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Bizarras bombas na Alemanha

Bizarras bombas na Alemanha    

05/12/2017 14:37

 

 
Enquanto prossegue a complicada dança - que mais parece quadrilha junina - da formação de um governo sob a regência e a batuta de Angela Merkel, a Alemanha inteira foi agitada por insólito acontecimento no último fim de semana.
 
Nesta época do ano abrem-se as feiras de Natal, muito populares, no país inteiro. São inúmeras: somente em Berlim há 62 grandes feiras registradas, sem contar as pequenas feirinhas de bairro, que só abrem nos fins de semana.
 
Tradicionalmente o momento é de festa e alegria. Mas neste ano ainda está bem viva a memória do atentado no último Natal, quando um insensato sequestrou um caminhão de carga, e depois de matar seu chofer (um polonês que tentou impedi-lo) jogou o veículo contra uma das mais populosas feiras, a da Gedächtniskirche (a Igreja da Memória). O saldo total foi de 12 mortos e dezenas de feridos. O autor do atentado acabou sendo morto por um policial em Milão, na Itália, para onde conseguira fugir.
 
Em resumo, os nervos estão à flor da pele. Por isto pode-se imaginar o frenesi quando, na última sexta-feira, 01 de dezembro, a polícia foi chamada para verificar um pacote inesperado que chegara a uma farmácia nas vizinhanças da principal feira natalina na cidade de Potsdam, ao lado de Berlim, onde fica o Palácio de Verão do rei Frederico II, o Grande, da Prússia.
 
Um dos atendentes da farmácia recebeu o pacote e, ao começar a abri-lo, reparou numa maçaroca de fios no seu interior. Chamada a polícia técnica, constatou-se que de fato tratava-se de uma bomba, embora não houvesse nela um detonador. Segundo a polícia, no entanto, isto não significava que a bomba não pudesse explodir. Significava apenas que não se tratava de uma bomba-relógio nem podia ser acionada à distância, por controle remoto.
 
Imediatamente a feira, a farmácia e toda a vizinhança foram evacuadas, e o artefato foi retirado e conduzido para local seguro, onde foi detonado. Claro que todo mundo pensou em novo ataque terrorista. Porém na segunda-feira a polícia informou que conseguira reconstituir um bilhete que estava no interior do pacote. Tratava-se, ainda segundo a polícia, de uma chantagem dirigida à empresa de correios DHL.
 
A polícia não informou como operaria a chantagem. Revelou, contudo, que tratava-se da segunda ameaça do gênero. A primeira ocorreu em novembro, na cidade de Frankfurt-am-Oder (não confundir com Frankfurt-am-Main, a capital financeira da Alemanha e da Europa), na fronteira com a Polônia, também dirigida contra a DHL.
 
Um certo pânico em marcha lenta tomou conta de todos. Os carteiros e funcionários da DHL e das outras empresas de correio estão apavorados. Aqui é comum, quando o destinatário de uma carta ou pacote registrados não esteja em casa, que o carteiro peça para um vizinho receber e guardar a encomenda. Agora ninguém mais quer receber tais entregas, e há uma recomendação oficial de que não se receba um pacote cuja origem seja desconhecida. A vigilância nas feiras foi redobrada, incluindo blocos de cimento anti-veículos ao seu redor.
 
Vai ser o Natal de mais alta tensão dos últimos anos, um sinal dos tempos. Este clima pesado deve influenciar aquela dança de salão a que aludi acima, porque um dos temas que faz o edifício político alemão estremecer é a xenofobia contra refugiados e imigrantes, sobretudo os muçulmanos, vistos todos como potenciais terroristas pela extrema-direita sempre a postos, e como virtuais indesejáveis por muita gente da direita tradicional.
 
