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A estreia das Cartas de Santiago

   

30/11/2017 18:16

 
Escrevo a primeira Carta de Santiago depois de passada uma semana da votação do primeiro turno das eleições presidenciais chilenas de 2018. Espero que as cartas encontrem leitoras e leitores que queiram conhecer um pouco mais da nossa América Latina, não somente a cada quatro anos, quando damos uma olhadinha de “rabo de olho” nas disputas políticas dos países. Afinal, se nos surpreendemos com a existência de uma nova esquerda chilena e seus resultados nas urnas, é sinal que estávamos de costas aos processos de lutas sociais no Chile.
 
Há três anos tive o primeiro contato com Santiago, posso dizer que foi a minha porta de entrada para um convívio cotidiano com a América Latina que fala espanhol e crioulo. Até hoje os chilenos me perguntam, “o que você está fazendo aqui? Por que Chile?”. Essas perguntas sempre vem acompanhadas de algumas observações, “Brasil, país mas grande du mundu”, “una poténcia, un país rico”, “las playas hermosas”, “es de Rio?”.
 
Depois de uma calorosa receptividade explico que cheguei há três anos para realizar parte da minha tese de doutorado, sobre a ditadura chilena. Claro, com apoio da Capes, aliás, acredito que hoje isso seria muito mais difícil de acontecer, dado que o atual governo ilegítimo tem cortado todos os financiamentos de pesquisa e extensão.
 
Residir em Santiago me proporcionou o contato com a produção bibliográfica chilena e latino-americana, com o debate historiográfico produzido nas universidades locais e, fundamentalmente, perceber o Chile a partir da perspectiva interior daquela sociedade e não apenas com um olhar exterior. Conviver com o neoliberalismo profundo que não só eleva o êxito econômico nos rankings mundiais das agências internacionais financeiras, mas que também gera uma sociedade profundamente desigual, despolitizada e descontente com a forma de viver: altamente explorada, competitiva e mal humorada.
 
Essa perspectiva permitiu observar a imanência das transformações impostas pela ditadura, seja na dimensão política, que manteve a mesma constituição de 1980 juntamente com as reformas trabalhista e educacional do mesmo período, que nos passa a sensação de continuidade de período ditatorial, claro, não necessariamente dos militares, mas de uma sociedade autoritária. As dimensões da produção cultural e da vida também transformaram profundamente a sociedade chilena a ponto de comportamentos e condutas se tornarem extremamente duros e conservadores.
 
O que encontramos na transição da ditadura para a democracia, no Chile, é um processo idealizado feito “en la medida de lo posible”, como dizia o Democrata Cristiano, Patricio Aylwin, primeiro presidente eleito depois da ditadura, pela Concertación.  Ainda no período das transformações autoritárias e, como se pode observar, o alcance da despolitização e ressocialização da sociedade chilena em favor da plenitude das relações de mercado e da consolidação da hegemonia capitalista se estabeleceram com segurança.
 
Mas em apenas uma carta não conseguiremos dialogar sobre o nosso “Chilito querido”, então, podemos começar pela Frente Ampla e as eleições 2018.
 
“Desde abajo y a la izquierda”: a Frente Ampla e as eleições de 2018
 
O desempenho vitorioso da Frente Ampla nas eleições revela questões nacionais e internacionais que não podem mais ser camufladas. No âmbito da política nacional significou a quebra da hegemonia política do duopólio da antiga Concertación, hoje chamada de La Fuerza de la Mayoría, que reúne os partidos tradicionais da esquerda, o Partido Socilaista e o Partido Comunista, e de Chile Vamos, com os da direita, a Renovación Nacional, a Unión Democrata Independiente, o Evópoli e o Partido Regionalista Independiente.A Democracia Cristiana, que fazia parte da Concertación desde a transição à democracia, se intitulando nesse período como centro-esquerda, saiu vergonhosamente derrota das eleições, com apenas 5,9% dos votos.
 
Uma das consequências internacionais é que o Chile, considerado mundialmente o laboratório do projeto neoliberal desde a década de sessenta, agora se converte em um dos países que vive um forte questionamento desse sistema e a FA encampa a maior combatividade contra essa estrutura. 
 
O primeiro passo para entender o movimento político da FA é desfazer alguns equívocos apresentados pela imprensa brasileira depois da apuração dos votos, quando a Frente Ampla, com Beatriz Sanchez, obteve 20,3%, elegeu 20 deputados e um senador. Nesse momento FA se consolidou como a terceira força politica no país.
 
O erro que cometem os apressados em explicar a FA, é defini-la como uma esquerda dissidente, como se houvera deixado as fileiras do PS e do PC para seguir outo caminho. É necessário entender que os movimentos estudantis de 2006 a 2011 gestaram o renascimento das lutas sociais no país, além de ser o embrião de uma nova esquerda que vem se consolidando. Pela primeira vez depois da ditadura se lutou para desmontar a estrutura imposta Junta Militar de Governo, chefiada por Augusto Pinochet. E desses movimentos surgem os partidos Izquierda Autónoma e Revolución Democrática, além de outros que hoje compõe a FA. A exceção do Partido Humanista, fundado em 1987, e o Partido Ecologista, em 2006, todos os demais surgem depois de 2011.
 
A FA não concentra apenas os partidos citados, mas também incorpora em suas fileiras organizações sociais e movimentos cidadãos, como o liderado pela organização NO AFP que luta por desprivatizar as aposentadorias no Chile e até um partido liberal. Por isso, seu principal problema é que, devido a essa mesma amplitude, hoje resiste a identificar-se plenamente com a esquerda.  
 
O crescimento desses partidos se deu pela força dos movimentos estudantis e pelo sufocamento vivido pela sociedade com a extrema mercantilização dos direitos sociais, como educação, saúde e previdência social. A maior bandeira de luta da FA é justamente contra essa mercantilização dos direitos sociais, que atinge a maior parte da população, mas não é discutida com profundidade pelas outras coligações.
 
Também é correto dizer que a crise de representatividade sofrida pelos partidos tradicionais tem desmobilizado a participação política da maior parte da população chilena, que desde 2012 aprovou o voto voluntario.  Afinal, apenas 45% dos eleitores foram votar no dia dezenove de novembro, e os 55% de abstenção é o maior índice registado pelos estudos da ONU sobre o tema.
 
Agora a expectativa é sobre qual será a posição da FA no segundo turno, que não compactua com o projeto da Fuerza de la Mayoría, mas pode apoiá-la para evitar a vitória do empresário Sebastián Piñera e tentar garantir algumas conquistas, como a anistia da polêmica dívida estudantil que atinge milhares de chilenos. As conversas já começaram e as cartas de Santiago acompanharão o processo dessa história.
 
 * Clécio Ferreira Mendes  é  Prof. Dr. História Social do Centro de Estudos de História de América Latina - CEHAL