O jornalismo de esquerda precisa de você. Venha ser parceiro Carta Maior. Doe agora!
Seja Parceiro Carta Maior

Os melhores livros de economia marxista de 2017

O ano que celebrou o aniversário de número 150 da publicação do Volume I de O Capital de Karl Marx inspirou também alguns livros importantes sobre ele, os quais todos deveriam ler.

08/01/2018 13:08

 

Por Michael Roberts

Em 2016 foram publicado alguns livros fundamentais e importantes de economia marxista, incluindo a obra prima de Anwar Shaikh Capitalism: Competition, Conflict, Crises (“Capitalismo: Competição, Conflitos e Crises”) – que vou lendo pouco a pouco de forma regular –; o ensaio de Fred Moseley Money and Totality (“Dinheiro e Totalidade”) – uma imponente defesa da teoria do valor de Marx; o de Francois Chesnais Finance Capital Today (“O Capital Financeiro na Atualidade”) – que descreve as tendências das finanças modernas; assim como as importantes contribuições de Tony Norfield e John Smith em Imperialism in the Twenty-First Century (“O Imperialismo no Século XXI”).

É difícil competir com eles em 2017. Entretanto, este ano que celebrou o aniversário de número 150 da publicação do Volume I de O Capital de Karl Marx inspirou também alguns livros importantes sobre ele, os quais todos deveriam ler.

Na minha opinião, a obra A Reader's Guide to Marx's Capital (“Um Guia de Leitura Para O Capital de Marx”), de Joseph Choonara, é a mais clara e concisa de todos os “guias” e conferências em vídeo disponíveis, ou que foram publicadas neste ano. Choonara leva o leitor através de cada capítulo do Volume I com análises explicativas e comentários relevantes. Ele afirma que seu livro “está desenhado para ser lido em paralelo com O Capital, e pode-se consultar cada capítulo do livro antes ou depois de digerir as seções pertinentes da obra de Marx”. O objetivo é “se concentrar naquelas áreas que são as mais importantes para a compreensão geral da obra de Marx e as que mais confundem, a partir de minha própria experiência de ensino de O Capital para estudantes e trabalhadores de esquerda na última década”. Porque, na opinião de Choonara, Marx tentou em O Capital analisar o capitalismo do ponto de vista dos trabalhadores e está dirigido a um público de classe trabalhadora. Ele evidentemente está certo no primeiro ponto, mas é duvidoso que o livro consiga alcançar esse segundo objetivo de chegar aos leitores da classe trabalhadora. O guia de Choonara pode ajudar a isso.

Tive melhores impressões da obra de Choonara que do livro de William Clare Roberts, Marx`s Inferno: The Political Theory of Capital (“O Inferno de Marx: A Teoria Política d´O Capital”), vencedor do prêmio Memorial Isaac Deutscher deste ano. Partindo do tema do inferno de Dante para chegar em Marx, ele descreve as iniquidades do capitalismo. Roberts nos apresenta uma “teoria política do capital”. Não estou certo da utilidade deste enfoque. Como diz David Harvey em sua resenha do livro, “Minha objeção mais grave é que Roberts trata o Volume 1 de O Capital como um texto independente e tenta interpretá-lo ignorando sua relação com outras obras de Marx”. E o tema do inferno tem pouco a dizer acerca da teoria econômica de Marx, exceto para aceitar a interpretação da teoria do valor de Marx, de Michael Heinrich (incorreta, desde meu ponto de vista).

Se o leitor quer algo de teoria econômica marxista, tenho que recomendar a edição de Rick Kuhn dos ensaios de Henryk Grossman sobre a dinâmica econômica, a teoria das crises de Sismondi e sobre as diversas tendências da teoria económica burguesa. Nos ajuda a compreender o alcance da penetrante análise do capitalismo de Marx em comparação com as principais correntes burguesas e os socialistas utópicos. A análise de Marx destrói a ideia de que tudo pode ser explicado pelo intercâmbio e os mercados. Deve-se aprofundar o tema até abaixo da superfície para se chegar ao processo de produção, em particular a produção de valor (valor de uso e valor de troca). Como Grossman diz: “Marx insiste na importância decisiva do processo de produção, considerado não só um processo de valorização como ao mesmo tempo um processo de trabalho. Quando o processo de produção é considerado como mero processo de valorização, como na teoria clássica, tem todas as características do acúmulo, se perde na abstração e já não é capaz de captar o processo econômico real”.

Apesar do poder da análise de Marx, ainda são as ideias de Keynes as que dominam o pensamento dos economistas heterodoxos em sua oposição à corrente ortodoxa. E isso não é casual. Num excelente libro, Geoff Mann, da Universidade Simon Fraser, apresenta uma explicação sofisticada do predomínio de Keynes no movimento operário e na esquerda. Em seu livro In The Long Run We´re All Dead (“A Longo Prazo Todos Estaremos Mortos”), ele sustenta que a hegemonia de Keynes se deve porque oferece uma terceira via entre a revolução socialista e a barbárie, ou seja, o fim da civilização como a conhecemos (na verdade esse “nós” seria a burguesia, como Keynes). Esse pensamento atraiu (e ainda atrai) os líderes do movimento operário e os “progressistas” que desejam uma mudança. A revolução é arriscada e podemos acabar afundando com ela. Mann afirma: “a esquerda quer democracia sem populismo, quer política de mudanças sem os riscos de mudar; quer revolução sem revolucionários”.