Uma das razões que levaram ao fracasso a primeira tentativa de coalizão ensaiada por Merkel, tentando a missão por si só complicada de juntar no mesmo bloco a sua União Democrata Cristã, a União Social Cristã da Baviera, o FDP liberal e o Partido Verde, foi a questão dos refugiados. Merkel está sendo acusada até de “esquerdismo” (!) para diferenciar-se do direitista Alternative fúr Deutschland, AfD, xenófobo e “euro-cético”, como se diz por aqui, e que nas eleições deste ano conseguiu ultrapassar a cláusula de barreira e entrar no Bundestag, o Parlamento Federal.
 
A propósito de bombas, toco num assunto paralelo. Assisti, no fim de semana, o excelente filme dirigido por Fatih Akim, “Aus dem Nichts”, que significa livre/literalmente “Saído do nada”. Em inglês a tradução do nome do filme foi “In the Fade”, um termo de difícil tradução. É o título de uma música do conjunto californiano “Queens of the Stone Age”, tradicionalmente traduzido por “No desvanecer”, um processo que metaforicamente pode ser descrito como de “arrefecimento da vida”. Em português o nome ficou como “Em pedaços”, que descreve tanto o acontecimento inicial do filme, a explosão de uma bomba terrorista que mata um negociante de origem curda e seu filho, quanto o que acontece com a esposa e mãe sobrevivente, a alemã Katja, cuja vida se fragmenta e despedaça inevitavelmente.
 
Fatih Akin é um cineasta alemão de ascendência turca que opera, normalmente, em Hamburgo, onde nasceu e onde se passa este filme. É direito, roteirista e/ou produtor de dezenas de longas e curtas, tendo ganho dezenas de prêmios em diferentes mostras e festivais. Seus filmes põem em evidência, sob diferentes ângulos, os temas e as vidas dos imigrantes na Alemanha.
 
Este filme segue por esta senda, mas com o tempero do tema do terrorismo neonazi na Alemanha do presente. Com efeito, no filme, Katja, seu advogado e a polícia descobrem que o atentado foi cometido por uma dupla (um casal) de neonazistas com conexões pela Europa. Preso, o casal vai a julgamento, e aqui me detenho para não estragar a festa de quem for ver o filme.
 
A atriz principal, Diane Kruger, ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes. Todo o elenco é de excelente desempenho. Destaco apenas o de Johannes Kirsch, que faz o papel do defensor do casal neonazi, um desempenho excepcional, que lembra o de Maximilien Schell em “O julgamento de Nuremberg”, que lhe valeu um Óscar na década de 60; com a diferença que o advogado de Kirsch é extremamente perverso, coisa que não acontece com o de Schell.
 
O filme é livremente inspirado num episódio recente que ficou conhecido como “A célula de Zwickau”. Nele um trio neo-nazi perpetrou, durante mais de dez anos na clandestinidade, uma dezena de atentados contra comerciantes turcos e um grego, além de terem matado uma policial, ferido outro e realizado uma série de assaltos a bancos. Eram dois homens e uma mulher.
 
Durante muito tempo diversas autoridades alemãs empenharam-se em esquadrinhar a vida das vítimas e de suas famílias, transformando-os em suspeitos dos mais variados crimes, atrás de uma hipotética “máfia turca” que, na verdade, nunca existiu. Descobertos os terroristas ao final de 2011, os dois homens (segundo a polícia) se mataram e a mulher foi presa, estando agora em julgamento. Seguiu-se um dos maiores e piores escândalos do serviço secreto alemão e da polícia. Documentos foram destruídos de modo suspeito, autoridades caíram e chegou-se a falar em fechar os atuais serviços de inteligência e abrir outros. Até hoje pairam sobre o caso a certeza da negligência por parte de autoridades e a suspeita de cumplicidade, quando mais não fosse para proteger as infiltrações em tais organizações, prática comum no meio da inteligência alemã, além do caso trazer evidências da profundidade dos preconceitos xenófobos que ainda existem no país.
 
O filme de Akin tem um ritmo envolvente e seguro e apresenta de modo muito penetrante o mundo dos bairros mais pobres de Hamburgo, paradoxalmente uma das cidades mais ricas do país, preferida por muitos dos super-ricos como lugar de moradia.
 
Se ainda nano viu, não perca.



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