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Donald Trump não é 'grande demais para falhar'

Sua vitória ilustra a fraqueza da Partido Republicano, não a sua força. E mesmo se gabando tanto, ele é vulnerável. Sua agenda não é intocável.

10/01/2017 19:21

Wikimedia Commons

Logo após o final do ano, foi pedida uma resposta do presidente eleito sobre a insistência de seu companheiro Republicano sobre a aplicação de sanções contra a Rússia por causa de sua suposta participação como hacker durante a eleição. Ele disse:

 

Eu acho que os computadores complicaram muito as vidas. Toda essa, você sabe, era do computador chegou a um ponto em que ninguém sabe o que está acontecendo. Temos velocidade e muitas outras coisas, mas não sei se temos a segurança que precisamos. Mas eu não conversei com os senadores e certamente ainda o farei.

 

Serão longos anos, então é melhor que nos preparemos. Donald Trump é um palhaço. Ele é racista. Ele é misógino. É um charlatão. Ele é intolerante e xenófobo. Um mentiroso e um plutocrata. Tudo isso é verdade; nenhuma delas é o ponto que quero chegar.

 

Nos concentrar nisso pode construir uma fornalha de raiva que possivelmente levará à auto-imolação. Criará grandes desenhos e memes e nutrirá uma noção de desespero e reclamação que podem marinar em auto-indulgência. Haverá muito material para os liberais  de esquerda que querem sentir raiva. Mas aqueles que pretendem canalizar essa raiva em resistência irão encarar um desafio pior.

 

Há muitas pessoas com as qualidades de Trump que vagam pelo mundo deixando as pessoas ao seu redor miseráveis. Trump não inventou o racismo, a estupidez, a islamofobia, ou o nacionalismo. Ele não é o primeiro a entrar na Casa Branca com intenções discriminatórias. A presidência não é meritocracia – já passaram muitos homens brancos burros por esse cargo para qualquer um acreditar que é ocupado pelos mais preparados do país.

 

Trump não vai ter que construir um regime autoritário que ignora os direitos humanos do zero; ele tem um edifício intacto, construído pelos predecessores de ambos os partidos. A realidade já é ruim o suficiente; não precisamos amplificar seus horrores com mitos. Nunca vimos algo parecido com ele – mas ele não veio do nada.

Trump é perigoso. Sua campanha empoderou intolerantes de todos os tipos. Ressoou globalmente, onde a extrema direita, da França à Finlândia, emergiu como a beneficiária eleitoral principal da crise financeira. Sua campanha dispensou normas eleitorais em favor da violência e da disputa racial. Sendo assim, ele não somente representou uma ameaça à democracia, como também sua candidatura foi produto de uma democracia já em crise. A razão pela qual Trump interessa não é porque ele é uma pessoa terrível. O problema com Trump não é que ele é burro. É que ele ganhou – que ele levou suas qualidades à nação, se gabou e emergiu vitorioso.


Esse ponto pode ser exagerado. Ele não ganhou o voto popular. Graças à taxa de comparecimento mais baixa em 20 anos. Trump ganhou uma porcentagem menor dos votos elegíveis do que John Kerry, John McCain, Mitt Romney e Gerald Ford quando concorreram à presidência – e todos perderam. Ele obteve a mesma proporção de votos dos brancos que McCain em 2008. Isso não foi carimbado pelos membros da extrema direita; eles entraram por uma porta entreaberta pela ambivalência de muitos e arrogância de outros.

 

Mas não pode ser negado. “Eleições tem conseqüência”, alertou Barack Obama aos Republicanos logo após tomar posse em 2008. Isso ainda é verdade. E porque Trump ganhou, ele agora tem poder – o tipo de poder que poder destruir vidas e o planeta. As mãos que um dia “pegaram em vaginas” agora têm acesso aos códigos. Sua personalidade é ofensiva; é seu poder que é verdadeiramente amedrontador.

 

Felizmente, enquanto a direita é empoderada, não está em ascensão. A vitória de Trump ilustra a fraqueza dos líderes o Partido Republicano, não sua força. Eles queriam qualquer outra pessoa, e agora eles não podem controlá-lo. Ele abertamente os ridiculariza. Mesmo se gabando sempre, permanece vulnerável. Sua agenda não é intocável.

 

Mas não há nada inevitável sobre sua queda. Se a esquerda liberal vai desafiá-lo efetivamente nos anos a seguir, então deve aprender as lições de sua derrota. A máquina Democrata não precisa ser afinada, precisa ser reformulada. Por muito tempo foi muito arrogante, complacente e desdenhosa (e às vezes os três) para argumentar que “ao menos não somos eles”.

 

A razão pela qual Trump conseguiu o poder não é porque teve idéias melhores, argumentos melhores, melhor organização, ou porque gastou mais dinheiro. Foi porque aqueles encarregados de se opor à ele não ofereceram esperança, mas sim o status quo, em um país onde a desigualdade entre os ricos e os pobres, os brancos e os negros, está cada vez maior. Ele ganhou porque seus opositores acreditaram em suas próprias relações públicas. A arrogância os levou ao Arizona enquanto a humildade teria os deixado na Pensilvânia. Ele ganhou porque, emergindo em um período de crise econômica, o multimilionário cujo bordão é “você está demitido” pareceu menos com um representante do establishment do que a liberal que bradava representar os pobres. Se ele é burro, o que nós somos?



Créditos da foto: Wikimedia Commons