Mann sustenta que a teoria econômica keynesiana é predominante na esquerda, apesar de suas falácias e fracassos, porque expressa o temor de muitos dirigentes do movimento operário e das massas a respeito da revolução. Como exemplo, basta ler o último livro do economista keynesiano James Kwak, que cita a Keynes: “em geral, creio que o capitalismo, gerido com prudência, provavelmente pode ser mais eficiente para a consecução dos fins econômicos que qualquer sistema alternativo conhecido, mas isso mesmo é, em muitos aspectos, bastante objetável. Nossa tarefa é desenhar uma organização social que seja o mais eficiente possível, sem ofender nossas noções de uma vida satisfatória”. Kwak conclui que “esse ainda é o grande desafio da atualidade”.

Para ser justos, não é fácil optar por uma política econômica que ameaça a ordem estabelecida. Os meios de comunicação e as instituições burguesas o transformariam em um inferno. No livro autobiográfico do ano, do economista Yanis Varoufakis, ex-ministro da Fazenda grego durante a crise do euro de 2015, ele descreve os tortuosos e labirínticos debates e reuniões que teve no Eurogrupo em sua tentativa de lutar contra o inferno que a troika – formada por Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE) e a União Europeia (EU) – queria impor à Grécia. A análise da crise feita por Varoufakis e sua justificativa sobre o acontecido – a capitulação do governo do Syriza e sua renúncia ao poder) têm todas as características do seu “marxismo errático”, como ele mesmo se classifica. Perdeu aquela batalha, mas a guerra continua.

Este 2017 foi também o primeiro ano do reinado de Donald Trump sobre o capital estadunidense. Um de seus objetivos principais era desregular o setor financeiro e livras as empresas das limitações impostas pelo Congresso (até certo ponto) depois da crise financeira global. Desregulação em casa, mas protecionismo para os estrangeiros. O livro de Brett Christophers, The Great Leveler (“O Grande Nivelador”), analisa essa tensão dinâmica entre a liberação do capital da regulação e o afã de, por outro lado, assegurar que ele não afunde a casa. Christopher argumenta que nesta dinâmica, se está menosprezando o papel do direito e das normativas legais na tentativa de preservar um “delicado equilíbrio entre a concorrência e o monopólio”, que é necessário para “regular os ritmos de acumulação capitalista”. O tema que aponta Christophers é o papel da lei na hora de limitar as anárquicas oscilações entre o monopólio e uma concorrência mortífera em diferentes períodos do capitalismo. Se trata de uma nova visão.

Mas o 150° aniversário de O Capital não podia passar sem um novo livro de David Harvey, o marxista mais influente da atualidade. Em seu Marx and Capital and the Madness of Economic Reason (“Marx e O Capital e A Loucura da Razão Econômica”), Harvey expõe sua última interpretação do esquema de Marx em O Capital. É um livro bem escrito e fácil de ler, e não é grande demais. Há muitas aulas de Harvey em vídeo sobre os principais argumentos do livro. Ele apresentou sua última tese no seminário Capital 150, que ajudei a organizar junto com o Kings College, em novembro.

Harvey argumenta que o Volume I de O Capital só se ocupa da parte da produção do circuito (a produção de valor e mais valia). O Volume II aborda a realização e a circulação de capitais entre os setores em sua reprodução, enquanto o Volume III se refere à distribuição desse valor. E enquanto Marx faz uma grande análise da parte da produção, seus volumes posteriores no estão completos e foram editados em seu conjunto por Engels. Portanto, de acordo com Harvey, a análise de Marx não chega a explicar a evolução do capitalismo moderno. No Século XXI, as crises no capitalismo são provavelmente causadas também – e talvez até mais – por um colapso na circulação ou na realização da mais valia que por problemas em sua produção. Assim, as crises são mais propensas agora nas finanças e por dívidas, como fenômeno gerado pela “financeirização”.

Quem segue meus artigos sabe que não concordo com essa visão de O Capital. Defendo que a produção de mais valia e a acumulação de capital continuam sendo fundamentais na explicação de Marx do capitalismo e suas contradições, que conduzem a crises recorrentes. Como escreveu Marx: “o benefício da classe capitalista tem que existir antes de poder ser distribuído”. A produção de valor não é, como sustenta Harvey, “uma pequena parte do valor em movimento”, e sim a principal, tanto conceitual como quantitativamente, já que em qualquer economia capitalista 80% da produção bruta se compõe de meios de produção e produtos intermédios em comparação com o consumo. Em minha opinião, a luta de classes no ambiente de trabalho ainda é o centro do capitalismo, porque se trata da luta pela divisão do valor entre a mais valia e a parte do trabalho, tal como Marx demonstrou no Volume I.

Michael Roberts é um prestigioso economista marxista britânico





Créditos da foto:  

PARCERIAS