Mídia entra na agenda política dos movimentos sociais

07/12/2003 00:00

Porto Alegre – Está em curso no Rio Grande do Sul uma mobilização, que pretende estender-se nacionalmente, em defesa da democratização dos meios de comunicação e contra o processo de criminalização dos movimentos sociais. A iniciativa é da recém-criada Coordenação dos Movimentos Sociais, que reúne entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), entre outras. O movimento tem uma agenda regional, relacionada à luta contra o monopólio exercido pelo Grupo RBS no Estado, e uma nacional, que diz respeito principalmente à crise financeira das grandes empresas de comunicação e à operação de socorro (já batizada pela imprensa de Promídia) que estaria sendo articulada junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Essas duas agendas articulam-se com uma terceira, de caráter ao mesmo tempo regional e nacional, sobre a criminalização dos movimentos sociais e de suas lideranças.
No dia 5 de dezembro, um debate realizado no plenarinho da Assembléia Legislativa gaúcha reuniu representantes destas entidades e apontou como uma tarefa urgente para os movimentos sociais a incorporação do tema da mídia em sua agenda política. O sentimento de urgência sobre o aprofundamento desta pauta no Rio Grande do Sul é fruto, em larga medida, do tratamento editorial dado pelos veículos do Grupo RBS às lutas sociais no Estado, principalmente a liderada pelo MST em defesa da reforma agrária. A cobertura midiática do conflito ocorrido em São Gabriel, no dia 3 de dezembro, quando a polícia militar reprimiu à força uma manifestação de ruralistas da região, que pretendiam impedir uma marcha promovida pelo MST, só reforçou essa percepção. Os editoriais dos veículos da RBS (rádio, televisão e jornal) defenderam que, a partir da repressão aos ruralistas, o governo do Estado deve agora adotar a mesma postura em relação aos movimentos sociais, impedindo, com o uso da força se preciso, manifestações em estradas e ruas da cidade que possam “perturbar a ordem pública”. Além disso, denunciou a ilegalidade do contrato de compra de uma área pelo MST, em São Gabriel, onde os sem-terra instalaram um acampamento.
Nota oficial do MST
A Coordenação Estadual do MST no Rio Grande do Sul divulgou nota oficial, dia 5 de dezembro, criticando essa linha editorial. “Ao mentir sobre a decisão do Judiciário em São Gabriel, a RBS demonstra que quer ela própria assumir o papel do Poder Judiciário”, diz o texto. Há um ano e meio, o MST decidiu não pronunciar-se mais a qualquer veículo do grupo RBS, por acreditar que “não é possível dar credibilidade a um grupo empresarial que comporta-se como um partido político, colocando suas motivações ideológicas e empresariais acima da verdade”. No caso do recente conflito em São Gabriel, o MST considera que o público do grupo RBS foi mais uma vez enganado : “segundo seus veículos, a Justiça havia decidido pela anulação da compra de uma área onde está nosso acampamento em São Gabriel. A verdade omitida: o Juiz Cristiano Flores não cancelou a compra e ainda garantiu a permanência dos agricultores sem terras na área”, diz a nota oficial.
Na avaliação do MST, a intenção da RBS é “colocar todo seu poder em defesa do Latifúndio”, procurando “assumir o papel do Poder Judiciário, acusando e julgando, pressionando para que o verdadeiro Poder constituído submeta-se a sua vontade”. "Esta mesma empresa", prossegue o texto, “que sempre tratou a questão agrária com sensacionalismo, para aumentar as suas vendas e semear a tensão, como visto recentemente em São Gabriel, agora afronta os princípios básicos da ética jornalistíca, ao tomar posição parcial de defesa do latifúndio gaúcho, como pode ser comprovado pela opinião apaixonada de seus comentaristas sobre os recentes acontecimentos em São Gabriel”.
