Cinema

Naturezas Mortas

Um dos filmes mais belos dos anos 1980, 'Vozes Distantes' está de volta no 'streaming' da plataforma Supo Mungam Plus em cópia restaurada

27/07/2021 11:50

Vozes Distantes (Reprodução)

Créditos da foto: Vozes Distantes (Reprodução)

 
Aproveito para publicar trecho de um ensaio que escrevi há 26 anos sobre a obra do particularíssimo diretor Terence Davies, intitulado "Solidão em Liverpool". Certas considerações dizem respeito especificamente à conjuntura do cinema britânico em torno de 1995:

Terence Davies está só. Com uma obra pequena em volume, mas densa em significados e cheia de personalidade, esse cineasta inglês, um dos mais interessantes do cinema contemporâneo, vem-se constituindo num caso à parte, numa individualidade absoluta dentro de um cinema cada vez mais gregário e definido por modismos e rótulos de ocasião.

A solidão em Terence Davies é, mais que um tema permanente, um princípio de criação - e, mais ainda, uma condição que define a própria persona do artista. A auto-exclusão transborda da vida de Davies para a vida de seus personagens autobiográficos e como que retorna para a vida pessoal do cineasta. Os jornalistas que com que ele já se defrontaram insistem em descrevê-lo como um senhor com a aparência tranquila, quase medíocre, de um típico funcionário público ou professor universitário desempregado. Algo muito distante da imagem carismática ou narcísica de conterrâneos seus como Stephen Frears, Peter Greenaway, Derek Jarman ou Adrian Lyne. Nao é costume vê-lo nas festividades e reuniões da confraria do cinema inglês. Sua passagem pessoal por festivais costuma ser discreta tanto quanto a atenção despertada por seus filmes o permite.

Terence Davies - (Sol Papadopoulos)

Caçula de 10 irmãos numa família da baixa classe média de Liverpool, Davies passou infância e adolescência em ambiente familiar e católico, frequentando a Escola Sagrado Coração de Jesus, norteado pelo terror do pai tirânico e a culpa pela consciência de que era homossexual. A luta entre os rigores institucionais e os imperativos da sensibilidade é o núcleo dramático de onde brota sua invenção. Mas o cinema chegou tardiamente na vida de Davies. Até os 28 anos ele trabalhou como office boy e contador. Durante 12 anos, prestou serviços de contabilidade numa empresa situada em frente ao agitado Cavern Club, frequentado pelos Beatles, mas onde, segundo consta, o jovem Terence jamais colocou os pés. Só em 1973 mudaria radicalmente o curso de sua vida: entrou para a Coventry Drama School, onde escreveria o roteiro do seu primeiro média-metragem, Children.

Cinéfilo, porém, Terence Davies é desde criança. Diversão de solitários por excelência, o cinema contribuiu decisivamente para a formação de sua sensibilidade. Amante dos clássicos, de Hitchcock, Truffaut e das comédias musicais de Hollywood ("Sonhava que quando crescesse eu seria Doris Day", declarou a um crítico brasileiro), o Davies cineasta apegou-se, no entanto, às memórias de seu passado na Liverpool triste e úmida dos anos 1940 e 1950.

A metragem dos primeiros filmes de Terence Davies forma uma curiosa geometria. A trilogia de médias formada por Children (1976), Madonna and Child (1980) e Death and Transfiguration (1986) acabou cristalizada como um programa único, para ser visto em conjunto. Já o primeiro longa que o consagrou no panorama internacional, Vozes Distantes, na verdade é a reuniao de dois outros médias, realizados em períodos diferentes, como indica o título original Distant Voices, Still Lives. Distant Voices (1985) e Still Lives (Naturezas Mortas, 1987) são separados pela indefectível fronteira que é a morte do pai.

Na primeira parte, testemunhamos os horrores de uma família brutalizada pela tirania de Mr. Davies, que só consegue esboçar um gesto de carinho às escondidas, enquanto o resto da família dorme. Vemos a resignação da mãe com o papel de saco de pancadas, os filhos reagindo com a vitalidade possível ao ambiente depressivo da casa e às privaçoes dos tempos de guerra. Apesar dos pesares, a vida social é rica, coalhada de aniversários, casamentos, reunioes ruidosas no pub da esquina, onde se cantam em grupo os sucessos do rádio e canções saídas do baú da memória familiar.

A segunda metade do filme, Still Lives, mantém o mesmo tom de evocação entre amarga e calorosa. O título explicita a opção de Davies por uma narrativa em forma de álbum de retratos, que ele folheia para frente e para trás sem muito rigor cronológico, mas seguindo o fio das associações de lembranças. Seus parentes muitas vezes aparecem como se posassem para uma fotografia em composições minuciosamente elaboradas, suspensos num tempo e num espaço indefinidos que nada mais são que o presente eterno da memória.

Vozes Distantes (Reprodução)

Os ciclos repetitivos da vida familiar ficam claros à medida que um futuro casamento reedita as agruras da geração anterior, o aviltamento das esposas, o apartheid sexual, a sublimação feminina através do escapismo romântico do cinema. É particularmente marcante a cena das mulheres chorando diante das imagens de Suplício de uma Saudade, ao som de Love is a Many Splendored Thing.

A fidelidade a suas lembranças é um dado indissociável do processo cinematográfico de Davies. Em Vozes Distantes ele não colocou em cena nenhum alter-ego como em outros filmes, mas procurou locações que, se não as mesmas, pelo menos guardassem a essência dos lugares de sua infância. O pub é o mesmo, assim como o retrato do seu pai na parede da sala. Objetos, apetrechos de decoração e figurinos também obedecem a requisitos de autenticidade quase neuróticos, que ultrapassam o mero cuidado com a reconstituição de época. São o fruto de um compromisso do artista consigo mesmo, mais uma ética de princípios que uma estética de resultados.






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