Educação

Retomar o aprendizado: o principal desafio educacional pós-pandemia

''Levaremos muitos anos para formar uma noção mais exata das consequências da pandemia no ensino público brasileiro. Como os estragos causados pela pandemia exigem respostas urgentes, precisam-se de avaliações mesmo provisórias dos impactos na educação, em especial na Educação Básica'', afirma o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

22/12/2021 14:12

(MCTIC)

Créditos da foto: (MCTIC)

 
Se, de um lado, o ensino remoto "não foi o problema, mas a solução possível para evitar a paralisação completa dos processos de aprendizagem" durante a pandemia de Covid-19, conforme sublinha Fernando Becker, de outro, os dados sobre perda de aprendizagem e evasão escolar preocupam. Segundo o relatório "Estado da Crise Global de Educação: Um Caminho para a Recuperação", publicado pelo Banco Mundial, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância - Unicef, as projeções estimam que 24 milhões de estudantes não retornarão aos estudos depois da pandemia.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU, Becker ressalta outro aspecto relevante do relatório: a diminuição da aprendizagem. "De acordo com avaliação do Sistema de Avaliação da Educação Básica - Saeb, os alunos do estado de São Paulo teriam aprendido apenas 28% do que teriam aprendido em aulas presenciais, acrescido do risco de abandono da escola que teria triplicado nesse período", pontua. Segundo ele, dados da Fundação Getúlio Vargas também apontam para "uma perda no aprendizado de 34% no Ensino Fundamental e 33% no Ensino Médio. Mas, considerando o pior cenário – não aproveitamento do ensino remoto –, a estimativa de perda de aprendizado na Educação Básica chegaria a 72%".

Nesse sentido, argumenta, o principal desafio na área após a pandemia "é a retomada do processo educacional, dos processos de aprendizagem, na modalidade presencial; não no mesmo nível, mas com significativa intensificação, considerando as significativas perdas". E acrescenta: "Trata-se, pois, de intensificar todos os processos escolares e melhorar a infraestrutura que sustenta esses processos, porque se trata de recuperar minimamente o tempo perdido. Lembrando sempre: processos de aprendizagem não se interrompem gratuitamente; paga-se caro por essas interrupções".


(Arquivo pessoal)


Fernando Becker é graduado em Filosofia pela Faculdades Anchieta, mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo - USP. É professor titular da UFRGS.

Confira a entrevista.

Já é possível fazer um balanço das consequências da pandemia no ensino público brasileiro, especialmente no ensino fundamental e médio?

Entendo que todos os balanços atuais, embora mais do que necessários, trazem sempre um aspecto de provisoriedade. A pandemia da Covid-19 não atingiu uma sociedade ou uma nação, mas o mundo todo. A avaliação de seus impactos precisa ser feita por todos os países. No Brasil, por cada estado, cada município; essas avaliações devem ser sintetizadas numa avaliação nacional. Por isso levaremos muitos anos para formar uma noção mais exata desse fenômeno e de suas perversas consequências. Como os estragos causados pela pandemia exigem respostas urgentes, precisa-se de avaliações mesmo provisórias dos impactos na educação, em especial na Educação Básica. O pior nisso tudo é a ausência de avaliações ou, ainda, a lerdeza para realizá-las. Não há tempo a perder.

De que modo a pandemia e o ensino remoto tornaram o ensino brasileiro ainda mais precário?

O ensino brasileiro funcionou sempre na forma presencial; as exceções são estatisticamente desprezíveis. Por isso levamos tanto tempo para tomar consciência de que havia uma saída, alternativa ao ensino presencial, da qual a humanidade não dispunha em outras épocas; inclusive em épocas recentes, no que se refere a seu alcance: a internet.

