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Futebol e Linguagem: João Saldanha e as Máximas e Expressões do Futebol Brasileiro

Na comemoração do centenário de João Saldanha, cabe frisar dois aspectos muitas vezes esquecidos de sua trajetória profissional

03/07/2017 13:18

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Na comemoração do centenário de João Saldanha, cabe frisar dois aspectos muitas vezes esquecidos de sua trajetória profissional. O primeiro diz respeito aos seus cuidados com a preparação física e tática dos times que dirigiu. Tanto no Botafogo quanto na seleção brasileira, era um detalhista.
 
O time que conquistou o tricampeonato do México foi considerado, de longe, o mais bem preparado fisicamente de toda a competição, além de apresentar um planejamento para adaptar o time a jogos em grandes altitudes. Para isto, além dos preparadores físicos Cláudio Coutinho, Carlos Alberto Parreira, Admildo Chirol, foi incorporado ao grupo o especialista Lamartine Pereira da Costa, capitão da Marinha, que preparou a seleção brasileira para enfrentar a altitude do México e os jogos disputados no auge do calor, quase sempre ao meio-dia.
 
Quando Zagallo entrou, já encontrou todo este esquema preparado.
 
O segundo aspecto, pouco conhecido, diz respeito às suas criações na linguagem oral e escrita. João foi um grande criador de neologismos, trazendo um sabor especial ao seu tratamento cotidiano com o futebol e a palavra.
 
Ao lado de Gentil Cardoso, Neném Prancha e Nelson Rodrigues, Saldanha foi um dos quatro mosqueteiros na criação de máximas e expressões futebolísticas. Nelson e João, por exemplo, jogavam com a bola que era a palavra no espaço das crônicas diárias que escreviam, produzindo uma ficção da linguagem física associada à linguagem verbal. O corpo e a voz andando paralelamente, com metáforas rápidas, exigidas pela velocidade do jogo.
 
Guimarães Rosa e Machado de Assis, ao longo de suas obras, utilizaram provérbios que buscavam no popular e no local uma possibilidade de condensação, sínteses do universal. As máximas e expressões do futebol brasileiro representam a crônica da crônica possível, recuperando uma possibilidade de humanização e de captura da singularidade das emoções.
 
Outra forma de lidar com esta linguagem foi explorada pelo jornalista e escritor Mario Filho, quando no ano de 1957 abordou o temada necessidade do gozo (titulo da crônica) no futebol, referindo-se ao “chiste” coletivo criado em pleno Maracanã na Copa de 1950 com o estádio em uníssono cantando “Touradas de Madri” (Braguinha e Alberto Ribeiro), externando a alegria pela goleada da seleção brasileira sobre a Espanha por 6 a 1.
 
Mané Garrincha foi criador de um chiste mímico, o olé, nascido no Estádio Azteca, no México, durante o jogo River Plate x Botafogo, em 1958.
 
O nacional, o imaginário e o popular contidos nesta caixa mágica de onde brotaram as máximas e expressões de narradores do futebol brasileiro, como recortes da nação.
 
Bronislaw Baczko chamava a atenção para a importância da imaginação social, como fator regulador e estabilizador, de forma que os modos de sociabilidade existentes não sejam vistos como definitivos e únicos. As máximas e expressões são traduções vivas deste imaginário, alegorias e adereços deste grande samba enredo que é o futebol.
 
E autores como Neném Prancha, Nelson Rodrigues, João Saldanha e Gentil Cardoso recolheram e reinventaram do saber popular todo esse mundo de novas palavras que, desvendando o universo dos campos, passou a fazer parte do cotidiano do futebol brasileiro, hábil e imprevisível com a bola nos pés, malandro e irreverente com a palavra escrita e falada.
 
O aniversariante João Saldanha – jornalista,técnico do Botafogo, campeão em 1957, membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro, o responsável pela montagem do time tricampeão em 1970.
 
 O realmente técnicoo comentarista que o Brasil inteiro consagrou, o João sem medo,como dizia Nelson Rodrigues – é responsável por varias expressões e gírias como: cabeça de bagre; linha burra de quatro zagueiros; o mapa da mina é ali, pela ponta, em cima do lateral esquerdo deles; macaquinho namorado da girafa; se bicho ganhasse jogo, o time do Citibank não perdia uma.
 
Existem algumas máximas e expressões que, apesar de atribuídas a Neném Prancha, são mesmo de Saldanha. Como afirmou Sergio Cabral (pai): o João Saldanha inventava frases e dizia serem do Neném Prancha. Por exemplo: se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão; se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava empatado.
 
