Economia Política

Balança comercial: nada a comemorar

Juros elevados e cortes nas despesas orçamentárias agravaram o quadro social, com a ampliação recorde da taxa de desemprego e dos pedidos de falência em todo Brasil, que registrou entre 2015 e 2017 a maior queda do Produto Interno Bruto de toda a sua História

09/01/2018 16:50

 

Paulo Kliass *

Em seu trabalho insano de garimpar notícias menos piores na seara da economia, os responsáveis por tais editorias dos grandes de meios de comunicação não se preocupam com um mínimo de coerência perante seus leitores ou com a própria imagem refletida no espelho antes de dormirem. Na verdade, tentam melhorar a popularidade para lá de desgastada do governo que ajudaram a constituir depois da aprovação do golpeachment de Dilma.

No início asseguravam por todos os costados que bastava substituir a Presidenta, ainda que de forma ilegal e imoral, para que todos os problemas nacionais fossem finalmente solucionados. Ao colocarem a duplinha dinâmica do financismo no comando da economia imaginavam que tudo seria resolvido magicamente, uma vez que a fadinha das expectativas entraria lépida e contente em ação para colocar o País nos eixos. Meirelles na Fazenda e Goldfajn no Banco Central seriam a garantia inquestionável do sucesso do governo Temer.

Mas a continuidade do austericídio não permitiu outro caminho que não fosse o aprofundamento da recessão. Os responsáveis pela assim chamada “equipe técnica e competente” mantiveram a rota dos juros elevados e dos cortes imensos nas despesas orçamentárias. A combinação explosiva desses dois ingredientes da política econômica da ortodoxia neoliberal agravou o quadro social, com a ampliação recorde da taxa de desemprego e dos pedidos de falências por todos os cantos do território nacional. Graças a tal cardápio desastroso o Brasil registrou entre 2015 e 2017 a maior queda do Produto Interno Bruto de toda a sua História.

Garimpando noticias alentadoras.

Ao se darem conta das dificuldades políticas e eleitorais derivadas de tal estratégia, “los médios” passaram também a se preocupar com o destino de Temer e seus ministros. Nos tempos atuais da pós modernidade, um dos elementos centrais do exercício da hegemonia é a chamada disputa de narrativa. Assim, passaram a dedicar também seus esforços a enaltecer a redução da taxa de juros e o controle da inflação, como se fossem aspectos independentes da intenção de deliberada de promover a estagnação aguda da atividade econômica. Ou então, dedicaram-se a criar expressões como a desavergonhada “parou de piorar”, sempre no intuito desesperado de enxergar retomada de crescimento onde havia tão somente redução no ritmo da recessão.
Uma outra tentativa dos grandes jornais foi enaltecer o crescimento do emprego informal, do emprego intermitente e do subemprego como elementos de uma virtuosa retomada do ritmo da atividade econômica. Em tempos de entrada em ação dos dispositivos perversos gerados pelo desmonte dos direitos trabalhistas, não tardarão em comemorar a redução dos salários proporcionada pela “flexibilização” da CLT. Assim como fazem com a retórica em defesa da reforma da previdência, daqui a pouco o recebimento de salário mínimo como remuneração por trabalho mensal também será taxado de “privilégio”. Uma loucura!
Todo esse movimento não tem outro objetivo que não seja a recuperação da imagem desgastada de um governo que apresenta os recordes negativos de aprovação popular em pesquisas de opinião. Trata-se de uma operação de salvamento de Temer, Meirelles, Alckmin e tantos outros que se apresentem como candidatos para impedir que Lula seja eleito em outubro próximo. Sintomaticamente, todos esses herdeiros do governo direitista e neoliberal que promoveu a mais brutal destruição dos direitos sociais são chamados de candidatos do “centro”, uma vez que a extrema direita representada por Bolsonaro é chamada de “direita”.
A bola da vez é a Balança Comercial.
A mais recente tentativa de engodo junto à opinião pública deu-se agora no começo do janeiro, durante os primeiros dias úteis do ano. O mote foi a divulgação dos números relativos ao comércio exterior brasileiro durante o ano que se encerrou há pouco. De acordo com as informações oficiais do Ministério do Desenvolvimento, o Brasil apresentou um saldo positivo na Balança Comercial de US$ 67 bilhões. Os apressadinhos de plantão não tardaram em alardear sua imensa satisfação. Afinal, trata-se de mais um recorde. Em nenhum outro momento da história as contas apresentaram um superávit tão elevado. Um viva à equipe econômica.
Só que não! Qualquer indivíduo com um mínimo de formação e conhecimento na área da economia sabe que não há nada a comemorar com esse tipo de resultado isolado. O saldo nas contas de comércio exterior é derivado de desempenho observado, de forma simultânea, em atividades de exportação e importação de bens e serviços. Em uma economia que apresenta um grau razoável de abertura como a nossa, o saldo positivo necessita ser avaliado com mais atenção. Ele pode ser resultado de uma elevação especial das exportações, de uma redução importante das importações ou de uma alguma combinação particular entre ambas.
Em 2016, por exemplo, foi ensaiada a mesma tentativa destrambelhada de festejar o saldo positivo de US$ 47 bi. Isso porque também naquele momento o resultado havia sido também recorde. Mas o principal fator para explicar tais valores aparentemente “surpreendentes” no superávit comercial só tem um nome: recessão. A redução inédita no ritmo da atividade econômica tem provocado uma diminuição na demanda por produtos importados. Seja pela ausência de investimentos demandantes de equipamentos fabricados no exterior, seja pela queda de bens intermediários e matéria-prima ou seja ainda pelo amortecimento do ímpeto de consumo de bens finais, o fato é que o austericídio impactou negativamente as importações de forma agregada.

