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Leituras de um brasileiro: "Jesus-Shiva, de Fernando Baril"

Fernando Baril redimensiona Jesus na cultura pop com o hinduísmo.    

28/11/2017 12:32

 

 
Na segunda semana de setembro, do ano corrente, o Brasil foi assolado por informações chocantes: o fechamento da exposição de arte “Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira”, patrocinada pelo banco Santander no museu de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul. Entre os muitos motivos para tanto estavam, como quase sempre, os injustificáveis argumentos religiosos. Há muito contra o que protestar; homofobia, intolerância religiosa, ignorância por falta de instrução são apenas as perversões mais evidentes dessa trama infeliz. Em meio a tanto sobre o que escrever, escolhi me deter em apenas um tópico: ofender-se diante da imagem de Jesus pintada no quadro Jesus-Shiva, de Fernando Baril – um dos argumentos utilizados contra a exposição –.
 
Na imagem, Jesus, personagem da mitologia cristã, na conhecida cena da crucificação, surge cheio de pernas e braços, como é costume representar os deuses na mitologia hinduísta, como Shiva, Vishnu e tantos outros. Em 2009, passei férias na Índia durante o mês de janeiro; em todo templo que entrava, era bem recebido por deuses cheios de braços, quase sempre abertos. Em Goa, diante de uma mesa povoada por pequenas imagens, chamou-me atenção a miniatura de alguém, repleto de braços, montado em um tigre. Ao indagar ao senhor, dono de todos eles, de qual deus se tratava, recebi a resposta de que não era deus, era a deusa Durga. Dias depois, em Nova Delhi, comprei uma imagem sua, um desenho em que a divindade aparecia com mais braços ainda que na imagem de Goa. De volta ao Brasil e à internet, resolvi investigar de quem se tratava.
 
Rezam as lendas que, Mahishasur espalhava horror e destruição nos céus, na terra e no mundo subterrâneo, dotado do poder de invencível conquistador do universo, dado a ele por Brahma. Descontentes com isso, os deuses procuram Brahma, que, ao encontro de Vishnu e Shiva, busca resolver a questão: furiosos, os deuses emanam de seus corpos raios de força e de luz; desse mar de luz, feito da combinação de suas energias, surge Durga, apta para derrotar Mahishasur. Durante a batalha, Mahishasur assume múltiplas formas, mas, em todas elas, é derrotado por Durga; por fim, após beber do vinho divino, Durga emana tanta luz que paralisa Mahishasur, dando-lhe oportunidade para decepar sua cabeça, com sua foice.
 
Os braços e os objetos de Durga podem variar. Na iconografia indiana, o número de braços não está relacionado à monstruosidade dos deuses, não se trata de representar seres cheios de membros, como alguns monstros da mitologia grega, mas de mostrar, sintetizados na imagem, os principais atributos do deus. Durga, por isso mesmo, não é ser monstruoso, mas deusa que domina uma coleção de atributos.
 
Fazendo o inventário dos objetos mais recorrentes de Durga, é possível separar: a azagaia de Agni, o disco de Vishnu, a concha de Varuna, o tridente de Shiva, a clava de Kuber e o arco e flecha de Vayu. Agni representa o fogo do sacrifício ritual e a força criadora da vida, sua azagaia, portanto, remete a tudo isso; o disco de Vishnu simboliza a força ordenadora do deus; Varuna, entre seus muitos domínios, preside os oceanos, por isso a concha, na qual vibra o som Om, origem de tudo; o tridente de Shiva, com suas três pontas, significa os princípios metafísicos de dispersão, concentração e equilíbrio; Kuber rege os tesouros; Vayu é o senhor do ar e dos ventos. Para terminar o inventário, restam a flor de lótus, símbolo do renascimento espiritual, e o tigre, dado a Durga por Himvana, pai de Parvarti, uma das esposas de Shiva.
 
Ora, o Jesus-Shiva, de Fernando Baril, certamente, deve ser pensado em função dessa chave de leitura; seus muitos braços não são para fazer dele monstro, mas para dar sentido a suas muitas atribuições religiosas, afinal, tanto Jesus quanto Shiva e Durga são símbolos religiosos. Em seus quatorze braços, Jesus, segundo Baril, segura, entre outros objetos, ramos da árvore da vida, em que germinam maçãs e bananas; um peixe e um cachorro quente; luvas de boxe. Em seus três pares de pés, além dos cravos, Jesus calça tênis e saltos altos; sob a cruz, vê-se com facilidade, imagens da arte pop – a sopa Campbell e a Marilyn Monroe, ambas de Andy Warhol – e da vida moderna – computador, garrafa de Coca-Cola e um revólver –.
 
Valendo-se dos símbolos religiosos e das relações entre os valores cristãos e hindus, ao que tudo indica, ante de fazer galhofa com Jesus, ofendendo católicos e evangélicos, Fernando Baril, ao redimensionar o Cristo na cultura pop por meio do hinduísmo, termina por atualizar seu mito, dando a ele outros sentidos, mas dentro do próprio universo religioso, antes expandindo do que invalidando o cristianismo.



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