Saldanha, atuando concomitantemente no rádio, jornal e televisão, incomodava e desagradava conservadores e puristas, por motivos variados, dois dos quais podem ser percebidos pelo primeiro leitor, pelo primeiro ouvinte: sua posição aberta de comunista e sua adesão apaixonada no lapidar da linguagem e cultura popular, nunca vista como construção antagônica à cultura erudita. Em seus comentários pelo rádio, introduziu inovações que deixaram ruborizadas as cútis do recato pleno de hipocrisia, quando ouviram termos como: “porrada”, “cacete”  e outros. Conscientemente, fez chegar inovações da Semana de Arte Moderna à imprensa esportiva, retirando o traje a rigor e as ceroulas que revestiam os textos. Em suas colunas, podia-se ler: “os coleguinhas enlatados e os empresários do futebol esculhambando o troço...” ou “o ingresso foi caro, variava de quinhentos mangos e ia até dois mil e fumaça...”.
 
O popular em João Saldanha tinha no humor seu principal ponto de apoio. Um humor onde a alegria e o sorriso maroto de João, extensão de sua própria vida, não eram inventados, mas vividos. O humor de João pode ser situado na linha do historiador e linguista russo Bakhtin. Um humor que se transmuta em riso como forma de bater no fígado do discurso oficial, impedindo que o sério se imponha com a prepotência de gala.
 
Dario Fo, Prêmio Nobel de Literatura, defensor intransigente da arte engajada, que afirmava que o riso é o principal veículo da arte porque é a experiência mais alta da inteligência: “O riso libera o ser de um peso para dar coragem. É a relação entre o medo e o falso medo, é o desequilíbrio equilibrado”.
 
De todos os jogadores, personagens, todos os tipos, um deles, em uma posição amaldiçoada, foi motivo de especial interesse para os contadores de histórias do nosso futebol: o goleiro.
Três frases o definem com precisão: ele é tão maldito que onde joga não nasce grama; um time de futebol é formado por dez pessoas e um goleiro; o goleiro deve dormir com a bola, se for casado tem que dormir com as duas.
 
Assim é o mundo do futebol. Versões, histórias, autorias imprecisas, como um gol em lance confuso. Quem tocou por último? Quem criou tal máxima? Como aquela famosa do pênalti, por exemplo: Pênalti é tão importante que devia ser batido pelo presidente do clube.De quem foi? Do Neném Prancha? Sergio Cabral (pai) diz que não. Eu quero dizer que esta frase, esta máxima “pênalti é tão importante...” é do Cavaca, humorista, homem de bom gosto. Dom José Cavaca.
 
João Saldanha tinha uma outra versão para a mesma história: O Botafogo perdeu um jogo porque um jogador chamado Valseque, ao bater um pênalti, pegou por baixo e mandou a bola lá do outro lado da rua, por cima das arquibancadas de General Severiano. No dia seguinte, chateado, o presidente, um senhor baixinho, de terno branco, sapato de verniz, parou o treino e disse: olhem só. Bateu o pênalti no canto, afirmando: pênalti se bate assim. Neném Prancha, assistindo a tudo, emendou de primeira: pênalti é tão importante, que devia ser batido pelo presidente do clube.
 
Frases simples. Iradas, poéticas, religiosas, muitas vezes impublicáveis. Coisas deste jogo que é arte e paixão popular.  Esporte sem pátria e sem fronteiras que levou o escritor Albert Camus, antigo goleiro de um modesto time argelino, a afirmar um dia:
 
[...] o essencial para mim era jogar futebol: a bola era a minha paixão e eu sapateava de impaciência, de domingo a quinta feira, dia de treino, e de quinta a domingo, dia de jogo... Depois de muitos em que o mundo me ofereceu tantos espetáculos, o que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol.
 
Bate-pronto é o chute forte dado quase que imediatamente após a bola quicar (pegá-la de bate-pronto). Sai forte, e é de difícil defesa para o goleiro.
 
Bate-pronto”, “de prima”, assim são as máximas.
 
