Economia Política

As economias ocidentais não podem voltar aos ''negócios de sempre'' após a pandemia

Os desafios de hoje exigem uma ação radical. A velha ortodoxia dos livres mercados e o Estado mínimo não serão suficientes

14/09/2021 12:29

Canary Wharf: 'estagnação salarial, trabalho precário e desigualdade crescente não são vírus em um sistema em bom funcionamento, mas sim resultados inevitáveis do modo como as economias ocidentais são organizadas' (Ian West/PA)

Créditos da foto: Canary Wharf: 'estagnação salarial, trabalho precário e desigualdade crescente não são vírus em um sistema em bom funcionamento, mas sim resultados inevitáveis do modo como as economias ocidentais são organizadas' (Ian West/PA)

 
Enquanto as economias ocidentais emergem da pandemia, seus governos encaram uma escolha: tentarão abordar os profundos problemas que a Covid expos, ou tentarão retornar aos “negócios de sempre” o mais rápido possível? Seu problema é que muitas das questões exacerbadas pela pandemia, como a estagnação salarial, trabalho precário e desigualdade crescente não são vírus em um sistema em bom funcionamento, mas sim resultados inevitáveis do modo como as economias ocidentais são organizadas. Então, uma abordagem “negócios de sempre” simplesmente não vai funcionar. Uma mudança muito mais fundamental é necessária.

O governo dos EUA parece reconhecer isso. Os planos econômicos de Joe Biden são uma saída radical da era que vai de Reagan até Obama, quando governos queriam manter impostos e gastos públicos baixos e focavam principalmente no comércio globalizado e na educação e treinamento da força de trabalho. Diferentemente de seus antecessores, Biden está buscando um gasto público amplo e está se aproveitando de taxas de juros ultra-baixas para pegar dinheiro emprestado para investimentos em infraestrutura. Seu plano de estímulo mira na crise climática enquanto cria empregos verdes e expande a saúde, educação e assistência infantil – a “infraestrutura social” que é essencial para a economia, mas que é frequentemente ignorada por economistas tradicionais.

Biden tampouco tem medo de aumentar impostos. Ele já propôs aumentos significativos aos impostos corporativos, e à taxa máxima do imposto de renda, e quase o dobro de aumento nos impostos sobre ganhos de capital. No mercado de trabalho, sua administração está comprometida a conduzir o que Janet Yellen, secretária do Tesouro Nacional, chama de “economia de alta pressão”, na qual a demanda sustentada impulsiona os salários e melhora as condições de trabalho. Ele também está atacando os negócios, introduzindo medidas para reprimir práticas anti-competitivas de corporações monopolísticas.

As políticas de Biden surpreenderam muitos, mas não saíram do nada. Sua administração desenhou novos pensamentos que emergiram em resposta à crise econômica da última década. O colapso global de 2008 demonstrou que uma nova forma de capitalismo dominado pelas finanças se tornou profundamente instável. Isso foi seguido por longos anos de austeridade e crescimento vagaroso, salários estagnados, produtividade paralisada e desigualdade extrema. Enquanto isso, os colapsos climático e ambiental ameaçam ser catastróficos até mesmo para as economias mais ricas. Lidando com esses problemas, um número cada vez maior de economistas explicitamente rejeitou a ortodoxia dos livres mercados e o Estado mínimo que dominou a política econômica ocidental nos últimos 40 anos.

Algumas de suas ideias revivem a economia de John Maynard Keynes, que viu que os gastos governamentais são necessários para estimular a demanda por bens e serviços durante a recessão. Mais recentemente, a maioria dos economistas reconheceu que em uma era de taxas de juros ultra-baixas, a política fiscal – gastos e taxação – deveria ter um papel importante no modo como a economia é gerida. Muitos também reconhecem que não existem limitações absolutas na dívida pública. Contanto que as baixas taxas de juros mantenham o custo do empréstimo acessível, e que o empréstimo seja usado para financiar investimento (que aumenta a renda nacional futura e, com isso, atrai mais impostos), a proporção de dívida em relação ao PIB, por fim, cai. Em contraste, tentar reduzir a dívida por meio de políticas de austeridade é algo danoso e autodestrutivo, como já provou a última década.

O pensamento econômico está mudando em resposta às crises climática e ambiental. Não é mais suficiente usar algumas taxas ambientais baseadas no mercado e regulamentações de produtos. Para alcançar a meta de zero emissões, toda a economia precisa se mover em direção a esses objetivos. Ao mesmo tempo, uma estratégia industrial ativa é necessária para apoiar tecnologias e padrões de consumo mais verdes, com programas de criação de empregos para trabalhadores e comunidades afetadas pela transição verde.

A nova economia reconhece que cortar a desigualdade significará atacar a “economia rentista”, que concentrou a posse de bens nas mãos dos ricos. Isso significará limitar monopólios e regulamentar o setor financeiro para focar em investimentos de longo prazo, não na extração de riqueza em curto prazo. A riqueza e a propriedade deveriam ter impostos mais altos, ao passo que o uso de contratação pública para apoiar a construção de riqueza comunitária pode garantir que as economias locais preservem sua riqueza e empregos. A reforma da seguridade social, como uma renda mínima garantida, é necessária para pôr fim à pobreza. A desigualdade sistêmica racial e de gênero deve ser erradicada. Essas ideias são reunidas no New Deal verde.

Acima de tudo, muitos estão começando a perceber que a política econômica precisa terminar sua fixação com o crescimento. O crescimento nunca foi o único objetivo, mas os economistas há tempos presumem que isso resolveria a maior parte dos outros problemas. Agora está claro que esse nunca foi o caso. Novas ideias para a economia “pós-crescimento” estão emergindo, que focam na sustentabilidade ambiental, redução de desigualdades, melhora do bem-estar individual e social e a garantia de um sistema econômico que seja mais resiliente aos choques.

Durantes períodos anteriores de crise econômica, as ideias que prevaleceram sobre como a economia deveria ser organizada e gerida foram revogadas em favor de novas teorias. A Grande Depressão dos anos 30 levou à revolução keynesiana e ao estado de bem-estar social com pleno emprego. A crise dos anos 70 levou à desregulamentação e doutrinas de privatização de Thatcher e Reagan. Ainda é muito cedo para dizer se tal mudança de paradigma vai ocorrer hoje. Biden ainda deve passar seus planos econômicos pelo Congresso. No Reino Unido, os partidos mais importantes ainda estão ponderando como “construir novamente da melhor maneira”.

Ambos Boris Johnson e Keir Starmer reconheceram a prioridade de atacar a mudança climática e “nivelar” as desigualdades. Mas nem eles, nem a maioria dos comentadores, parecem ter reconhecido como a economia está mudando com a crise atual. A questão não é mais simplesmente sobre quanto uma política custará ou como será paga. Há uma riqueza de novos pensamentos com os quais eles podem abordar as mudanças profundas que a nossa economia enfrenta. As velhas ortodoxias falharam. O mundo pós-pandêmico fará novas perguntas, e novas respostas serão necessárias.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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