Outro motivo da demora em lançar mão desse recurso foi a consciência de que os professores não estavam preparados para utilizá-la, e fazê-lo com competência, e do grande número de alunos que não dispunham de acesso, por tablets ou celulares; acrescente-se a isso a precariedade, ou inexistência, de sinais para acessar as redes. Penso que motivos secundários, mas não menos importantes, devem ser anexados aqui: a politização partidária das relações acadêmicas, especialmente nas universidades públicas; o vazio de poder do Ministério da Educação - MEC referente a medidas urgentes para enfrentar a paralisação das instituições educacionais; o negacionismo com relação à ciência, à eficácia das vacinas; a tradicional desvalorização da educação pela classe política. Por isso, penso que o ensino remoto não foi o problema, mas a solução possível para evitar a paralisação completa dos processos de aprendizagem sob responsabilidade das instituições educacionais. O que faltou foi uma coordenação nacional, mobilizando estados e municípios, para viabilizar o ensino remoto com mais competência e destinar recursos às escolas para prover o acesso à internet a alunos carentes.

O que mais lhe chama atenção no relatório "Estado da Crise Global de Educação: Um Caminho para a Recuperação", publicado pelo Banco Mundial, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância - Unicef?

Os dados desse relatório são todos impactantes. Impressionam na medida em que mostram a extensão dos danos educacionais desse desastre de dimensão planetária que está sendo a pandemia.

• Para começar, a estimativa de que a Covid-19, 2020/2021, pode impactar o futuro de crianças e jovens que deixariam de ganhar, ao longo da vida, US$ 17 trilhões.

• Em segundo, o estudo estima que 24 milhões de alunos da educação básica podem não retornar às aulas depois da pandemia.

• Em terceiro, de acordo com avaliação do Sistema de Avaliação da Educação Básica - Saeb, os alunos do estado de São Paulo teriam aprendido apenas 28% do que teriam aprendido em aulas presenciais, acrescido do risco de abandono da escola que teria triplicado nesse período.

• Em quarto, entre os grupos mais prejudicados pela pandemia, dentre 1,6 bilhão de crianças e jovens de 188 países estão cidadãos de nações pobres e de áreas rurais, alunas do sexo feminino e pessoas com deficiência – o que de certa forma já se sabia, mas não na extensão que o relatório apresenta: 1,3 bilhão de crianças em idade escolar não têm acesso à internet em casa.

• Em quinto, as pertinentes soluções sugeridas pelo relatório para diminuir os prejuízos na aprendizagem, que tratarei na resposta à pergunta seguinte.

Um dos pontos apresentados pelo relatório é que a interrupção das aulas e a falta de políticas para garantir a qualidade no ensino remoto tiveram, entre as consequências, perdas de aprendizagem e evasão escolar. A expectativa é de que 24 milhões de estudantes não retomem os estudos depois da pandemia. Quais são as vias possíveis para enfrentar essa situação?

Há algum tempo, a Fundação Getúlio Vargas - FGV já estimara, considerando um cenário intermediário, uma perda no aprendizado de 34% no Ensino Fundamental e 33% no Ensino Médio. Mas, considerando o pior cenário – não aproveitamento do ensino remoto –, a estimativa de perda de aprendizado na Educação Básica chegaria a 72%. Esses dados gritam por soluções urgentes. O relatório do Banco Mundial, Unesco e Unicef, acima referido, aponta para as seguintes soluções para diminuir os prejuízos causados à aprendizagem: a reabertura das escolas, que consideram prioridade absoluta no mundo; os currículos devem ser reelaborados com novas prioridades; é preciso criar programas de recuperação de aprendizagem, destinados a pequenos grupos de crianças a cada vez; deve-se proceder à adaptação de conteúdos, considerando os prejuízos sofridos pelo processo de aprendizagem; destinar investimentos à educação (neste 17/12/2021, deputados e senadores derrubaram o veto do Presidente da República à destinação de verba ao Fundo Eleitoral; o presidente nada fez para impedir e seu partido foi o mais ativo para que isso acontecesse; assim, os brasileiros pagarão 5,7 bilhões para a campanha eleitoral de 2022, dinheiro que falta à educação – uma imoralidade com foro de legalidade); oferecer suporte emocional à comunidade escolar; promover aproximação entre escola e família dos alunos.

Todas essas providências miram a retomada dos processos de aprendizagem não apenas como um retorno à normalidade (ao que era antes da pandemia), mas um retorno com significativas melhorias e um significativo adicional com relação à normalidade. Trata-se, pois, de intensificar todos os processos escolares e melhorar a infraestrutura que sustenta esses processos, porque se trata de recuperar minimamente o tempo perdido. Lembrando sempre: processos de aprendizagem não se interrompem gratuitamente; paga-se caro por essas interrupções.

