Economia Política

De volta ao FMI: Argentina vai do ajuste gradual ao ajuste brutal

Declaração conjunta de mais de 300 especialistas em Economia Política

11/05/2018 16:32

 

 
 
A decisão do governo argentino de pedir socorro ao FMI teve impacto a nível mundial. O diário El País, de Madrid, afirmou que o Governo “não é capaz de superar a crise do dólar e foi obrigado a pedir assistência ao Fundo Monetário Internacional depois de 15 anos”. Também lembrou que “o pedido de ajuda ao FMI é a história de um fracasso”, em alusão às cíclicas crises da Argentina, e insistiu em que o princípio de acordo “supõe o pagamento de um altíssimo custo político para (o presidente Mauricio) Macri, em um país que acusou o Fundo, durante anos, por estar por trás de ajustes selvagens e grandes crises econômicas”. O periódico El Mundo, também da Espanha, considerou que “como nos tempos mais tormentosos do passado recente, a Argentina volta ao FMI”. O Libération, da França, trouxe a seguinte manchete: “Ameaçada pelos mercados, Argentina pede ajuda ao FMI”. E até O Globo, do Brasil, decretou que “A Argentina vive dias do passado”.

Diante deste cenário, mais de 300 economistas do Coletivo EPPA, formado por especialistas em Economia Política, fizeram a seguinte declaração conjunta sobre a situação da Argentina:
 
Há apenas um mês, nós, do Coletivo EPPA (Economia Política para a Argentina), alertávamos sobre as políticas de miséria planificada impulsadas pelo Governo Nacional e apontávamos que seu plano era “ajustar as condições de vida das maiorias populares”. Também advertimos sobre a crise financeira que se produziria se continuassem vigentes os desequilíbrios macroeconômicos aos quais a Argentina vinha sendo submetida, especialmente as da frente externa.

Hoje, constatamos que esse momento chegou. Depois da corrida cambiária vivida nos últimos dias, o Presidente Macri anunciou a volta do Fundo Monetário Internacional.

A política econômica da (coalizão governista) Cambiemos produziu esta situação. A abertura comercial e financeira externa, o levantamento da obrigatoriedade de liquidar as divisas das exportações e a liberalização da conta de capitais da balança de pagamentos geram uma necessidade de dólares de cerca de 35 bilhões por ano, o que a Argentina não é capaz de gerar. Se trata de um déficit de conta corrente de cerca de 6% do PIB.

Soma-se a essa situação outro problema constante nos últimos anos, que é a inflação incontrolável, que vem sendo estimulada através dos aumentos das tarifas dos serviços públicos a níveis impossíveis de serem pagos pelo cidadão de renda média. E também o déficit fiscal que tem se incrementado nestes mais de dois anos, devido à redução dos impostos aos setores mais concentrados, poderosos e ostentadores da sociedade. Além do endividamento contínuo e da entrada de capitais especulativos atraídos pelas elevadas taxas de juros, os quais fogem do país diante do primeiro sinal de incerteza, e deixam a economia argentina em um grau de fragilidade que será muito difícil de reverter. E ainda falta ver qual será a reação do capital financeiro no próximo dia 15 de maio, quando haverá um vencimento de mais de 600 milhões de pesos das chamadas LEBACS (Letras do Banco Central Argentino) – dependendo das medidas que o governo de Macri tome a respeito, o país poderia se ver diante de uma crise similar à do corralito, em 2001.

Se aproximam dias terríveis para a maioria dos argentinos. A volta do Fundo Monetário Internacional significa que este ajuste, outrora (mal) chamado “gradual” se transformará definitivamente em um ajuste brutal, o que levará a recessão, demissões e maior salários e aposentadorias mais baixos, maiores níveis inflacionários – com aumentos dos itens básicos da cesta básica familiar, menores vendas e mais fechamentos de pequenas e médias empresas e talvez até o retorno das empresas de previdência privada. No fim, mais prejuízos para a produção e o emprego nacional.

Diz o presidente que não há outro caminho. E esta é outra mentira. Nós, do Coletivo EPPA, dissemos que há caminho possível e que tem a ver com incentivar o mercado interno, o consumo e o investimento, com voltar a ter tarifas de serviços a um valor razoável e pagáveis para as maiorias. Tem a ver com desendividar o país e trabalhar para que as finanças nacionais estejam a serviço da produção. Um caminho sem Fundo Monetário Internacional, como fez Néstor Kirchner há 12 anos atrás.



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