Economia Política

O pós globalização e a ascensão chinesa [1]

 

01/12/2021 13:09

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Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 
O mês de setembro de 2021 se iniciou no Brasil com as atenções voltadas às manifestações em prol do presidente Jair Bolsonaro, mobilizando apoiadores para contestar a ação do STF e das outras instituições da República. Na História, essas manifestações de orientação política de direita tiveram paralelo em governos fortemente nacionalistas. Após 20 anos dos atentados às torres gêmeas em Nova Iorque, ganhou força nas interpretações acadêmicas[2] a percepção de um recrudescimento na globalização, dando lugar ao protecionismo econômico e ao enaltecimento do nacionalismo, porém sem que tais movimentos enaltecessem a união e a coesão social, mas sim um obscurantismo[3], por vezes retrógrado.

São países europeus, como Hungria e Polônia, que chamam a atenção pela ascensão de regimes hostis ao arranjo democrático, enquanto criticam a estrutura política e social da União Europeia devido às questões econômicas não sanadas. Na Turquia movimento similar com restrições crescentes marcam importante evidência de insatisfação dos povos, que resultam numa ação política agressiva e restritiva. Especialmente na Rússia, potência internacional que se reorganiza no mundo pós 11 de setembro, o passado soviético e a frequente influência de seu líder Putin na geopolítica estratégica, a ascensão de um pensamento “pós nacionalista”[4] denota, de forma preocupante, uma nova correlação de forças do mundo multipolar que, no contexto de esgotamento da “guerra ao terrorismo” promovida pela aliança da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) , se diferencia fundamentalmente da globalização liderada por essas nações ocidentais e encara desafiantes cada vez mais fortalecidos. O exercício militar russo de 13 de setembro se soma a uma sequência de instabilidades crescentes desde a tensão na Crimeia com a Ucrânia.

Expoente dessa “ordem” que se forma com alicerces nas intrincadas disputas econômicas, a China exerce um protagonismo tanto no que se refere ao seu papel como polo produtivo e consumidor, tendo apresentado crescimento de 1,3% do PIB no 2º trimestre, como também na condução diplomática de negociações no cenário externo. A guerra comercial com os EUA, de seguidas tensões na era Trump, ganha novo capítulo após a chegada de Biden e de sua conduta à frente dos americanos para tirá-los da pandemia. As trocas de farpas sobre as origens da praga encobrem a necessidade de demonstrar força face à influência chinesa em todo o mundo. O capitalismo chinês, regido pelo Partido Comunista, “libera” suas empresas para explorar oportunidades em todos os níveis econômicos na América Latina, na África e Ásia em nome do projeto de desenvolvimento continental que cresce às maiores taxas mundiais, já se recuperando após os “lockdowns” rígidos e tão contestados, mas que nem mesmo os americanos e europeus evitaram. Enquanto a Europa enfrenta as consequências do recrudescimento nacionalista de direita sobre o comportamento de seus cidadãos contra as vacinas, o ambicioso Plano de Biden é uma proposta de recuperação econômica heterodoxa cujo paralelo é o “New Deal” de Roosevelt. Os EUA obtiveram crescimento de 1,6% do PIB no 2º trimestre, mas agora têm o objetivo claro de manter e reordenar seu protagonismo frente à avassaladora atividade chinesa.

É tão perene essa presença da China no mundo que ela se manifesta em elementos dos mais diversos. A retirada de tropas dos EUA do Afeganistão após o 31 de agosto, que por sua vez tomara forma na esteira da ocupação contra o terrorismo, não só abriu um vácuo de poder na região, resultando no retorno da milicia Talibã ao poder, como ensejou à própria China exercer sua diplomacia visando ao avanço em rotas de exploração mineral. A China mantém sua atividade interna consumindo “commodities” de praticamente todas as nações do globo, no caso do Brasil, mormente minério de ferro e soja, vendendo em contrapartida mercadorias de toda sorte. Dentre seus instrumentos de política econômica já se sabe que será a moeda digital emitida pelo banco central Chinês, inovação tecnológica que promete desafiar ainda mais o assim chamado Ocidente. A desvalorização cambial e a imposição de restrições ao comércio com os EUA na era Trump causaram bastante aflição no mercado financeiro entre 2019 e 2019, e aguardam-se os impactos da estratégia das empresas que promovem a tecnologia 5G de internet, principalmente no mundo emergente.

