A execução de Julian Assange: ele expôs os crimes do império - e isso pode ser tolerado

Ele documentou suas mentiras, desrespeito cruel pela vida humana, corrupção desenfreada e inúmeros crimes de guerra. E os impérios sempre matam aqueles que lhes infligem ferimentos graves e profundos

15/12/2021 13:17

Ilustração original de Mr. Fish, ''Mind Games''

Créditos da foto: Ilustração original de Mr. Fish, ''Mind Games''

 
Vamos dar os nomes dos algozes de Julian Assange. Joe Biden. Boris Johnson. Scott Morrison. Theresa May. Lenin Moreno. Donald Trump. Barack Obama. Mike Pompeo. Hillary Clinton. Ministro-chefe da Suprema Corte Ian Burnett e ministro Timothy Victor Holroyde. Promotores James Lewis, Clair Dobbin e Joel Smith. Juíza Distrital Vanessa Baraitser. Advogada assistente dos Estados Unidos no Distrito Leste de Virginia Gordon Kromberg. William Burns, diretor da CIA. Ken McCallum, Diretor-Geral do Serviço de Segurança do Reino Unido ou MI5.

Vamos reconhecer que o objetivo desses algozes, que discutiram o sequestro e assassinato de Assange, sempre foi sua aniquilação. Não deve ser uma surpresa que Assange, que goza de precárias condições de saúde física e psicológica e que sofreu um derrame durante o processo de vídeo no tribunal em 27 de outubro, tenha sido condenado à morte. Os dez anos em que está detido, sete na Embaixada do Equador em Londres e quase três na prisão de segurança máxima de Belmarsh, foram acompanhados pela falta de luz solar e exercícios e ameaças implacáveis, pressão, ansiedade e estresse. “Seus olhos estavam fora de sincronia, sua pálpebra direita não fechava, sua memória estava confusa”, disse sua noiva Stella Morris sobre o derrame.

Sua constante deterioração física e psicológica o levou a alucinações e depressão. Ele toma o antidepressivo e antipsicótico quetiapina. Ele foi observado andando de um lado para o outro em sua cela até desmaiar, dando um soco no próprio rosto e batendo a cabeça contra a parede. Ele passou semanas na ala médica de Belmarsh. As autoridades da prisão encontraram “metade de uma lâmina de barbear” escondida sob suas meias. Ele ligou várias vezes para a linha direta de suicídio administrada pelos samaritanos porque pensava em se matar "centenas de vezes por dia".

Os algozes ainda não concluíram seu árduo trabalho. Toussaint L'Ouverture, que liderou o movimento de independência do Haiti, a única revolta de escravos bem-sucedida na história da humanidade, foi fisicamente destruído da mesma maneira, trancado pelos franceses em uma cela de prisão sem aquecimento e apertada e deixado para morrer de exaustão, desnutrição, apoplexia , pneumonia e provavelmente tuberculose.

Assange cometeu o maior pecado do império. Ele o expôs como uma empresa criminosa. Ele documentou suas mentiras, desrespeito cruel pela vida humana, corrupção desenfreada e inúmeros crimes de guerra. Republicano ou Democrata. Conservador ou Trabalhista. Trump ou Biden. Não importa. Os capangas que supervisionam o império cantam o mesmo cancioneiro satânico. Os impérios sempre matam aqueles que lhes infligem ferimentos graves e profundos.

A longa perseguição de Roma ao general cartaginês Aníbal, forçando-o no final a cometer suicídio, e a demolição de Cartago se repete épico após épico. Crazy Horse, Patrice Lumumba. Malcolm X, Ernesto “Che” Guevara, Sukarno, Ngo Dinh Diem. Fred Hampton. Salvador Allende. Se você não puder ser comprado, se não for intimidado ao silêncio, será morto.

As obsessivas tentativas da CIA de assassinar Fidel Castro, que como nenhum deles teve sucesso têm uma incompetência comparada aos Keystone Cops [um grupo de policiais de uma comédia pastelão]. Entre as tentativas, inclui-se a contratação de Momo Salvatore Giancana, o sucessor de Al Capone em Chicago, junto com o mafioso de Miami, Santo Trafficante, para matar o líder cubano, tentando envenenar os charutos de Castro com uma toxina botulínica, fornecendo a Castro uma roupa de mergulho infectada com bacilos da tuberculose, colocando uma bomba disfarçada no fundo do mar onde ele costumava mergulhar, colocando pílulas de toxina botulínica em uma das bebidas de Castro e usando uma caneta equipada com um agulha hipodérmica para envenená-lo.

A atual cabala de assassinos se esconde atrás de um burlesco judiciário, supervisionado em Londres por juízes corpulentos em togas e perucas de crina de cavalo branco, proferindo os absurdos legais típicos de Alice no País das Maravilhas. É uma reprise sombria do Mikado, de Gilbert e Sullivan, com o Alto Lorde Carrasco elaborando listas de pessoas de "quem não se sentiria falta".

