Economia Política

Entenda a corrida cambiária que está acelerando a crise argentina

O Banco Central aumenta a taxa de juros e liquida mais reservas no mercado sem conseguir domar o preço do dólar. A praça financeira está sob máxima tensão por causa de um mega vencimento de títulos de dívida do Banco Central, de quase 680 bilhões de pesos, na próxima terça. Ninguém sabe o que acontecerá no dia seguinte

13/05/2018 15:15

 

Por Federico Kucher, para o Página/12

A corrida cambiária continua desenfreada na Argentina. O dólar chegou a ser vendido, no final da última semana, por 24,20 pesos, nas principais casas de câmbio da capital. O Banco Central sacrificou outro 1,1 bilhão de dólares das reservas internacionais para moderar o salto. O dólar no varejo fechou a jornada em 23,79 pesos, com um aumento diária de 2,7% (7 pesos) na semana.

Mas a ansiedade do mercado está enfocada principalmente na próxima terça-feira (15/5). A autoridade monetária enfrenta uma prova de fogo: tem que convencer os investidores com 680 bilhões de pesos em títulos de dívida do Banco Central, de renovar esta dívida e não ir comprar dólares. A tarefa não é fácil, ainda mais com as expectativas de que desvalorização continuará crescendo. O dólar já subiu 27% desde dezembro de 2017, quando custava 18,70 pesos, e 51% desde maio do mesmo ano, quando estava a 15,76 pesos.

O Banco Central até agora se havia mostrado tranquilo cada vez que houve um mega vencimento desses títulos. O titular da entidade, Federico Sturzenegger, passou várias coletivas seguidas assegurando que contava com dólares suficientes nas reservas. Mas agora as coisas já não são assim. As reservas atuais estão em 54,4 bilhões de dólares, com uma queda ontem de quase 2 bilhões. Este ano já caíram em quase 10 bilhões. A entidade difundiu um comunicado para anunciar antecipadamente os prazos de licitação dos títulos desta terça. O fez para acalmar o rumor de uma troca forçada desses por títulos do Tesouro.

O mercado especula há várias semanas com a possibilidade de um novo default argentino, e nesta semana houve uma queda fortíssima dos preços. Os títulos de dívida de curtíssimo prazo, ou seja, os que vencem nesta terça, foram vendidos no mercado secundário com taxas de juros de até 125%. Na medida em que se baixa o preço dos títulos, o rendimento que oferecem aumenta. A volatilidade é notável. A piada que mais se repete nas mesas dos mercados financeiros é a de que o peso argentino está quase tão volátil quanto um bitcoin, e os títulos do Banco Central argentino têm mais risco de não pagamento que os bônus soberanos da Venezuela.

O Central não só teve que intervir na praça cambiária como também participou no mercado secundário dos títulos, para colocar um freio à espiral das taxas. Realizou a recompra de 30 bilhões de pesos desses títulos, os de mais curto prazo – até 5 bilhões de pesos em títulos com vencimento em mês. Os investidores estão arrematando seus títulos. As vendas não são só de investidores particulares. Os fundos comuns de investimento dos bancos e de instituições financeiras, que se prepararam para tentar replicar o rendimento dos títulos começaram a receber o cancelamento da participação de alguns clientes. Esses fundos não terão outra alternativa a não ser vender os ativos para poder devolver a quota partes. O salto das taxas de juros dos títulos repercutiu com tudo no mercado. As empresas financeiras suspenderam os descontos de cheques a partir do meio dia da última sexta-feira (11/3), após cobrar taxas altíssimas pela manhã. Nos bancos privados, o desconto que há até duas semanas se fazia com taxas próximas a 30%, agora já usa taxas de 42%.

A intervenção da autoridade monetária no mercado cambiário foi uma das mais importantes desde 5 de março, quando começou a vender divisas para tentar conter o tipo de câmbio, o que significou se desprender de 1,1 bilhão de dólares. O esforço não foi suficiente para acalmar o câmbio atacadista, que se fixou em 23,26 pesos, ao subir 57 centavos. Depois da moeda venezuelana, o peso argentino é a que mais se desvalorizou este ano na América Latina. A economia local lidera em quase todos os indicadores econômicos negativos: tem a maior inflação a taxa de juros real mais elevada e, depois do Equador e da Venezuela, o maior risco-país. A revista The Economist difundiu um artigo que mostra a preocupação dos investidores globais por esta situação macroeconômica da Argentina.

“Os investidores se assustaram pelo amplo déficit fiscal e de conta corrente, a inflação de 25% e sua crescente quantidade de dívida em moeda estrangeira”, e houve concordância com outros periódicos, como Forbes, Financial Times e The Wall Street Journal, nos artigos publicados durante esta mesma semana. O elevado risco argentino foi registrado também em informes de qualificadoras como Moody’s e de bancos de investimento como o JP Morgan. Este último teve um papel importante na última corrida cambiária. Foi o primeiro dos investidores institucionais em arrematar seus títulos do Banco Central, gerando um efeito dominó no resto dos fundos de investimento, o que pegou de surpresa toda a equipe econômica.

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