Economia Política

33 teses para uma reforma da disciplina da economia

As teses resumem uma detalhada crítica da corrente principal e desafiam o monopólio intelectual, apelando a uma visão mais pluralista e interdisciplinar da economia

05/01/2018 20:43

 

Iniciativa do Rethinking Economics – New Weather Institute


Estas 33 teses elaboradas por estudantes, economistas e acadêmicos reunidos pelo Rethinking Economics – New Weather Institute, respaldadas por importantes economistas e dirigentes políticos, como a parlamentária britânica Caroline Lucas, resumem uma detalhada crítica da corrente principal da disciplina da economia.

Economistas de renome como Mariana Mazzucato, Kate Raworth, Steve Keen, assim como Sally Svenlen, estudante ligada ao Rethinking Economics, formaram parte de um ato presidido por Larry Elliott, chefe da seção de Economia do diário britânico The Guardian, no qual debateram as 33 teses, junto com uma petição de reformas.

O ato aconteceu no dia 12 de dezembro de 2017, na University College de Londres e no final os participantes, público e estudantes, se encaminharam às portas da London School of Economics, onde deixaram fixadas suas teses e exigiram essa reforma.

Caroline Lucas, deputada e dirigente do Partido Verde do Reino Unido, disse que “o Rethinking Economics tem razão ao afirmar que uma melhor disciplina econômica não só é possível como é essencial para os dias de hoje. Durante um longo tempo, a corrente principal da política rendeu culto ao altar da economia neoliberal, como se fosse a única maneira de fazer as coisas. Essa visão míope está claramente equivocada e é magnífico que o Rethinking Economics esteja ampliando o debate e tentando incluir ideias inovadoras”.

Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge: “a economia neoclássica desempenha o mesmo papel que a teologia católica na Europa medieval: um sistema de pensamento que argumenta que as coisas são o que são porque têm que ser assim. Os jovens economistas do Rethinking Economics estão desafiando o monopólio intelectual, apelando a uma visão mais pluralista e interdisciplinar da economia. Se trata de uma intervenção extremamente importante e oportuna numa conjuntura que pode ser a última ocasião de salvar de a corrente principal da economia dos seus próprios equívocos, e também de salvar o mundo dessa corrente principal”.

Steve Keen, autor do livro Debunking Economics, (“A economia desmascarada”, de 2015): “a economia necessita uma revolução copernicana, e por isso defendemos essa reforma”.

Victoria Chick, professora emérita de Economia no University College de Londres: “na economia de hoje há um grupo de pessoas que se apresentam como sacerdotes, que tentam servir como mediadores no caminho à verdade. A reforma da economia nestas 33 teses que apresentamos estimula os estudantes a lerem as escrituras em toda a sua extensa variedade, para que tomem suas próprias conclusões. Saberão assim o Papa (nem o da religião nem o da economia) não é infalível e que devem buscar a verdade no confronto de ideias”.

Sir David King diz que “a oportunidade e a necessidade de repensar os modelos econômicos se vê estimulada por uma série de manifestos recentes. As grandes ameaças da crise climática e da destruição ecológica, a crise financeira da dívida de 2007/8, o aumento do abismo que separa os mais ricos e os mais pobres em nossas sociedades. O controle dos meios de comunicação por parte de um reduzido número de indivíduos extremamente ricos. Nesse contexto, o documento das 33 teses és um estímulo para a ação e é muito bem-vindo”.

Os estudantes do Rethinking Economics desenvolveram seus estudos nos últimos cinco anos, enquanto protestaram, marcharam para publicar seu manifesto para a reforma do programa acadêmico, buscando apoios, e a elaboração do seu próprio livro de textos, The Econocracy (“A econocracia”), um livro sobre a história e os argumentos do movimento.


33 TESES PARA UMA REFORMA DA DISCIPLINA DA ECONOMIA


O MUNDO ENFRENTA A POBREZA, A DESIGUALDADE, A CRISE ECOLÓGICA E A INSTABILIDADE FINANCEIRA

Nos preocupa que a economia esteja fazendo muito menos do que poderia para proporcionar intuições que ajudem a resolver estes problemas. Isso acontece por três razões:

A primeira é que no seio da economia se desenvolveu um insano monopólio intelectual. A perspectiva neoclássica domina o ensino de modo arrebatador, a investigação, a assessoria política e o debate público. Muitas outras perspectivas que poderiam proporcionar intuições valiosas foram marginalizadas. Isso não tem a ver com que uma teoria seja melhor que outra e sim com a noção de que o progresso científico só avança através do debate. Nesse sentido, no seio da economia, este debate se desvaneceu.

Segunda razão: a economia neoclássica, apesar de seus méritos históricos que ainda se mostram úteis, abre enormes possibilidades de melhoras e correções, debate e aprendizagem de outras disciplinas e perspectivas.

Terceira razão, a corrente principal da economia parece incapaz de se autocorrigir, se desenvolvendo mais como fé que como ciência. Com excessiva frequência, quando as teorias e a evidência chegam a entrar em conflito, são as teorias que costumam se manter, enquanto se descartam as evidências e as consequências.

