Cinema

A máquina de guerra americana no Afeganistão

Mesmo com roteiro confuso, filme 'War machine' merece ser (re)visto como um retrato da psicologia dos generais em todos cantos do mundo

23/09/2021 13:06

(Reprodução/Twitter)

Créditos da foto: (Reprodução/Twitter)

 
A sátira corrosiva de filmes das guerras americanas, desta vez focada como símbolo na tragédia da ocupação de vinte anos no Afeganistão, foi dirigida pelo jovem diretor independente australiano, David Michôd, produção - como ocorre com o doc O dilema das redes - desperdiçada em parte por um roteiro confuso.

Neste caso, porém, o filme não compromete o brilho da inteligência e da coragem do lendário jornalista americano Michael Hastings. Correspondente de guerra morto aos 33 anos, autor do livro The Operators: The Wild and Terrifying Inside Story of America's War in Afghanistan, no qual o filme foi baseado, ele foi um dos responsáveis pela demissão, no governo Obama, de Stanley McChrystal, o todo poderoso general que na época chefiava as tropas americanas em Cabul.

Produzido pela Netflix em 2017 como o maior investimento da empresa em cinema realizado para o streaming até então, o filme ainda está ativo no seu catálogo.

War Machine conta com o ator Brad Pitt, clichê caricato e sem imaginação, como estrela da trágica história tratada como sátira. Pitt (seu personagem tem o nome fictício de general Glenn McMahon) foi um dos que também colocaram dinheiro nessa produção baseada no explosivo livro de Hastings.

Um relato de fatos reais, alguns deles encenados e dramatizados nesse filme, desvenda o comportamento e as ações do polêmico McChrystal, um paradigma uniformizado da exaltação absurda da guerra, da empáfia, da arrogância e insensibilidade comuns a tantas outras altas patentes militares; aqui e lá fora. Foi ele o responsável por algumas das chacinas cometidas nas aldeias afegãs. Hoje ainda vive, aposentado.

Além do ator, a atriz Tilda Swinton, numa ponta, e Ben Kingsley, em pequeno papel marcante como o ex-presidente Hamid Karzai, líder do governo até 2014, estão num elenco de jovens atores, excelentes todos eles. A trilha musical é um luxo de Nick Cave, Warren Ellis e do grupo Bad Seeds.

Brad Pitt e Sir Ben Kingsley em 'War Machine' (François Duhamel/Netflix)

O filme se desenrola em meados da primeira década do século quando o governo Obama (Joe Biden era vice presidente dos EUA na época e foi um entusiasta da ação) enviou ao Afeganistão o reforço de 30 mil dos 40 mil soldados solicitados pelo general McChrystal para se integrarem ao grupo das forças da OTAN, ganhar e terminar a guerra que se arrastava.

As novas tropas estavam destinadas a combater a contra insurgência do talibã no país dilacerado e onde a ''guerra eterna''patinava. Pretendia-se criar condições para estabilizar o país e lá instalar uma democracia à moda americana (!), objetivo nunca alcançado pelos ocupantes. Os estadunidenses queriam vencer a guerra de qualquer jeito.

Um dos melhores diálogos de War Machine se dá quando McMahon/McChrystal conversa com o embaixador dos EUA no Afeganistão, diplomata experiente, educado, raposa afeita ao palco do grande teatro da geopolítica e da '' guerra sem fim''.

''Viemos aqui para ganhar esta guerra'', diz o general ao embaixador. Ele responde: '' O senhor está aqui é para limpar a bagunça que fizemos, não para ganhá-la. Nós vencemos a guerra meses depois de atacar. Agora, é só bagunça''.

E o embaixador acrescenta: ''O senhor devia estar mais contente no Iraque onde viveu dentro da bolha de soldados a que está acostumado. Civis estão fora dessa bolha e não fazem sentido para vocês''.

Dois diálogos cômicos (se não fossem trágicos) ocorrem entre McMahon/McChrystal e o frívolo Karzai, lembrado como o trêfego presidente-títere da ocasião. O mesmo que fugiu de Cabul em agosto passado, poucos dias antes da retomada da capital pelos talibãs e deixando para trás a população miserável do seu país, mas garantido com uma excelente situação financeira pessoal; assim como seu colega, o presidente em exercício.

Uma chocante sequência de The Operations, título original do filme, é a da Operação Moshtarak desencadeada pela coalisão da OTAN liderada pelos estadunidenses, caçando talibãs numa pobre aldeia no sul do país.

Nessa famosa Batalha de Marjah onde morreram crianças e moradores do paupérimo local, ao término do ataque, um soldado americano constrangido abre a bolsa repleta de dinheiro e dá umas notas ao pai afegão com um filho recém morto e ensanguentado aos seus pés e o outro, ao seu lado.

Pergunta do soldado: ''Por que você não saiu daqui? Avisamos para a população sair de suas casas antes de atacarmos!'' E o afegão, em estado de choque: '' É que não podia deixar nossas cabras para trás''.

''Apenas quando estão na guerra e vivendo dentro da bolha exclusiva de soldados, os militares se sentem relevantes. Ou quando estão próximos do centro do poder e experimentam o brilho quente da atenção alheia'', diz no filme o personagem que encarna Michael Hastings, o jornalista autor de um artigo publicado na revista Rolling Stones que originou a demissão de McChrystal por Barack Obama.

Hastings foi aquele que morreu dirigindo seu carro na Melrose Avenue, no bairro de Hollywood, em Los Angeles, onde morava. Espatifou-se numa árvore, inexplicavelmente, quando ia em baixa velocidade, pouco tempo depois de lançar seu livro, The Operators.

Na época, o jornalista, repórter do site BuzzFeed e colaborador da revista Rolling Stones, vinha sendo monitorado pelo FBI e seu telefone estava grampeado. O acidente, considerado suspeito, pode ter sido provocado pelo GPS adulterado do seu carro.

Uns acreditaram em teoria de conspiração e em um ataque cibernético ao carro. Mas, como disse na ocasião ao Huffington Post o ex-czar do contraterrorismo, Richard Clarke, ''a minha regra sempre foi você não derrubar uma teoria da conspiração até que possa provar que ela está errada''. No caso, nunca houve essa comprovação.

E a ''bagunça'' no Afeganistão perdurou por mais dez anos com outros generais.



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