Assisti à última parte do julgamento-espetáculo de Assange através de um link de vídeo, na sexta-feira. Ouvi a leitura da sentença de provimento ao recurso dos Estados Unidos para extraditar Assange. Os advogados de Assange têm duas semanas para apelar à Suprema Corte, o que se espera que façam. Não me sinto otimista.

A decisão de sexta-feira foi desprovida de base jurídica. Aceitou plenamente as conclusões da juíza de primeira instância sobre o aumento do risco de suicídio e as condições desumanas das prisões nos Estados Unidos. Mas a decisão argumentou que a Nota Diplomática dos EUA número 74, dada ao tribunal em 5 de fevereiro de 2021, que oferecia “garantias” de que Assange seria bem tratado, anulou as conclusões do tribunal inferior. Foi um notável non sequitur legal. A decisão não teria obtido aprovação no primeiro semestre de um curso de direito. Mas a erudição jurídica não é o ponto. A estrada judicial de Assange, que eviscerou uma norma legal após a outra, tornou-se, como escreveu Franz Kafka, "converter a mentira em um princípio universal".

A decisão de conceder a extradição foi baseada em quatro “garantias” dadas ao tribunal pelo governo dos Estados Unidos. O painel de apelação de dois juízes decidiu que as "garantias" "respondem inteiramente às preocupações que levaram a juíza [no tribunal inferior] a exonerar o Sr. Assange".

As “garantias” prometem que Assange não estará sujeito a Medidas Administrativas Especiais (Special Administrative Measures - SAMs) que mantêm os presos em extremo isolamento e permitem ao governo monitorar conversas com advogados, eviscerando o privilégio advogado-cliente; que Assange pode, se o governo australiano concordar, cumprir sua pena lá; que Assange receberá atendimento clínico e psicológico adequado; e, antes e depois do julgamento, não será encarcerado no prisão de segurança máxima [Administrative Maximum Facility - ADX] em Florence, Colorado.

“Não há razão para que este tribunal não aceite o que as garantias expressam”, escreveram os juízes. “Não há base para presumir que os EUA não deram essas garantias de boa fé.”

E com esses dribles retóricos, os juízes assinaram a sentença de morte de Assange.

Nenhuma das “garantias” oferecidas pelo Departamento de Justiça de Biden vale o papel em que estão escritas. Todas vêm com cláusulas de escape. Nenhuma é juridicamente vinculativa. Caso Assange faça “algo subsequente à oferta dessas garantias que atenda aos testes para a imposição de Medidas Administrativas Especiais [SAMs] ou para seu encarceramento na ADX”, ele estará sujeito a essas medidas coercitivas. Pode-se ter certeza de que qualquer incidente, não importa o quão trivial seja, será usado, se Assange for extraditado, como uma desculpa para jogá-lo na boca do dragão.

Caso a Austrália, que marchou em sincronia com os EUA na perseguição de seu cidadão, não concorde com sua transferência, ele permanecerá para o resto de sua vida em uma prisão norte-americana. Mas, e daí? Se a Austrália não solicitar uma transferência, "não pode ser motivo para crítica aos EUA ou motivo para considerar as garantias como inadequadas para atender às preocupações da juíza", diz a decisão. E mesmo que esse não fosse o caso, Assange levaria de dez a quinze anos para apelar de sua sentença à Corte Suprema, tempo mais do que suficiente para que os assassinos do Estado acabassem com ele.

Não tenho certeza de como responder à garantia número quatro, afirmando que Assange não será encarcerado, antes do julgamento, na ADX em Florence. Ninguém é preso antes do julgamento na ADX em Florence. Mas parece tranquilizador, então acho que aqueles, do Departamento de Justiça, que redigiram a nota diplomática adicionaram essa garantia. A ADX de Florence, é claro, não é a única prisão ‘supermax’ nos Estados Unidos que pode abrigar Assange. Assange pode ser enviado para uma de nossas outras instalações semelhantes a Guantánamo.

Daniel Hale, o ex-analista de inteligência da Força Aérea dos EUA, atualmente preso por liberar documentos ultrassecretos que expunham as vítimas civis generalizadas causadas por ataques de drones dos EUA, foi detido na penitenciária federal de Marion, Illinois (United States Penitentiary Marion - USP Marion), em uma Unidade de Gerenciamento de Comunicações desde outubro. Essas unidades são altamente restritivas e replicam o isolamento quase total imposto pelos SAMs.

A decisão da Suprema Corte veio ironicamente no momento em que secretário de Estado, Antony Blinken, anunciou na cúpula virtual pela democracia que a administração Biden fornecerá novos recursos para proteger repórteres perseguidos por causa de seu trabalho e apoiar o jornalismo internacional independente. As “garantias” de Blinken de que o governo Biden defenderá a liberdade de imprensa, no exato momento em que o governo exigia a extradição de Assange, é um exemplo flagrante da hipocrisia e mentira que faz dos democratas, como Glen Ford costumava dizer, “não o mal menor, mas o mal mais eficaz. ”

Assange é acusado nos EUA em 17 itens da Lei de Espionagem e uma acusação de hackear um computador do governo. As acusações podem condená-lo a 175 anos de prisão, embora ele não seja um cidadão americano e o WikiLeaks não seja uma publicação com sede nos Estados Unidos. Se for considerado culpado, o trabalho investigativo, que possua documentos confidenciais para iluminar o funcionamento interno do poder, de todos os jornalistas e editores estará efetivamente criminalizado, em qualquer lugar do mundo e de qualquer nacionalidade.

