cena. Tomou o celular, me atirou no chão e me deu dois socos", afirma.
 
Enquanto isso, agentes da subprefeitura da Sé e da GCM continuam passando pela local e levando o que resta com a família, como madeiras, caixas de papelão e cobertores. A Guarda alega que o objetivo é recolher produtos inflamáveis para evitar incêndios. "Estamos tendo essas ações na cidade inteira. Se você abrir uma ação contra a prefeitura e pedir para indenizar essa população por todos os danos que estão causando, quem sabe eles começam a repensar alguma coisa", diz Nina.
 
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Créditos da foto: TVT/REPRODUÇÃO