Propomos estas teses como desafio ao insano monopólio intelectual da corrente principal da economia. Elas são exemplos das falhas nas teorias da corrente principal, das intuições que deveriam oferecer as perspectivas alternativas e uma visão mais pluralista, capaz de ajuda a economia a se tornar mais eficaz e democrática. A afirmação de que é possível uma economia melhor e um convite ao debate.

FINALIDADE DA ECONOMIA

1.  A finalidade da economia deve ser decidida pelo conjunto da sociedade. Nenhuma meta econômica pode se separar da política. Os indicadores de eficiência representam eleições políticas.             
    
2.  A equitativa distribuição da riqueza e da renta são fundamentais para a realidade econômica e assim deveriam sê-lo na teoria econômica.
3. A economia não está isenta de valores e os economistas deveriam se mostrar transparentes a respeito dos julgamentos que fazem. Isto se aplica especialmente a aos que podem não ser visíveis para o olhar de alguém que não seja um especialista.

4. A política não nivela o campo de jogo, mas o inclina em uma direção. Carecemos de uma discussão explícita sobre que gênero de economia queremos e como alcançá-la.

O MUNDO NATURAL

5. A natureza da economia é que se trata de um subconjunto da natureza, e das sociedades na qual surge. Não existe como entidade independente. As instituições sociais e os sistemas ecológicos são, portanto, centrais e não externos ao seu funcionamento.

6. A economia não pode sobreviver ou prosperar sem insumos do mundo natural. Ou sem os muitos sistemas de suporte vital que proporcionados pela natureza. Depende de um fluxo contínuo de energia e material e atua no seio de uma biosfera de delicado equilíbrio. Uma teoria económica que trate o mundo natural como algo externo ao seu modelo não pode compreender plenamente de que modo a degradação do mundo natural pode danificar suas próprias perspectivas.

7. A economia deve reconhecer que a disponibilidade da energia e dos recursos não renováveis não é infinita, e que o uso destas reservas para obter energia altera os equilíbrios do planeta, ocasionando consequências tais como os transtornos climáticos.

8. Não se pode ignorar a retroalimentação entre a economia e a ecologia. Ignorá-lo é o que nos tem levado a uma economia global que opera já fora dos níveis de viabilidade ecológica. Embora a economia precise buscar um maior crescimento, ela pode sim estar ancorada em princípios objetivos que respeitem a ecologia do planeta.

INSTITUIÇÕES E MERCADOS

9. Todos os mercados estão criados e configurados pelas leis, costumes e culturas, e são influenciados pelo que fazes e não fazem os governos.

10. Os mercados são resultado das interações entre diferentes tipos de organismos públicos e privados (além dos setores do voluntariado e da sociedade civil). É preciso dedicar mais estudos ao modo como se organizam essas entidades e a maneira como funcionam ou poderiam funcionar as inter relações entre elas.

11. Os mercados são também mais complexos e menos previsíveis do o estabelecido pela simples relação entre oferta e procura. A economia necessita uma compreensão mais profunda de como se comportam os mercados, e poderia aprender da ciência de sistemas complexos, tal como se emprega na física, na biologia e na informática.

12. As instituições dão forma aos mercados e influem no comportamento dos agentes econômicos. A economia deve considerar as instituições como parte central do seu modelo.

13. Visto que diferentes economias possuem diferentes instituições, uma política que funciona bem numa economia pode funcionar mal em outra. Por esta razão, entre muitos outras, é improvável que seja positivo propor um conjunto universalmente aplicável de medidas políticas e econômicas que se baseie unicamente na teoria econômica abstrata.

TRABALHO E CAPITAL

14. É possível demonstrar que salários, benefícios e retornos sobre ativos dependem de um amplo leque de fatores, entre eles o poder relativo dos trabalhadores, empresas e proprietários de ativos, e não simplesmente em seu aporte relativo à produção. A economia necessita uma compreensão mais ampla destes fatores com o fim de informar melhor sobre aquelas escolhas que afetam a porção da renda recebida pelos distintos grupos da sociedade.

NATUREZA DAS DECISÕES

15. Erros, interesses, reconhecimento de padrões, aprendizagem, interação social e contexto são influências importantes sobre o comportamento que não são reconhecidas pela teoria econômica. A corrente principal necessita uma compreensão mais ampla do comportamento humano e pode aprender da sociologia, psicologia, filosofia e outras escolas de pensamento.

16. As pessoas não são perfeitas e não é possível tomar decisões econômicas perfeitamente racionais. Toda decisão econômica que tenha algo a ver com o futuro implica em algum grau de incerteza não quantificável e requer, portanto, de uma análise. A corrente principal da teoria econômica e a prática devem reconhecer o papel das incertezas nessa equação.