Quais são as consequências desse cenário para o futuro, tanto dos jovens quanto do país?

O Brasil paga caro, caríssimo, pelo descuido da educação; já se repetiu tantas vezes a frase de Darcy Ribeiro: “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. Isso já vinha acontecendo antes da pandemia e recrudesceu com ela. Na pandemia escancarou-se esse descuido por infelizes aventuras no gerenciamento supremo da educação, pautado pela ideologização do poder, pelo negacionismo científico, pelo retardo criminoso do processo de vacinação; tudo isso perpassado pela confusão inaceitável entre educação e ideologização política e religiosa.

Que respeitabilidade, no panorama internacional, pode exigir um país que convive tranquilamente com 11 milhões de analfabetos (IBGE, novembro de 2020)? Com 14% de alunos que não concluem o Ensino Fundamental até os 16 anos? Com 10 milhões de pessoas de 14 a 29 anos que não completaram alguma das etapas da Educação Básica (PNAD)? E com uma Educação Básica precária? Com desvalorização da docência? O mundo já nos deu sobejas lições de qual deve ser o lugar da educação no panorama nacional. Mas o Brasil continua não aprendendo e, volta e meia, como atualmente, prefere andar na contramão da educação, da ciência e das experiências de outros países que souberam priorizá-las.

Quais são, de um lado, os principais desafios na área educacional no país pós-pandemia?

O principal desafio é a retomada do processo educacional, dos processos de aprendizagem, na modalidade presencial; não no mesmo nível, mas com significativa intensificação, considerando as significativas perdas. Para isso, é preciso qualificar o ensino remoto e utilizar as várias modalidades de Educação a Distância (EAD), além do ensino presencial. Ensino remoto e EAD poderão constituir um trunfo a favor dessa intensificação, sobretudo para o Ensino Médio e a Universidade, já que a experiência do ensino remoto com o Ensino Fundamental, sobretudo para os primeiros anos, não foi muito positiva. Em ambas as modalidades de ensino, desafiar os alunos a buscarem, dentre as numerosas possibilidades oferecidas pela internet, as que contribuem para potencializar seus processos de aprendizagem. Por ali eles poderão, aos poucos, formar uma cultura de protagonismo do processo de aprendizagem que, entre outras coisas, permitirá superar a ideia de que o professor é a única fonte de conhecimento da matéria que leciona.

Desafio ainda maior é o de intensificar os processos de aprendizagem para os mais prejudicados pela pandemia: cidadãos de nações pobres e de áreas rurais, alunas do sexo feminino e pessoas com deficiência, além daquelas que sofreram com o aumento da violência doméstica, do empobrecimento da família e de problemas emocionais (como lembra o Relatório do Banco Mundial, Unesco e Unicef). Um terceiro desafio – insistir nele, neste momento histórico, parece quase um preciosismo – é trabalhar na direção do que propõem pedagogias ativas que não se legitimam como pedagogias centradas no professor (que escanteiam o aluno), ou como pedagogias centradas no aluno (que escanteiam o professor), mas como pedagogias centradas na relação professor-aluno na medida em que compreendem que as funções de ambos devem comparecer integralmente no processo pedagógico.

Quais são, neste contexto, os principais desafios em relação ao ensino-aprendizagem tanto no período pós-pandemia quanto em possíveis momentos de retorno ao ensino remoto?