O MST aponta a existência de laços de interesse entre a empresa e os grandes proprietários rurais do Estado, observando que a Federação da Agricultura do RS (Farsul) é sócia da RBS no portal de Internet Agrol. “É natural também que a RBS seja solidária com o Complexo Southall, em São Gabriel. Este grande latifúndio, além de improdutivo, possui mais de R$ 30 milhões em dívidas, a maior parte delas com os cofres públicos. A RBS é também um grande latifúndio, concentrador de meios de comunicação, e ela própria ostenta dívidas em torno de US$ 158 milhões de dólares, segundo a Agência de Risco Standard & Poor‘s”, conclui o comunicado do MST.
Ausência de parlamentares
O teor da nota do MST mostra a intensidade e a natureza do problema identificado pelos movimentos sociais como um nó górdio a desatar. No debate do dia 5 de dezembro, representantes desses movimentos deixaram isso claro e lamentaram a ausência de parlamentares do PT e de outros partidos de esquerda nessa discussão. Todos os deputados estaduais e federais foram convidados, mas só um compareceu - o deputado federal Adão Pretto. Ele próprio criticou a ausência dos colegas. “Me surpreende não ver nenhum deputado de esquerda aqui”. Ele foi o único deputado gaúcho a se manifestar na Câmara Federal sobre a edição de um dossiê sobre o Grupo RBS, publicado pela revista Porém. No dia seguinte foi procurado por Luiz Tomé, diretor institucional da empresa, que solicitou uma audiência e convidou o deputado para um almoço com executivos da empresa. “Ele foi lá dizer que nós precisamos fazer as pazes e me convidou para um almoço com Pedro Parente”, contou Adão Pretto.
O deputado petista também disse ter ficado “vermelho de vergonha” ao ver, no Jornal Nacional, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, anunciar que uma grande obra viária da cidade receberá o nome de Roberto Marinho, ex-presidente das Organizações Globo. “Vi aquilo em casa e fiquei vermelho de vergonha na frente da mulher”, desabafou Adão Pretto.
O diretor da revista Porém, Hugo Scotte, também estranhou a ausência dos deputados na reunião. “Ultimamente, parece que muitos companheiros mostram um respeito excessivo, quase uma submissão, para com a grande mídia, como se estivessem com medo de perder espaço. Entregamos um exemplar do caderno sobre a RBS e um convite para esse debate a todos os membros da bancada gaúcha, mas só um deputado apareceu”, lamentou Scotte.
A postura mais moderada dos parlamentares petistas em relação ao tema da grande mídia representa um novo desafio para os movimentos sociais que têm uma posição mais radicalizada, uma vez que estão na linha de frente das mobilizações de rua, enfrentando assim a reação dos setores conservadores do país. Tanto Adão Pretto quanto Hugo Scotte identificaram esse problema e, com diferentes ênfases, criticaram o progressivo afastamento do PT desses movimentos. “O que é preciso ficar claro”, observou Scotte, “é que os movimentos sociais não podem ficar sem representação política”. O que ele não disse, mas ficou implícito, é que se os parlamentares petistas e da esquerda em geral não abraçarem alguns pontos estratégicos da agenda política dos movimentos, estes terão que buscar novos caminhos.
O debate sobre a crise da mídia
O tema da negociação das grandes empresas de comunicação com o governo federal será decisivo neste sentido e sinalizará com maior clareza qual é a distância, de fato, entre os movimentos e os partidos de esquerda com representação no parlamento. O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação divulgou uma carta aberta que será entregue ao governo federal, onde identifica algumas condições básicas para essa negociação: “recursos do BNDES para empresas de comunicação somente com critérios transparentes, negociação pública e contrapartidas sociais”, resume o texto. Até agora, essa discussão permanece fechada em gabinetes e os movimentos sociais querem trazê-la a público. O que ficou claro no debate realizado na Assembléia gaúcha, é que o tema da mídia deixou de ocupar um lugar secundário nessa agenda.


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