Cinema

A coragem de ser o que somos

'Suk Suk' e o brilhante filme 'O ataque dos cães' tratam da liberdade, da identidade de gênero e das escolhas amorosas e sexuais

10/12/2021 11:43

Suk Suk (Reprodução)

Créditos da foto: Suk Suk (Reprodução)

 
Neste fim de ano dois filmes vindos de culturas diversas chamam a atenção para o espaço que o cinema da grande indústria vem usando para desarticular discursos homofóbicos e de aversão aos grupos LGBT que hoje pertencem a uma realidade bem-vinda, cada vez mais fincada e naturalizada no cotidiano das populações do século 21. Discursos anacrônicos porém perigosos de aficionados de extrema direita, os conservadores e neofascistas esperneiam diante dos novos ares de liberdade e de afirmação radical que não param de bradar: você é quem escolhe o que você quer ser.

Suk Suk- Um amor em Segredo é um deles. Filme vindo de Hong Kong, do diretor Ray Yeung, chegou ao streaming* em setembro, discretamente, e hoje garante um grande número de acessos. O longa-metragem, selecionado para o Festival de Berlim de 2020, aborda uma situação específica no universo gay, mas que na vida trivial, pouco a pouco, vai se estendendo e tomando forma sem causar grandes estranhamentos.

Yeung estudou na Grã-Bretanha e antes de fazer filmes trabalhou como advogado. Quase sempre ele filma a vida de gays asiáticos. Em Suk Suk ele se inspirou no livro História Oral de Homens Gays Idosos em Hong Kong, de Travis Kong, no qual dois senhores se apaixonam. Eles fazem parte desse grupo minoritário que raramente se expõem porque lutam, mais até do que os demais, contra preconceitos.

Suk Suk é a história homoafetiva entre esses dois homens maduros, um pouco de meia idade um pouco idosos, vivendo com suas respectivas famílias sedimentadas. Eles se encontram num parque, se relacionam, e juntos, durante uma temporada, dividem momentos de realização amorosa, sexual e de intensa recompensa emocional; a mesma que lhes faltava até então.

Pak tem cerca de 70 anos, é um motorista de táxi que se recusa a se aposentar para não cair no tédio de uma existência cinzenta ao lado de uma mulher ranzinza e de permanente mau humor. Hoi mora na casa do filho casado, com sua nora e um neto, é divorciado e aposentado aos 65 anos. Em uma tarde, no parque, os dois se conhecem, se reconhecem e iniciam uma história bem mais prazerosa do que suas vidas vividas até então.

Gays idosos quase nunca são representados no cinema. ''Os homens gays mais velhos não puderam desfrutar de tais mudanças hoje efetivas por causa dos valores culturais tradicionais estritos que carregam consigo desde meio século atrás e de laços familiares próximos que foram construídos'', diz Yeung. ''Em geral são homens que parecem reprimidos, tristes e sem coragem de serem eles mesmos.”



O segundo filme é sobre a dificuldade de sair do armário num ambiente particularmente hostil e as graves consequências da frustração em expor sua identidade mais autêntica. É baseado no livro The Power of the Dog, do americano Thomas Savage, um gay que nunca se assumiu, e foi publicado em 1967.

Ataque dos Cães** é da afamada diretora neozelandesa Jane Campion que há doze anos não filmava. Com esse trabalho, ela, que já ganhou diversos Oscars e a Palma de Ouro em Cannes, é autora de um dos concorrentes mais cotados para o Oscar de fevereiro do próximo ano.

O belo filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch, excelente) e George (Jesse Plemons), dois irmãos muito ricos e proprietários da maior fazenda de Montana. O primeiro é brilhante, cruel, um homem gay que esconde sua verdadeira sexualidade sob uma fachada de sujeira, crueldade e violência. O segundo é a suavidade em pessoa. A relação dos dois se torna perturbadora quando George se casa com a viúva local Rose (Kirsten Dunst), uma pianista que imediatamente remete o espectador ao célebre filme O piano, de Campion.

Ataque dos Cães (Netfllix)

Um dos lançamentos atuais mais elogiados e de maior sucesso no streaming, o seu desfecho inesperado é chocante, nesse faroeste dramático que trata de masculinidade e do amor entre dois caubóis. Seus quinze minutos finais dão uma reviravolta impressionante na narrativa.

Enfim: embora os filmes LBGTQ estejam circulando livremente no lado de cá, na China ainda é difícil vê-los nos cinemas. Ainda constituem um tabu. E não esquecer que em Cingapura e na Malásia a homossexualidade ainda é crime.

Por isto, é importante o que Yeung, autor de Suk Suk diz: '' 'O mundo precisa ver essas histórias. Testemunhar as lutas e conflitos dessas pessoas ajuda a entendê-las melhor. Perceber que não são diferentes e que a necessidade de amor, respeito e liberdade de ser quem queremos ser é universal''.

Dois filmes necessários, cinema de boa qualidade. Mas The power of dog em particular é obrigatório. Ainda há muito o que falar sobre ele.



*Suk Suk - Um amor em Segredo está no Now, Google Play, YouTube, Vivo, Sky

**Ataque dos cães, na Netflix



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