Há uma variável que é, frequentemente, menosprezada quando se trata de aprendizagem: o tempo. Processos de aprendizagem envolvendo conteúdos complexos, como são os conteúdos escolares para os educandos, devem ser contínuos. A aprendizagem da leitura e escrita pela criança demanda muito tempo; quanto mais interrupções sofrerem esses processos, tanto mais demorados e ineficazes serão. Para a introdução do pensamento da criança nas operações aritméticas, vale a mesma coisa. Para a compreensão do pensamento algébrico, por crianças maiores e adolescentes, vale o mesmo. O mesmo para a leitura de mapas. Ainda o mesmo para as diferentes disciplinas de cálculo, para alunos de física e engenharias na universidade. Etc. etc. Por que isso? Porque não se trata apenas de transmissão de conhecimentos prontos, pelo professor, e de repetição, frequentemente sem compreensão, pelo aluno, dos conteúdos ensinados, mas dos processos cerebrais que precisam se complexificar para possibilitar a assimilação de conteúdos mais complexos. Sem essas transformações cerebrais, que Piaget (1896-1980) chama de estruturas – verdadeiras construções que implicam assimilações de conteúdos progressivamente complexos –, não há qualquer possibilidade de se aprender conteúdos mais complexos; estruturas cognitivas se constroem, não se ensinam; são elas que possibilitam aprendizagens mais complexas. A aprendizagem da leitura e da escrita pressupõe grandes mudanças estruturais; a aprendizagem da aritmética e, depois, da álgebra, também. Quando a criança ingressa pela primeira vez na escola, ela já construiu complexos sistemas estruturais cognitivos pela sua ação espontânea e sempre na dependência do que o meio põe à sua disposição, sem os quais o impacto do ensino sobre seu processo de aprendizagem se aproximaria de zero.

Os grandes estágios do desenvolvimento, descritos e explicados por Piaget, consistem em grandes mudanças estruturais que se manifestam no comportamento dos indivíduos e em suas capacidades de assimilar conhecimentos que antes não conseguiam por mais que tentassem. Essas transformações acontecem por força da ação do sujeito que constrói estruturas cognitivas; não pelo ensino, por mais importante que ele seja. Aliás, o ensino só logra êxito, ao tratar de conteúdos mais complexos, se promover ações pelas quais os alunos construam estruturas mais complexas. Por isso dizemos que a aprendizagem deve estar no centro das preocupações da escola, não o ensino; pois o ensino só tem sentido se lograr aprendizagem. Fora disso, não apenas deixa de ser útil, mas pode ser até prejudicial. Aprendizagens mais complexas dependem da construção de estruturas mais complexas que o sujeito constrói pelas próprias ações, e pela apropriação dessas ações mediante processos de tomada de consciência (Piaget, 1974) e conscientização (Freire, 1921-1997).

Como o tema da educação poderia ser rediscutido nas próximas eleições? Qual sua expectativa acerca do tratamento dessa temática no próximo ano eleitoral?

Falando em políticos e partidos políticos me vem à tona imediatamente a ironia - e até o sarcasmo. Um calouro universitário expressou muito bem essa sensação (cito-o livremente, acrescentando detalhes para tornar seu pensamento claro): “Quando alguém vai se inscrever num partido político, já deveria ser preso, porque está mostrando sua intenção de se apropriar do bem público”. Fazendo um esforço para superar essa descrença e mirar a utopia educacional (no sentido de Paulo Freire), espero que apareçam candidatos que sejam capazes de apresentar um plano para o país que contemple a educação (ao lado da saúde e segurança) como prioridade nacional – isso até hoje só apareceu em discursos, não sustentados por projetos e muito menos praticados.

Refiro-me a um programa de governo que inclua um projeto educacional capaz de mobilizar o eleitorado e a nação na direção de processos educacionais que visem a melhor formação intelectual, aliada a um agudo senso ético; projeto que, implementado, possa produzir transformações históricas e, paulatinamente, construir uma cultura que compreenda o poder político como serviço público e não como oportunidade de autopromoção, auto enriquecimento, seu ou do seu clã. Projeto que mobilize a docência de todos os níveis de ensino a priorizar processos pedagógicos que instrumentalizem os alunos/educandos para tornar-se protagonistas de seus processos de aprendizagem e de desenvolvimento cognitivo, condição pedagógica necessária para lograr avançada formação crítica. Formação cidadã que compreenda que a verdadeira felicidade só é possível com a felicidade alheia, a felicidade do outro – como lembra a música: “É impossível ser feliz sozinho...”. Formação para a autonomia que compreenda que não somos apenas indivíduos, somos ao mesmo tempo indivíduos e coletividade e que nossa realização implica a assimilação das alteridades ou diversidades (gênero, raça, cultura, língua etc.).

Deseja acrescentar algo?

Apenas lembro a afirmação oportuna de Jaime Saavedra, diretor global para a educação do Banco Mundial, no relatório já citado: “A perda no aprendizado que muitas crianças estão vivendo é moralmente inaceitável".

*Publicado originalmente em 'IHU - On-line'



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