Neste pequeno passeio, tentando como umflâneur passear com sabedoria pelo universo da linguagem do futebol e seus autores, destacamos alguns momentos/cenários do objeto do trabalho ora apresentado. Sempre de primeira para não perder o ritmo.
 a)O linguajar dos frasistas da bola, já dissemos, revela a crônica da crônica. Um movimento harmônico e rápido que com poucas palavras condensa décadas. Parafraseando Woody Allen para quem cada plano é um filme, cada máxima contém jogos e campeonatos inteiros.
 
b)Passando rapidamente por Roland Barthes (A Câmara Clara), comparando máximas e expressões com crônicas sobre futebol, é possível afirmar que, de forma ampliada, enquanto as máximas e expressões representam o que Barthes denominou como punctum, as crônicas situam-se no significado do 
 
A este segundo elemento que vem perturbar o studium eu chamaria, portanto, punctum; porque punctum é também picada, pequeno orifício, pequena mancha, pequeno corte – e também lance de dados. O punctum de uma fotografia é esse acaso que nela me fere (mas também me mortifica, me apunhala).
 c)Máximas e expressões enquanto crônica da crônica também são correlatas de poemas e letras de samba, marchinha, bossa-nova etc.
 
d)Walter Benjamin tendia sempre a utilizar suas citações de forma inesperada, objetivando causar grande surpresa aos seus leitores. Comparava suas citações a salteadores de estradas desertas que planejavam atacar as diligências em trechos pouco frequentados para roubar as convicções dos passageiros.
 
As máximas atacam seus ouvintes e leitores com o impacto do punctum, surpreendendo e roubando as convicções com os recursos do humor e da persuasão. Apenas narradoresbenjaminianos poderiam/podem elaborar frases como esses 3 mosqueteiros, que também são 4, como no romance de Alexandre Dumas: Gentil, Nelson, João e Neném.
 
O narrador em Benjamin busca, através da experiência viva, a manutenção da arte de narrar, da sabedoria de intercambiar experiências: “A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores” (Benjamin).
 
Não é à toa que o compositor preferido de João Saldanha sempre foi Noel Rosa. Porque se formos observar com atenção é fácil descortinar que as máximas e expressões do futebol brasileiro estão para este esporte regrado na segunda metade do séc. XIX, assim como os refrões para as crônicas e marchinhas: “Quem não chora, não mama, segura, meu bem, a chupeta, lugar quente é na cama ou então no Bola Preta”
 
“Seja breve”, dizia Noel Rosa em um de seus sambas, acrescentando: “Não percebi porque você se atreve a prolongar sua conversa mole” (samba, 1933). Uma máxima sem brevidade vira conversa mole...
 
O mesmo Noel que, em 1930, na sua composição que menciona um craque do futebol (Russinho, do Vasco. Daí a lenda de dizerem que Noel era vascaíno), resume em uma única estrofe o que é uma máxima. O que é uma expressão ou uma frase bem feita, não só no futebol, mas na vida em geral:
 
Quem dá mais por um samba feito nas regras da arte, Sem introdução e Sem segunda parte, Só Tem Estribilho, Nasceu no Salgueiro,
 
Exprime dois terços do Rio de Janeiro.(“Quem dá mais? Leilão do Brasil”. Noel Rosa, 1930). Ouça o samba na voz do próprio Noel , no link:https://www.youtube.com/watch?v=OT1Iv5Kzb1s
 
Uma máxima, portanto, é um samba só com a primeira. Assim como “Recado”, de Paulinho da Viola, que ficou algum tempo só com a primeira parte, até que Casquinha, da Velha Guarda da Portela, compusesse a segunda. Ouça Recado na voz de Paulinho da Viola e Marisa Monte:https://www.youtube.com/watch?v=12EzRC_fySE
 
Aliás, nos idos de  1928,  no Rio de Janeiro, no Estácio da “Deixa Falar”, de Ismael e tantos outros bambas, o samba era assim mesmo. Só com a primeira parte. Como as máximas.
 
Os frasistas preferidos de João Saldanha eram Gentil Cardoso, Neném Prancha, Nelson Rodrigues (seu grande amigo), e Didi.
 
Em tempo: em breve estará disponível no Youtube um documentário de média metragem, “Quem não faz, leva. As máximas e expressões do futebol brasileiro” (Direção de Raul Milliet Filho, 1985), com passagens inéditas de João Saldanha, Sergio Cabral (pai), Sandro Moreyra e Neném Prancha. Este documentário será lançado na Internet em primeira mão aqui na Carta Maior.
 
Assistindo ao documentário e acompanhando artigos futuros, o leitor da Carta Maior poderá conhecer máximas e expressões de autoria de Gentil Cardoso, Neném Prancha e Nelson Rodrigues, Didi e autores desconhecidos.
 
* Raul Milliet Filho é doutor em História Social pela USP.



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