Arte/Humor

Diário do Bolso, 9 de janeiro de 2019

 

09/01/2019 15:07

 

 
Diário, hoje eu sonhei um sonho. Um sonho bem estranho. Esquisitão mesmo! E como eu sei que as pessoas escrevem seus sonhos nos diários, vou escrever o meu aqui.

A primeira coisa que eu lembro é que eu estava voando que nem nos meus sonhos de adolescente. Mas desta vez foi diferente. Em vez de ser o Super-Homem, eu tinha uma enorme capa preta. Ops! Não, não era bem uma capa. Era mais um manto bem comprido e esfarrapado. E eu segurava alguma coisa na mão. Tipo uma varinha mágica gigante.

Eu voava bem alto. A minha sombra era enorme, cobria tudo. E ela tinha uma espécie de superpoder: por onde a sombra passava, as coisas mudavam.

Por exemplo, eu passei em cima de uma floresta e ela virou uma plantação de soja.

Depois eu passei em cima de uma aldeia de índios, e todos eles secaram e viraram esqueletos. Uns esqueletos cheios de penas. Coisa bonita!

Aí voei por cima de uns quilombolas bem gordos. O afrodescendente mais leve pesava sete arrobas. Então minha sombra passou em cima deles e eles deixaram de ser pretos. Foram clareando até ficarem cinza. Só depois eu notei que o cinza era porque eles tinham se transformado em cinzas mesmo. É que bateu um vento e eles começaram a se desfazer como se fossem estátuas de areia.

E teve uma coisa que foi um pouco diferente. Eu vi um arco-íris e pensei: vou atravessar essa coisa. Passei bem pelo meio dele. Depois eu olhei para trás e o arco-íris tinha ficado negro. Demais!

Outro negócio louco é que tinha umas pessoas dançando e cantando. Olhando lá de cima, eles formavam um “S”. Um “S” gigante. Mas aí minha sombra transformou o “S” numa cobra. E a cobra comeu todo mundo.

Teve também uma turma com faixas e bandeiras. Era uma turma de jovens. Quando a minha sombra mágica passou por eles, todos viraram estátuas. Mas não eram estátuas de bronze, nem de ferro. Eram daquelas marrons, que nem os nordestinos fazem.

Na sequência eu vi uma fila de velhos e velhas. Todos de bengala. Tipo fila de INPS (ainda se fala INPS?). Bom, quando a minha sombra passou em cima deles, todas as bengalas pegaram fogo. E depois, eles também. Ficou um monte de fogueirinhas. Um negócio lindo de se ver.

Aí veio a parte que eu mais gostei. Eu voei por cima do Rio de Janeiro e, quando a minha sombra passou pelo Redentor, o Cristo fez revolvinho com as duas mãos e riu para mim. Legal!

Ah, lembrando agora deu pra ver que o que eu tinha na mão não era uma varinha mágica. Era uma foice. Será que eu era um comunista? Deve ser isso. Eu era um comunista e por isso tudo morria.

Bom, diário, vou para por aqui porque contar sonho é coisa de boiola.

Na verdade, nem sei direito se foi pesadelo ou sonho. Mas eu gostei.

@DiariodoBolso

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