Cinema

Guerreiras da Pachamama

Diante do massacre continuado que indígenas e sem terra vêm sofrendo, é reconfortante ver as duas protagonistas do documentário "A Mãe de Todas as Lutas" guardando a memória de suas batalhas e defendendo seus territórios com garra e determinação

08/10/2021 10:44

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
A Mãe de Todas as Lutas gira em torno de duas sobreviventes. A camponesa Maria Zelzuita Oliveira de Araújo sobreviveu ao massacre de Eldorado de Carajás, sudeste do Pará, em 1996, quando 19 trabalhadores sem terra foram chacinados a tiros pela polícia e quase 70 foram feridos durante a obstrução de uma estrada.

A ativista e escritora indígena Shirley Djukurnã Krenak, por sua vez, viu o desastre de Mariana, em 2015, devastar o Rio Doce, fonte de subsistência e santuário de espiritualidade para o seu povo, antigamente chamado de Botocudos do Vale do Rio Doce.

Essas duas mulheres fortes e alguns de seus parentes simbolizam a presença feminina na longa luta pela terra no Brasil. Shirley Krenak, com sua fala quente e suave, mas firme como uma rocha, justifica todo o fascínio exercido sobre a câmera. Sua voz, ao denunciar o "estupro" das terras krenak pelos trens de minérios, ecoa séculos de exploração, expropriação e dizimação dos povos originários. Susanna Lira foi buscar esses ecos em preciosos materiais de arquivo que mostram indígenas recrutados para a construção de ferrovias, o trabalho em lavouras alheias e a infame guarda indígena da época da ditadura.



No Pará, Maria Zelzuita recorda-se de quando viu pela primeira vez "aqueles pedacinhos de pano vermelho", que depois compreenderia ser o MST. Hoje ela é cozinheira do movimento, onde diz ter se encontrado. A cena em que ensina a netinha a plantar é tão comovente quanto a da pequena Yná Krenak, filha de Shirley, chorando a perseguição sofrida por sua gente.

Susanna traz de volta registros dramáticos do massacre de 1996, assim como a arrogante autoexibição de um fazendeiro com seu revólver. A montagem e o desenho de som de Ítalo Rocha, aliados à densa e evocativa trilha de Flávia Tygel, articulam esses materiais e a atualidade das personagens com enormes acuidade e sensibilidade.

O filme conclui com a Marcha das Margaridas e uma impagável sessão de canto de Shirley face a face com a Ministra Carmen Lúcia, no STF. Diante do massacre continuado que indígenas e sem terra vêm sofrendo no atual governo, é reconfortante ver essas duas mulheres guardando a memória de suas lutas e defendendo seus territórios com garra e determinação. Melhor ainda quando se vê Shirley mencionar a aliança dos indígenas com o MST para a restauração do meio-ambiente na região do Vale do Rio Doce. São coisas que nós, nas cidades, tantas vezes nos esquecemos de cuidar, mas a Pachamama certamente agradece.

>> A Mãe de Todas as Lutas está nas plataformas TamanduáTV e Now.





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