Superávit é resultado da recessão.

As exportações em 2017 atingiram a marca de US$ 218 bi e as importações chegaram a US$ 151 bi. Assim, os valores exportados nos últimos 12 meses remontam a cifras anuais ocorridas entre 2010 e 2011, ao passo que os totais importados voltam a algum período localizado entre 2009 e 2010. Esse retorno a um passado já um pouco distante não pode mesmo ser objeto de nenhuma comemoração.
A avaliação de desempenho no comércio exterior oferece outros indicadores para efeitos de análise e comparação. Um deles é aquilo que o economês chama de “corrente de comércio”. E nesse caso, ao invés de subtrair as compras das vendas externas, o procedimento é exatamente o inverso: somam-se exportações e importações. Com isso, consegue-se ter uma dimensão mais efetiva do impacto das contas do setor externo sobre o conjunto da economia. Como a recessão tende a diminuir das duas contas, a queda observada na corrente de comércio é fatal.
A comparação com o período do primeiro mandato de Dilma, por exemplo, não oferece nenhum argumento favorável à tão comentada superioridade técnica da atual equipe. Entre 2011 e 2014 a corrente de comércio havia atingido a média anual de US$ 471 bi - US$ 241 bi de exportações e US$ 230 bi de importações. Já entre 2015 e 2017, essa mesma conta não chegou a ultrapassar os US$ 351 bi - US$ 198 bi de exportações e US$ 153 bi de importações. Ou seja, o comércio exterior terá de crescer o equivalente a 34% para voltar aos níveis do início da década atual.
A realidade nos ensina que não se devem lançar inadvertidos rojões para festejar a queda da SELIC ou os níveis reduzidos da inflação medida pelo IPCA. É óbvio que todos nós preferimos viver em um ambiente marcado por baixas taxas de juros e de crescimento moderado nos preços. Mas o custo social e econômico da opção ortodoxa e neoliberal foi muito elevado e o governo se recusou a tentar outras vias que não fosse mergulhar o Brasil nessa recessão profunda. O resultado pode ser bem avaliado pelo desastre social em que estamos metidos.
Raciocínio semelhante pode ser conduzido para o caso das contas externas. Ao invés desse indesejado valor inédito no saldo positivo da Balança Comercial, o ideal seria que estivéssemos a comemorar um novo recorde na corrente de comércio, onde o crescimento de ambas importações e exportações pudesse refletir um processo de avanço na recuperação da atividade econômica de forma geral. E se conseguíssemos ainda incluir uma pauta de exportações de produtos de maior valor agregado (ao invés da insistência burra e tosca no modelo neocolonial de exportação de “commodities”), aí então poderíamos estar próximos de alguma situação similar ao conceito de desenvolvimento.
* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.





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