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A quem importa o passado histórico brasileiro

Tocante o documentário 'Cúmplices? A Volkswagen e a ditadura militar brasileira' que versa sobre a participação ativa da empresa com as forças da ditadura

10/08/2017 13:19

Reprodução

É tocante o documentário Cúmplices? A Volkswagen e a ditadura militar brasileira que versa sobre a participação ativa – tortura, ameaças, repressão, espionagem e perseguição a funcionários - da Volkswagen do Brasil com as forças da ditadura civil-militar dentro da própria fábrica de São Bernardo, no Brasil dos anos 60. Não deixe de assisti-lo. Falado em alemão, com legendas em português.
 
O filme tem 44 minutos de objetividade. Sem adjetivos panfletários, com rigor e firmeza, ele é produzido pela TV pública da Alemanha e dirigido por Stefanie Dodt e Thomas Aders com entrevistas realizadas em São Paulo, Jacareí e em Wolfsburgo, na Baixa Saxônia, onde se encontra a sede da empresa.  
 
(CLIQUE AQUI PARA ASSISTIR AO FILME)
 
Imagens de época mostram as bombásticas campanhas de publicidade na televisão e o imenso sucesso dos fuscas e das primeiras kombis produzidas na fábrica de São Bernardo sob a presidência de um personagem então badalado diariamente pela mídia do Rio e de São Paulo, Friedrich Schultz-Wenk. Chegou aqui em 1950 e implantou a empresa no Brasil, a primeira fora da Alemanha.
 
Esses filmetes fazem a passagem entre os depoimentos de dois historiadores contratados pela Volkswagen alemã para examinar a vasta documentação do DOPS tornada pública dentro dos trabalhos da Comissão da Verdade e de papeis do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha - o primeiro deles se demitiu e por cláusula contratual não é autorizado a dar entrevistas; e o atual não fala português -, de um procurador do Ministério Público paulista que analisa o caso, de ex-funcionários da empresa hoje na casa dos 70 anos, e de Carl Hahn, na época diretor de vendas e hoje presidente da Volks. Ele aplaude o apoio da empresa nas investigações cujo relatório final será entregue até novembro deste ano.
 
Na sua entrevista no filme, Hahn diz: “Wunderbar, esta investigação. ’’ E mais adiante:” Há coisas mais importantes que se preocupar com o passado do Brasil.’’
 
Mas para Lucio Bellentani, 73 anos, ex-funcionário da Volks espancado e preso aos 25 anos, quando trabalhava na sua bancada, com direito a metralhadora de soldados do exército nas costas e sob a plácida vigilância de uma equipe de segurança da fábrica, o passado, ao contrário, está vivo; é recorrente. Lucio só conseguiu conservar, do passado, três dentes na boca e até hoje sofre de claustrofobia e tem pesadelos, diz a sua mulher, em Jacareí, onde vive com a família.
 
Para Bellentani “a lembrança da impotência” dele dos companheiros presos e torturados ainda dói. Para o porta-voz da Volks, na Alemanha, ouvido pela dupla diretora do filme, “devemos agora olhar para o futuro.” Mas o grupo de ex-operários da Volkswagen do Brasil quer o reconhecimento da conivência. Do fato de a Volks ter sido um braço da repressão política aqui. Um pedido de desculpas. Reparação às famílias.
 
A produção do doc só obteve autorização para filmar Bellentani na área externa da fábrica. Foram todos monitorados durante os trabalhos por agentes de segurança da Volks. Ao que parece o passado do Brasil é importante para a montadora. Ainda incomoda?
 
Para um espectador alemão o comovente Cúmplices? A Volkswagen e a ditadura militar brasileira deve evocar um universo - o Brasil -, pertencente a outro planeta. Como observou a jurista e ex-ministra da Justiça da Alemanha, Herta Daubler-Gmelin, esta semana. “É lamentável o que ocorre no país hoje. Um presidente que não renuncia. Mas o Brasil é um outro mundo,” a dra. Herta admitiu.
 
Lamentável sem dúvida. Como o comportamento da montadora de São Bernardo meio século atrás. Inesquecível, mesmo neste outro mundo.
 
 * O filme sobre a cooperação da Volks com a ditadura foi exibido  na Câmara  Municipal de São Paulo. Estavam presentes os trabalhadores da empresa que têm se reunido regularmente, e muitas pessoas e entidades que apóiam a sua luta pelo reconhecimento dos fatos.  O filme, disponível em português, pode ser visto em smartphone, computador, tablet etc.

 



Créditos da foto: Reprodução