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Carl Hart: crise dos opioides é fruto da ignorância dos políticos

Em entrevista, neurocientista americano fala sobre a epidemia atual: 2,5 milhões de americanos seriam dependentes de analgésicos opiáceos.

13/11/2017 01:24

Reprodução

Por Amy Goodman, do Democracy Now

O presidente Trump anunciou que orientou o Departamento de Saúde e Serviços Humanos a declarar a crise dos opiáceos como uma emergência de saúde pública – recuando do plano, anunciado em agosto, de declarar a crise como uma (ainda mais séria) "emergência nacional". A mudança significa que governo não destinará, por enquanto, novos financiamentos federais para enfrentar a crise dos opiáceos, que matou 64 mil americanos no ano passado.

Como todos sabem por experiência pessoal, famílias, comunidades e cidadãos em todo o nosso país lidam hoje com a pior crise de drogas na história americana e até mesmo mundial” – disse Trump. “É um problema mundial. Esta crise de consumo de drogas, adição e mortes por overdose, existe há muito tempo. O enfrentamento da crise exigirá todos os nossos esforços. E ela deve ser tratada em toda a sua complexidade”.

O presidente Trump também disse que consideraria processar judicialmente "maus elementos" na epidemia de opiáceos.

Conversamos com o doutor Carl Hart, diretor do Departamento de Psicologia e professor de psiquiatria na Universidade de Columbia, autor do recente artigo na revista Scientific American intitulado As pessoas estão morrendo por ignorância, não por causa dos opioides. Hart é autor de Um preço muito alto: a jornada de um neurocientista que desafia nossa visão sobre as drogas (Zahar).

Pergunta: Explique o que você quer dizer no artigo As pessoas estão morrendo por causa da ignorância, não por causa dos opioides.

Hart: Bem, esta fala de Trump é a ignorância. E é por isso que as pessoas estão morrendo. Não estamos atacando os problemas reais. Vamos falar das mortes por opioides. Dizem que é a causa número um de mortes (de americanos com menos de 50 anos) – fala-se em 64 mil mortes no ano passado. Não são mortes causadas apenas por opiáceos. Existem outras causas de morte aí. Esse número refere-se a todo tipo de mortes por drogas, incluindo antidepressivos e muitas outras drogas. Temos que ter cuidado ao inflar esses números.

Mas o fato de as pessoas estarem morrendo por causa dos opiáceos é um problema real. A maioria das pessoas morre porque combina opioides com outro sedativo, como o álcool, como uma benzodiazepina (como o Frontal). Também combinam opioides com anti-histamínicos antigos. Esse tipo de coisa aumenta o risco associado aos opioides.

Mas outro grande motivo pelo qual pessoas estão morrendo é porque acham que têm heroína, quando na verdade eles têm algo como fentanil. Grande parte da heroína na rua hoje está sendo misturada com fentanil. O fentanil é entre 50 e 100 vezes mais potente do que a heroína, o que significa que é preciso menos droga para produzir o efeito desejado. Mas usuários desavisados %u20B%u20Bpodem tomar a quantidade que costumam usar de heroína, quando estão usando fentanil.

OK, então como lidar com isso? É simples. Podemos simplesmente criar locais gratuitos que façam testes de pureza de drogas. Fazem isso na Espanha, na Holanda, na Suíça. É muito simples. Assim, quando as pessoas entendem o que há em sua droga, podem reduzir o uso, ou não usá-la. Testes gratuitos de pureza de drogas revelam a composição completa da droga. Então, se o objetivo é salvar vidas, é possível pôr isso em prática facilmente. Não custa muito. As pessoas dizem: "precisamos de mais dinheiro! Precisamos de mais dinheiro!". Talvez seja necessário mais dinheiro, mas vamos usar o dinheiro com inteligência.

Fico preocupado porque, se o financiamento aumentar, a maior parte do dinheiro irá para a segurança. E quando isso acontece, sabemos o que ocorre. Vimos com o crack e vimos com opioides antes, na década de 1960. O que acontece é que mais pessoas negras serão presas. Não se esqueçam.

E outra coisa que me preocupa é que as pessoas que realmente precisam de opiáceos prescritos para dor não poderão obter seus remédios, porque estamos ficando malucos com o tema opioides em geral. Os opioides são medicamentos excelentes para o tratamento da dor. Não podemos esquecer. Sabemos, por exemplo, que os negros recebem menos prescrições de opiáceos, mesmo quando precisam, %u20B%u20Bdo que os brancos. Todos esses efeitos não desejados acontecem quando o assunto drogas nos deixa histéricos. E sequer conseguimos salvar as pessoas.

Pergunta: Seu artigo na Scientific American começa assim: "Recentemente, impulsionado principalmente por mortes relacionadas a opiáceos – predominantemente de nossas irmãs e irmãos brancos – o presidente Donald Trump proclamou que se tratava de uma emergência nacional. Prometeu ‘gastar muito tempo, esforço e dinheiro para lidar com os opiáceos, um problema mais sério do que nunca’". Você diz que isso não é verdade, e também comenta o componente racial desta crise.

Hart: Bem, há uma maioria de pessoas brancas no país. E então, nesse tipo de questão, é claro que haverá mais pessoas brancas afetadas. Os opioides matam mais pessoas brancas, é um fato. As pessoas que nos representam são, em grande parte, brancas, de áreas rurais, muitas vezes. E trouxeram a crise à tona em parte por causa de nossos irmãos e irmãs brancos. Isso é um fato. E sempre foi assim.

