Cinema

Pobres, mas livres, leves e solidários

Com a sua atmosfera indie e vários prêmios Oscar, 'Nomadland' é dedicado àqueles que tiveram que partir por necessidade ou pelo impulso irresistível de liberdade

30/09/2021 18:59

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
Um milhão de pessoas estão morando e vivendo em casas móveis, vans e trailers, em tempo integral, percorrendo as estradas dos Estados Unidos. A maioria têm mais de 60 anos, embora a pandemia tenha aumentado as vendas de casas sobre rodas aos jovens entre os 20 e os 35 anos. É uma comunidade de nômades que deixaram para trás os ideais burgueses da classe média nas regiões rurais do país, nos subúrbios de cidades médias, nas asfixiantes pequenas localidades e estão recuperando, muitos deles por uma necessidade econômica básica, o perfume da contestação radical e ativa dos hippies dos anos 60.

O assunto é grave e sinaliza um dos fracassos do neoliberalismo nascido no gigante do norte. A maior parte desses nômades americanos constituem alguns dos resíduos do sistema ultracapitalista desumano para com os mais idosos e idosas. Ao envelhecer, pessoas que se vêem sem meio de sustentação mínima (pagar hipotecas, aluguel, alimentação decente, manter a saúde, impostos, taxas, representação social digna), vendem o pouco que lhes resta e decidem pegar a estrada tentando sobreviver com empregos temporários, por exemplo, além da parca aposentadoria por idade paga pelo estado.

O filme Nomadland* é claro e direto sobre o empobrecimento acelerado dos idosos das classes médias e aponta o trabalho precarizado com o qual algumas empresas se aproveitam desses idosos. Limpam acampamentos especiais para trailers, ajudam na época de colheitas e entram em equipes adicionais de funcionários, nas campanhas de Natal. No programa CamperForce da Amazon, por exemplo - vê-se no filme -, e na JC Penney.

Há relatos de pessoas de mais de 70, 80 anos trabalhando em galpões da Amazon como mostra o semi documentário, e tem o elenco composto por personagens reais. Exceção de dois excelentes atores profissionais, Frances McDormand e David Strathaim, todos os outros são nômades de carne e osso.

O belo filme conta com a soberba interpretação dessa excepcional atriz estadunidense, Frances McDormand, de 64 anos. Sua diretora é a chinesa Chloé Zhao, de 39. Filha de um empresário de Pequim, Zhao é radicada nos Estados Unidos desde o término dos estudos na Inglaterra e escolheu viver em Los Angeles para fazer cinema. A realizadora é a segunda mulher na história do Oscar a ganhar o prêmio de Melhor Direção. O seu cinema, reflexivo, com longos shots, pousando a câmera sem pressa, tem profunda influência do - também belo - cinema oriental clássico.

Já McDormand, protagonista brilhante de filmes inesquecíveis como Fargo, Três Anúncios Para Um Crime e Queime Depois de Ler ganhou pela terceira vez o Oscar de Melhor Atriz, este ano.

Nomadland levou diversas estatuetas inclusive a de Melhor Filme, e vem sendo aplaudido em outros festivais e competições. No Globo de Ouro, no Bafta, em diversos certames independentes e, o mais importante, recebeu o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 2020.

Cena de 'Nomadland' (Reprodução) 

Inspirado num livro-reportagem da jornalista e professora da Universidade de Colúmbia, Jessica Bruder, o filme narra o percurso de Fern (personagem de ficção) que cai na estrada após a morte do marido, quando perde seu emprego na grande recessão de 2008 e presencia o colapso econômico total da sua cidade, na zona rural do estado de Nevada. A fábrica que animava a pequena localidade é desativada, seu CEP some do mapa e ela se torna uma cidade fantasma.

Nomadland desnuda uma verdade social dos EUA, que com a crise de saúde, econômica e social provocada pela pandemia da covid-19, tende a se aprofundar. As previsões são as de que mais pessoas percam suas casas e engrossem as fileiras da comunidade nômade que é bem estruturada em organizações como a Homes On Wheels Alliance (Aliança das Casas Sobre Rodas), apresentada no filme.

O nômade Bob Wells, de 66 anos, um dos fundadores desse grupo, vive sobre rodas há 25 anos, faz parte do elenco e participa de várias sequências do semi documentário.

Em um diálogo exemplar, Wells, que já é entrado em anos, sentencia: ''Existem dois tipos de tirania: a tirania do dólar e a tirania política. Por alguma razão, no mundo moderno temos medo da tirania política, mas somos escravos do dólar". E arremata: ''Somos burros de carga; vestimos o cabresto do dólar e do dinheiro''.

Com a sua atmosfera indie, Nomadland nos informa, nos seus créditos, que é dedicado ''àqueles que tiveram que partir''. É um filme (imperdível) a ser visto em duas perspectivas; a política e a existencial. Ambas destinadas a dar vida, tanto quanto a uma América em dissolução, mas também a um impulso, a um lampejo irresistível de liberdade.

*Em exibição no NOW e em cinemas.



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