Economia Política

Da videolocadora à cantina, Banco do Povo incentiva negócios na periferia de SP

11/10/2003 00:00

O restaurante Sabores da Vitória e a locadora Snake Vídeo são duas promissoras microempresas na Brasilândia, periferia da Zona Norte de São Paulo. Uma fica quase em frente à outra, separadas apenas pela movimentada avenida Cantídio Sampaio.

Dona e cozinheira do restaurante, a mineira Elvira Souza da Silva, 42 anos, está animada. Apesar do clima de vacas magras no país, conseguiu triplicar a venda de refeições nos últimos dez meses. Hoje, serve diariamente de 35 a 40 pratos, por R$ 4 a unidade.

De vez em quando, o paranaense Rogério Alberto Sampaio, 33, dono da Snake Vídeo, almoça no Sabores da Vitória. Ele também está empolgado com seu negócio. Quando comprou a Snake, há um ano, tinha 700 títulos e locava no máximo 15 fitas por dia. Nos últimos dias, tem registrado saída de até 40 vídeos, a R$ 3 cada. Seus clientes ganharam variedade. São mais de 1.200 títulos - entre eles, 30 DVDs.

A história de Elvira e Rogério, e de seus negócios, é bem conhecida no número 3.666 da mesma avenida Cantídio Sampaio. Ali fica uma das 15 unidades do Banco do Povo de São Paulo, de quem os dois microempresários são clientes. O projeto, iniciado em 2001 e também conhecido como São Paulo Confia, é tocado pela prefeitura municipal e pela associação sem fins lucrativos Crédito Popular Solidário. Ganhou boa fama no bairro oferecendo, sem burocracia e avalista, crédito – entre R$ 50 e R$ 1.500 – a juro de 3,9% ao mês. Atualmente, a taxa do cheque especial chega perto de 10% em alguns bancos.

Elvira e Rogério creditam a sobrevivência e a expansão de seus negócios aos empréstimos que conseguiram no banco. Ambos procuraram a agência no início do ano. Elvira se incomodava com o pequeno salão de seu restaurante, ainda funcionando de improviso. “Não tinha capital de giro e só conseguia vender as refeições para quem pagasse antes”, lembra ela.

Foram três empréstimos ao longo do ano. Cada vez que se quita um, pode ser pedido outro. Com o primeiro, de R$ 300, comprou um balcão refrigerado. O segundo, de R$ 500, pagou a porta de aço do restaurante. Com o terceiro, de R$ 200, reforçou o capital de giro. Como todos foram pagos em dia, manteve o crédito no banco e já pensa no futuro. “Quero comprar uma moto; vai ajudar muito na hora de fazer entregas”, diz Elvira, que já dá emprego para uma ajudante de cozinha.

Rogério também conseguiu três empréstimos. Com eles (de R$ 300, R$ 450 e R$ 500), comprou as fitas VHS e os DVDs que enchem suas prateleiras. “Tive problemas com meu banco e perdi meu cheque e meu crédito. Foi um período difícil, mas agora me recuperei. Trato minha empresa como se fosse minha casa, mas sem crédito não tem jeito”, diz ele. Como próximo passo, Rogério, que ocupa o salão superior de um sobrado, quer mudar para um ponto mais à vista do público. “Já achei um bom lugar, mas o dono pediu R$ 700 pelo aluguel. Estou negociando, e se ele abaixar o valor, eu mudo”.

Balanço e desafios
Apesar desses casos de sucesso, programas de microcrédito como o Banco do Povo estão longe da unanimidade. Uma linha de cientistas sociais e economistas considera esses projetos caros demais, com juros ainda altos na ponta do cliente e de pouca eficácia no conjunto da economia.

Um exemplo é a pesada opinião do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre o tema. Na montagem do recém-lançado programa de microcrédito do governo federal, o banco exige que os recursos que venham dele – R$ 550 milhões nos próximos 12 meses – sejam emprestados ao clientes de bancos do povo com juro nunca superior a 2% ao mês – em São Paulo, essa taxa chega a 3,9%.

A exigência causou protestos do coordenador do Banco do Povo de São Paulo, José Caetano Lavorato. Segundo ele, a taxa de 2% não é suficiente para dar auto-sustentabilidade aos projetos do setor. “O juro não pode ser a única referência para avaliar a qualidade de um programa de microcrédito”, protesta ele.

Mesmo com as críticas, ele garante que a Prefeitura de São Paulo vai expandir o Banco do Povo. Segundo Lavorato, a proposta orçamentária de 2004 prevê mais R$ 2 milhões para o projeto. Ele quer mais. Pelo menos outros R$ 8 milhões, que poderiam vir de outras entidades de fomento, como o próprio BNDES.

Entre outubro de 2001, data de sua implementação, e setembro deste ano, o Banco do Povo de São Paulo liberou 10.356 créditos, totalizando R$ 6,8 milhões. Em média, cada cliente recebeu R$ 661. “Parece pouco, mas para esse pessoal pobre com quem trabalhamos, o microcrédito pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso de um negócio”, diz Fernando Figueiredo, agente de crédito da Brasilândia que cuida das contas de Elvira e Rogério.

Apesar do dinheiro curto dos clientes, o Banco do Povo ostenta em suas 15 unidades inadimplência zero em sua principal modalidade de crédito, baseada no aval solidário. Além dela, há o modelo de empréstimo tradicional, com avalista, e o direcionado para novos projetos.

O modelo de aval solidário, baseado numa experiência indiana e difundido em vário países, pede que o candidato forme um grupo com outras três pessoas interessadas em empréstimos. O objetivo é formar uma rede de solidariedade que seria acionada caso alguém do grupo passe dificuldades e não possa pagar sua parte. Assim, cada um é avalista do outro.

Na prática, diz Figueiredo, a rede costuma ser poupada. O que se constata na maioria dos casos é que o dinheiro do microcrédito acaba aquecendo os negócios do devedor, facilitando a devolução do dinheiro. Foi o que aconteceu com Elvira e Rogério.

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