Quero que isso fique claro. Escrevi um artigo no New York Times em agosto onde mostrava que isso não é novo. Mesmo com o crack, havia uma maioria de usuários brancos, e estes receberiam tratamento, enquanto os irmãos e irmãs negros eram mandados para a prisão. A mesmo coisa acontece agora. 80% das pessoas sendo presas por causa de opioides são negros e latinos, mesmo que suas taxas de uso desses medicamentos não sejam maiores do que a dos brancos. Este é apenas o padrão americano de lidar com as drogas. Não é novo. E continua. Por isso que tenho repetido: não fiquemos histéricos; vamos nos concentrar nos problemas reais.

Outra preocupação é pensar em outra maneira de reduzir essa mortalidade. Para mim, essa é a verdadeira preocupação, pois o número de pessoas que vai desenvolver dependência em opioides é consideravelmente menor do que o quadro que estamos pintando. Apenas um quarto das pessoas que usam substâncias como heroína se tornará dependente. Isso significa que a grande maioria não é dependente. Uma boa forma de reduzir a mortalidade é facilitar o acesso a bloqueadores de opiáceos como a naloxona. Nos últimos anos, ocorreu o oposto: as empresas farmacêuticas subiram o preço da naloxona, uma droga usada desde a década de 1960. Se o Congresso e o presidente realmente quisessem fazer algo, responsabilizariam as empresas farmacêuticas pelo aumento do preço da naloxona, que deveria ser acessível. É uma das coisas que o presidente pode fazer. Mas o objetivo é gastar mais dinheiro e não investir de forma inteligente.

No início deste ano, o Procurador-Geral Jeff Sessions prometeu o fortalecimento da chamada guerra às drogas. Sessions revogou duas circulares da era Obama que encorajam os promotores a evitar sentenças excessivamente severas para pequenas infrações com substâncias ilegais. Na ocasião, afirmou:

Para avançar, autorizei nossos promotores a acusar e perseguir o crime mais grave, como acredito que a lei exija, o crime mais sério e prontamente comprovável. Isso significa que vamos honrar nossa responsabilidade de fazer cumprir a lei com julgamento e justiça. É a coisa moralmente certa. Sabemos que as drogas e o crime andam juntos. Os fatos provam isso. O tráfico de drogas é um negócio intrinsecamente perigoso e violento. Quem quer cobrar uma dívida de drogas não pode abrir um processo judicial. Você cobra com o cano de uma arma.

Pergunta: O senhor poderia comentar a fala do procurador-geral dos Estados Unidos?

Hart: É difícil responder a tamanha ignorância... Acho que o Saturday Night Live faria melhor. Não sei o que dizer sobre tanta ignorância, que nos leva de volta aos anos 1980. Há grande preocupação com o encarceramento em massa no país hoje, e quem quiser saber como chegamos a isso, basta ouvir o que dizem Jeff Sessions e aquele cara na Casa Branca. Eles estão tentando garantir que voltemos àquilo, em parte porque isso afetará, principalmente, os negros deste país.

É frustrante que haja pessoas tão incrivelmente ignorantes, mal intencionadas e racistas. Não uso essa palavra de forma exagerada. Quando digo "racistas" quero dizer pessoas que apoiam políticas em que um grupo é tratado de forma desproporcional e injusta. É o que estamos fazendo. Quando Jeff Sessions diz esse tipo de coisa, a consequência será a discriminação racial. E ele está apoiando esse tipo de política ou de ação. Isso faz dele um racista. Estou indignado com sua posição. E espero que povo americano esteja indignado, pois achei que éramos melhores do que isso.

Em Baltimore, um grupo de estudantes do ensino médio está enfrentando a epidemia de overdose de drogas ao construir um aplicativo de celular que alerta quando um lote tóxico de heroína chega à região. Os alunos, na maioria afro-americanos, ajudaram a projetar e criar o Bad Batch Alert, que envia SMS para alertar os residentes de Baltimore quando começam a ser registradas mais overdoses que a média, provavelmente em função de um lote contaminado de drogas. O aplicativo também permite que os usuários enviem SMS pedindo ajuda, oferecendo aos usuários de drogas uma alternativa ao 911 (número de emergência), no caso de uma overdose. Um dos criadores do Bad Batch, Davon Harris, afirmou:

Sabemos que há um problema. Como podemos corrigi-lo, no futuro inevitável, usando programas e aplicativos, mas um programa acessível? Por isso temos um serviço baseado em SMS em vez de um aplicativo mesmo. Então, ele nos atende, pois quase todos têm um telefone. A mensagem de texto é padrão, vem em qualquer telefone, então é mais versátil. Usamos isso e pensamos que os estados podem querer adotar: "OK, é uma boa maneira de manter nossos cidadãos seguros e envolvidos em suas comunidades". É o que acredito que o Bad Batch de Baltimore esteja fazendo pelo país.

Pergunta: O que pensa deste tipo de iniciativa?

Hart: Parabenizo com entusiasmo os estudantes do ensino médio por tentar fazer algo em sua comunidade. Mas, enquanto nação, deveríamos nos envergonhar. Primeiramente, por serem estudantes do ensino médio tentando contribuir para resolver o problema, quando tantas pessoas estudaram muitos anos, especificamente farmacologia e temas afins. Temos algum conhecimento e algumas respostas, e o governo deveria procurar pessoas que realmente sabem o que fazer, e não apenas precisar contar com iniciativas de estudantes do ensino médio. Mas parabéns a eles pelo esforço.

Há muitas coisas simples que poderíamos fazer. Para evitar overdoses, por exemplo, é preciso alertar as pessoas para que não combinem opioides com outra droga. É necessário criar locais gratuitos de teste de pureza de drogas. E há pessoas que estão dependentes de opioides e precisam de tratamento, e é importante olhar ao redor em busca de exemplos de países que têm conseguido bons resultados, como é o caso da Suíça.

Tradução de Clarisse Meireles





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