Cinema

Um rolezinho pelo Forum Doc BH

A memória dos rolezinhos e a trajetória do Vídeo nas Aldeias são algumas atrações da 25ª edição do Forum Doc BH

24/11/2021 15:06

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
Comemorando seus 25 anos, o Forum Doc BH ratifica sua reputação de um dos mais importantes pontos de difusão e debate do documentário e do filme etnográfico no Brasil. A partir desta quinta-feira (18/11), o evento decola em formato híbrido e dispensando as mostras competitivas. Carla Italiano, coordenadora de produção, destaca o caráter um tanto atípico desta edição:

"Estamos com um forte acento das artes visuais em termos de linguagem e suporte, mas focando também em três mostras temáticas distintas".

A Mostra "Comunidades de cuidado: fabulações, enfrentamentos e éticas de cura" é composta por 19 filmes contemporâneos e históricos, majoritariamente brasileiros, acerca da construção de comunidades por meio de práticas e formas de cuidado, com atenção para éticas de cura. Os filmes são principalmente realizados por sujeitos pertencentes a comunidades indígenas, negras, cigana e LGBTQIA , desse modo trazendo um importante panorama de questões relevantes aos tempos atuais.

A produção audiovisual do coletivo de mídia indígena Karrabing Film Collective, do norte da Austrália, será objeto de uma retrospectiva com oito filmes que apresentam a saga dos Karrabing e a sua luta incessante por vida e terras junto dos ancestrais. Sobre o assunto, haverá uma conferência com a realizadora e antropóloga estadunidense Elizabeth Povinelli.

Por fim, a Mostra "Desaparecimento e Reaparecimento dos Povos e das Imagens: 35 anos de Vídeo nas Aldeias e 25 anos de Forumdoc.bh" vai oferecer 18 obras, entre filmes e sequências brutas e inéditas do projeto Vídeo nas Aldeias, e longas brasileiros sobre povos indígenas isolados ou de recente contato. Esse segmento se completa com uma videoinstalação de Vincent Carelli em 23 e 24/11, no Palácio das Artes (BH). Nesse trabalho, Carelli reúne materiais brutos e inéditos como amostra do acervo gerado durante 35 anos pelo Vídeo nas Aldeias.

Uma extensa pauta de debates, assim como toda a programação, pode ser consultada no site do festival.

Afronta e performance nos shoppings

No bojo das contestações de 2013 estavam os rolezinhos, quando moradores de favelas e periferias entravam em grandes grupos em shoppings de várias cidades brasileiras para evidenciar o racismo habitual desses espaços. Em clima de afronta pacífica e toques eventuais de performance, os rolezinhos trouxeram à tona o que usualmente fica dissimulado em olhares de desconfiança e rejeição à presença de pretos e pobres naqueles templos de consumo predominantemente branco e de classe média.

Rolê –Histórias dos Rolezinhos, de Vladimir Seixas (Vozerio, A Primeira Pedra), incluído na programação da Mostra Comunidades de cuidado, recupera algumas daquelas imagens. De um lado, a picardia e a provocação da rapaziada ocupando corredores, provando roupas nas lojas, comendo sanduíches de mortadela em praças de alimentação e desafiando a "normalidade" dos shoppings. De outro, a ação dos seguranças, muitas vezes violenta, e de policiais quando a onda de rolês começou a se avolumar. Ficava exposta a contradição de gente pobre (empregados, seguranças, policiais) discriminando e reprimindo outros pobres que ousavam estar onde supostamente não deveriam.

O documentário incorpora a potência dos registros quentes de então e vai atrás de alguns rastros. Elege três personagens principais que participaram de rolezinhos: o rapper Jefferson Luís, que anos depois rolava à procura de emprego; a empreendedora Thayná Trindade, criadora da grife de acessórios de moda afro Uzuri; e a performer Priscila Rezende. Pode-se dizer que cada um deles representa um aspecto do que estava por trás dos rolês: o popular, o afirmativo e o lúdico (a arte).

Vistos de um ponto de vista sociológico, os rolezinhos expunham uma metáfora do Brasil, ou seja, as interdições de cor e de classe que se mantêm sob disfarce até que uma situação especial as faça aflorar. Dois assassinatos de jovens negros em um supermercado e um shopping são lembrados no filme, assim como os protestos que se seguiram.

Responsável também por roteiro e montagem, Vladimir Seixas não consegue manter um discurso coeso a partir dos rolezinhos. Embora nunca perca o pique expositivo, ele faz digressões um tanto dispersivas ao enfocar seus personagens. Se há um dado comum a ordenar essas digressões, é o trinômio consumo/aparência/auto-estima, não por acaso vetores poderosos na luta por afirmação identitária e conquista de espaço pelo povo do rolê.

Senti falta também de alguma ênfase no crescimento do racismo e do ódio de classe nos últimos anos, uma vez que as reflexões se estendem até recentemente. O horror bolsonarista é objeto de uma reles referência passageira. Quanto ao movimento contestatório em si, é triste ver que só se mobilizou num contexto de governo de esquerda.

>> Rolê – Histórias dos Rolezinhos está em negociação para exibição online no Forum Doc BH.





Conteúdo Relacionado