DESIGUALDADE

17. Numa economia de mercado, as pessoas que dispõem das mesmas capacidades, preferências e dotes não tendem a acabar com o mesmo nível de riqueza, sujeita somente a uma variação aleatória. Os efeitos de pequenas diferenças na sorte ou nas circunstâncias podem levar consigo resultados enormemente diferentes para gente semelhante.

18. Os mercados mostram, com frequência, uma tendência a elevar a desigualdade. Por sua vez, as sociedades desiguais se desempenham de pior forma em toda uma série de indicadores de bem-estar social. A corrente principal da teoria econômica poderia fazer muito mais para compreender de que modo e por que isso acontece, e de que forma pode ser evitado.

19. A proposição segundo a qual se um país se torna mais rico a desigualdade nele também tende a aumentar inevitavelmente é falsa, como já foi demonstrado em diversos casos. Qualquer combinação de crescimento do PIB e desigualdade é possível.

CRESCIMENTO DO PIB, INOVAÇÃO E DÍVIDA

20. O crescimento é uma opção política, e também econômica. Se escolhemos o crescimento como meta, devemos nos perguntar: crescimento de quê, por quê, para quem, durante quanto tempo e o quanto é suficiente? As respostas devem ser dadas de modo explícito ou implícito.

21. A inovação não é um fator a ser desconectado da economia, é parte inerente da atividade econômica. Nossa compreensão do crescimento do PIB pode melhorar se contemplamos a inovação como algo que sucede num ecossistema em desequilíbrio e constante evolução, configurado pelo desenho dos mercados e pelas interações entre todos os agentes em seu seio.

22. A inovação tem, ao mesmo tempo, um ritmo e um rumo. O debate sobre o rumo da inovação requer compreender a finalidade do desenho das políticas.

23. A dívida privada também influi profundamente no ritmo em que cresce a economia, e no entanto é excluída da teoria econômica. A criação de dívida se soma à demanda financiada pelo crédito, e afeta tanto os mercados de bens como o de ativos. As finanças e a economia não podem se separar.

DINHEIRO, BANCOS E CRISES

24. A maioria do dinheiro que circula na economia foi criado pelos bancos comerciais, cada vez que realizam novos empréstimos.

25. A forma com a que se cria dinheiro afeta distribuição da riqueza no seio da sociedade. Por conseguinte, o método de criação de dinheiro deveria ser entendido como uma questão política, não simplesmente técnica.

26. Visto que os bancos criam dinheiro e dívida, são agentes importantes da economia. E portanto devem ser incluídos nos modelos macroeconômicos. Os modelos econômicos que não incluem os bancos não poderão predizer as crises bancárias.

27. A economia necessita uma compreensão melhor de como se geram internamente a instabilidade e as crises no seio dos mercados, em lugar de tratá-las como choques vindos de fora que afetam os mercados.

28. A financeirização tem duas dimensões: as finanças curto-prazistas e especulativas, e a economia real financeirizada. Os dois problemas devem ser estudados conjuntamente.

ENSINO DA ECONOMIA

29. Uma boa formação em economia deve oferecer uma pluralidade de visões teóricas aos seus estudantes. Isso deveria incluir não só a história e filosofia do pensamento econômico, mas também um amplo leque de perspectivas atuais, tais como as instituições, a escola austríaca, a linha marxista, a linha pós-keynesianas, o pensamento feminista, a ecologia e outras complexidades.

30. A economia não deveria ser um monopólio. Os cursos interdisciplinares são cruciais para compreender as realidades econômicas das crise financeira, a pobreza e o caos climático. A política, a sociologia, a psicologia e as ciências ambientais devem ser integradas, portanto, num programa acadêmico, e não ser tratadas como adições inferiores à teoria econômica existente.

31. Não se deveria ensinar economia como um estudo neutro em valores de modelos e indivíduos. Os economistas têm que estar versados em ética e política, além de serem capazes de se envolver de modo significativo com a opinião pública.

32. Se concentrar ortodoxamente na estatística e nos modelos quantitativos pode acabar cegando os economistas diante de outras formas de pensar. É preciso apoiar os estudantes e ensiná-los a explorar outras formas e visões metodológicas, entre elas a investigação qualitativa, a entrevista, o trabalho de campo e a argumentação teórica.

33. Finalmente, e principalmente, a economia deve estimular o pensamento crítico e não premiar simplesmente a memorização de teorias e a aplicação prática de modelos. Fazer com que os estudantes sejam encorajados a comparar, contrastar e combinar teorias, e a aplicá-las criticamente a estudos aprofundados do mundo real.

Publicadas em Londres, no dia 12 de dezembro, no aniversário de 500 anos da Reforma, e colada nas portas da London School of Economics.

Rethinking Economics – New Weather Institute é um movimento de reforma do ensino da teoria económica que se iniciou em 1992 na Universidade de Sydney, com uma carta de nove vencedores do Prêmios Nobel de Economia e da American Economic Review. Na atualidade, este movimento de reforma universitária de inspiração pós-keynesiana se estende por numerosas universidades do Reino Unido, França, Itália, Estados Unidos, Israel, Brasil e China.



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