Nesse mundo, a influência do negacionismo e de ondas políticas autoritárias ficou marcada em El Salvador, Bolívia e Haiti. O primeiro adotou inclusive a criptomoeda para transações oficiais, num movimento unilateral sem comparações até agora e que resta sob observação. A segunda presenciou ações policialescas contra o líder popular Evo Morález, que teve sucesso em eleger seu sucessor Arce. E no terceiro, tragédias relativas a um novo terremoto se somam ao assassinato do presidente Moise, cujas entranhas ainda são explicadas. Na vizinha Cuba, protestos contra o governo ressaltaram não apenas a insatisfação de parcela da população, como também chamaram a atenção pelo estilo de vida singular da ilha que desafia o capitalismo, como também pela inovação monetária que entremeou a celeuma porque decorrente de uma proposta alternativa face as restrições da pandemia. Dentre os países populosos, o México enfrenta novo episódio do terror da criminalidade enquanto seu líder López-Obrador conduz um governo de pauta errática, com aspectos ora negacionistas frente à pandemia, ora surpreendentes como a legalização do aborto. Mas restam desafios centrais conhecidos e nevrálgicos, sabidamente a dependência de suas maquilas e o fluxo migratório que resulta em violência em níveis alarmantes. No Peru, a eleição de Castillo numa disputa ferrenha contra a direita fujimorista fez emergir o “conservadorismo de esquerda” que ainda busca estabelecer os termos de sua governabilidade, enquanto na Venezuela um aceno da direita a Maduro surge como possível acordo para enfrentar a crise econômica brutal. Todos têm em comum o espectro chinês a rondar as perspectivas de recuperação, pois é o maior mercado consumidor.

O Mercosul, cujo acordo comercial com a União Europeia se vê num impasse, presencia ações descoordenadas entre seus membros devido às divergências políticas. O liberalismo de Paulo Guedes no Brasil facilitou a importação, pelo Brasil, de veículos produzidos pelos seus vizinhos, enquanto que advoga flexibilização de tarifas do bloco. Enfrenta resistência da Argentina, cujo governo de Fernández, aliado a Cristina Kirchner, se recusa a ceder e percebe no Uruguai um movimento unilateral em direção à China. Dentre os países do bloco, a proposta da união monetária, lançada de forma dúbia por Guedes, não é aceita e arrefeceram-se quaisquer tentativas de cooperação mais sólidas, o que reforça a lógica nacionalista e protecionista, agora sob a égide de uma “dominação comercial” chinesa que reorienta as estratégias, a despeito dos esforços brasileiros de alinhamento aos americanos terem pautado, até a saída de Trump, a diplomacia do bloco.

Conclui-se que o poderio econômico da China, ainda mais populosa que a vizinha Índia, credencia-a como eixo central de um mundo que se volta ao nacionalismo e que assiste aos EUA resistirem a tal “nova ordem”. O simbolismo da Carta Atlântica, em junho, junto a aliados como o Reino Unido, recém festejado como exemplo no combate à pandemia (4,8% de crescimento do PIB no 2º trimestre, em que pese o fator da existência de seu sistema de saúde público NHS), não garantem essa frente ao avanço chinês, cuja importância se manifesta na dinâmica local na Ásia, na entrada capilarizada nas terras africanas e na postura altiva das potências Índia e Rússia, de maneira a cristalizar um limite ao sabido poderio da OTAN, dando sinais de estar pronta para essa competição[5]. As cadeias globais foram prejudicadas pelas restrições impostas pela pandemia, de maneira que choques, a princípio restritos a alguns mercados, repercutem mundialmente. Por exemplo, a subida do preço do barril de petróleo em março de 2020 e sua posterior queda abrupta, assim como a escassez de chips produzidos em Taiwan decorrente da seca local e que impactou a oferta de semicondutores ao final de 2020. O realinhamento em torno de uma pauta ambiental é uma resposta importante a essa matriz produtiva, proposta que se fortaleceu sob Biden, mas que enfrenta os setores produtivos tradicionais, ainda resistentes a mudanças que impactam sua lucratividade

Países da Ásia, onde estão concentradas as principais indústrias do setor [de chips e semicondutores], sofreram com longos períodos de seca (que chegaram a paralisar as produções em Taiwan) [em 2020]"

Alexandre Favaro Lucchesi é Doutor em Ciências Econômicas pela Unicamp e professor na Escola de Negócios das Faculdades Metropolitanas Unidas, integra o Núcleo de Economia Política
 
[1] Opinião a partir dos fatos e ideias que tomaram forma até setembro de 2021.
[2] LEVITSKY, S.; ZIBLATT, D. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
[3] DUGIN, A. A Quarta Teoria Política. Curitiba: Editora Austral, 2012
[4] TEITELBAUM, B.R. Guerra Pela Eternidade: o Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista. Editora da Unicamp; 1ª ed. 2020.
[5] FIORI, J.L. Sete potências e um destino: conviver com o sucesso da civilização chinesa. Sul 21, Opinião, 23 de junho de 2021. Acesso em 13 de setembro de 2021



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