Este ataque mortal à imprensa terá sido orquestrado, não devemos esquecer, por um governo democrata. Isso abrirá um precedente legal que encantará outros regimes totalitários e autocratas que, encorajados pelos Estados Unidos, irão alegremente prender jornalistas e editores que publicam verdades inconvenientes, não importa onde estejam,

Não há base legal para manter Julian na prisão. Não existe base legal para julgá-lo, um cidadão estrangeiro, ao abrigo da Lei da Espionagem. A CIA espionou Assange na Embaixada do Equador por meio de uma empresa espanhola, a UC Global, contratada para fornecer segurança à embaixada. Essa espionagem incluiu a gravação de conversas privilegiadas entre Assange e seus advogados. Este fato por si só invalida qualquer julgamento futuro.

Assange, que depois de sete anos em uma sala apertada sem luz solar na embaixada, está detido por quase três anos em uma prisão de alta segurança em Londres para que o Estado possa, como Nils Melzer, o Relator Especial da ONU sobre Tortura, testemunhou, continuar o abuso implacável e a tortura que sabe que levará à sua desintegração psicológica e física. A perseguição a Assange tem o objetivo de enviar uma mensagem a qualquer um que considere expor a corrupção, desonestidade e depravação que definem o coração pernicioso de nossas elites globais.

Dean Yates pode dizer quanto valem as “garantias” norte-americanas. Ele era o chefe do escritório da Reuters em Bagdá, na manhã de 12 de julho de 2007, quando seus colegas iraquianos Namir Noor-Eldeen e Saeed Chmagh foram mortos, junto com outros nove homens, por aeronaves Apache do Exército dos EUA. Duas crianças ficaram gravemente feridas. O governo dos Estados Unidos passou três anos mentindo para Yates, para a Reuters e para o resto do mundo sobre os assassinatos, embora o exército tivesse evidências em vídeo do massacre gravado pelos aviões Apache durante o ataque. O vídeo, conhecido como Assassinato Colateral [Collateral Murder], vazou em 2010 por Chelsea Manning para Assange. Pela primeira vez, ficou provado que os mortos não estavam envolvidos, como o exército havia repetidamente insistido, em um tiroteio. Ele expôs as mentiras dos Estados Unidos de que não foi possível localizar o vídeo e nunca tentou encobrir os assassinatos.

Os tribunais espanhóis podem lhe dizer quanto valem as “garantias” dos Estados Unidos. A Espanha recebeu a garantia de que David Mendoza Herrarte, se extraditado para os Estados Unidos para ser julgado por tráfico de drogas, poderia cumprir sua pena de prisão na Espanha. Mas, por seis anos, o Departamento de Justiça recusou repetidamente os pedidos de transferência espanhóis, apenas cedendo quando o Supremo Tribunal espanhol interveio.

As pessoas no Afeganistão podem dizer quanto valem as “garantias” dos EUA. Oficiais militares, de inteligência e diplomáticos dos EUA sabiam há 18 anos que a guerra no Afeganistão era um atoleiro, embora declarassem publicamente, repetidamente, que a intervenção militar estava progredindo constantemente.

As pessoas no Iraque podem dizer quanto valem as “garantias” dos EUA. Eles foram invadidos e sujeitos a uma guerra brutal baseada em evidências falsificadas sobre armas de destruição em massa.

O povo do Irã pode dizer quanto valem as “garantias” dos EUA. Os Estados Unidos, nos acordos de Argel de 1981, prometeram não interferir nos assuntos internos do Irã e então financiaram e apoiaram a Organização Mujahedin do Povo do Irã (MEK), um grupo terrorista com sede no Iraque e dedicado a derrubar o regime iraniano.

As milhares de pessoas torturadas em locais secretos globais dos EUA podem dizer o que valem as “garantias” dos EUA. Os oficiais da CIA, quando questionados sobre o uso generalizado de tortura pelo Comitê de Inteligência do Senado, secretamente destruíram fitas de vídeo de interrogatórios de tortura, enquanto insistiam que não havia "destruição de provas".

O número de tratados, acordos, negócios, promessas e “garantias” feito pelos EUA em todo o mundo e descumprido é muito grande para se listar. Somente com as tribos nativas norte-americanas foram ignorados centenas de tratados assinados pelo governo dos Estados Unidos.

Assange, com um custo pessoal imenso, nos avisou. Ele nos deu a verdade. A classe dominante o está crucificando por essa verdade. Com sua crucificação, as fracas luzes de nossa democracia se apagam.

Chris Hedges é um jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer, foi correspondente estrangeiro por quinze anos para o The New York Times, onde atuou como Chefe do Escritório do Oriente Médio e Chefe do Escritório dos Balcãs.

*Publicado originalmente por ScheerPost | Traduzido por César Locatelli

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