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G20 na Argentina: na militarizada Bariloche é proibido falar de crise climática

A não inclusão da crise climática na agenda mostra a barreira que persiste para não molestar o presidente estadunidense Donald Trump

05/12/2017 17:42

Agência Efe

 
Num ato que reuniu ministros e funcionários, o presidente argentino Mauricio Macri anunciou o início do período argentina na presidência pró-tempore do G20, e que adotará uma agenda amigável e conciliadora com todos os governos. Dessa agenda um tema já foi eliminado: a crise climática.

Este fórum de concertação política e governança macro econômica foi fundado em 1999, com 19 nações representadas, além da União Europeia (UE), e pela primeira vez terá a presidência exercida por um país latino-americano.

Dezembro será um mês de alta exposição internacional do governo de Macri. Após a posse no G20, começaram as mesas de trabalho das delegações internacionais em Bariloche. Dias depois, acontece a cúpula da Organização Mundial do Comércio, em Buenos Aires. Por trás dos refletores, dos tapetes vermelhos, das câmaras da cobertura jornalística oficial e das rodadas de negociação, o governo argentino tentará mostrar ao mundo sua firmeza diante dos crescentes protestos sociais.

Macri ordenou a militarização dos territórios onde se realiza a cúpula do G20. Caravanas de tropas de soldados e policiais militares se mobilizaram nos últimos dias até a região sul da cordilheira argentina.

Após a revelação dos escândalos dos Paradise e Panamá Papers, mostrando que vários funcionários do governo e até o próprio Macri e sua família estão envolvidos em paraísos fiscais e fuga de capitais, o ex-premiê britânico Gordon Brown lançou uma campanha internacional para pedir a Macri, que como presidente do G20, declare ilegais as contas offshore em todo o mundo, e apele à imposição de sanções e penas de prisão aos sonegadores, partindo por dar o exemplo com medidas concretas na Argentina.

Inferno na neve andina?

Em julho deste ano, quando houve outra reunião do G20, na cidade alemã de Hamburgo, os protestos levavam a consigna wellcome to hell (“bem-vindos ao inferno”). Esse inferno agora se mudou para a Patagônia argentina, onde se vive momentos de máxima tensão, devido aos avanços repressivos contra as comunidades mapuches de Rio Negro, Chubut e Neuquén, alimentando a vontade do governo de transformar este inerme povo indígena em seu novo inimigo interno.

“Presidente Macri, nossa Argentina não se vende”, dizia um cartaz durante as manifestações contra o G20 em Hamburgo. Hoje, a cúpula do G20 se faz num paraíso andino, cercado de terras apropriadas por multi milionários argentinos, todos defensores do atual governo, contra as reivindicações dos povos indígenas, habitantes originários das mesmas.

No último dia 25 foi assassinado o jovem Rafael Nahuel, após um disparto de um grupo de forças de segurança militar. Outras quatro pessoas foram feridas. A repressão começou no dia 23, com a detenção de mulheres e crianças durante a desocupação da comunidade Lafken Winkul Mapu, na Villa Mascardi, fora do perímetro urbano de Bariloche.

Há três meses, no dia 1º de agosto, a repressão de um protesto na comunidade de Cushamen para pedir a liberdade do lonko (cacique) Facundo Jones Huala terminou com uma ação ilegal das forças militarizadas contra o povoado. Foi durante o ataque que desapareceu o jovem Santiago Maldonado: 72 dias depois, seu corpo foi encontrado sem vida numa zona que havia sido rastreada antes várias vezes Em ambos os casos, o Estado argentino defendeu em todo o momento a atuação das forças de segurança, braço de executor de uma ordem política.

Além disso, as forças de segurança e organismos de inteligência reforçaram a segurança na zona, incluindo as áreas próximas às comunidades indígenas e às sedes das organizações sociais e partidos políticos de esquerda. O governo informou que a Agência de Inteligência Federal (AFI) e demais organismos de inteligências trabalham para mapear a militância anticapitalista que pode se manifestar nas proximidades de onde acontece o foro.

Uma agenda à medida de Trump

A não inclusão da crise climática na agenda mostra a barreira que persiste, e que é reforçada desde a reunião de Hamburgo, para não molestar o presidente estadunidense Donald Trump, opositor assumido das diretrizes do Acordo de Paris e que já declarou seu aval à política de aumentar a exploração norte-americana de combustíveis fósseis e as consequentes emissões contaminantes.

Por sua parte, o presidente francês Emmanuel Macron convocou para o próximo dia 12 de dezembro – quando se cumpra o segundo aniversário da entrada em vigência do Acordo de Paris – uma conferência de líderes mundiais para debater um plano de “novas ações pelo clima, especialmente em termos financeiros”, para o qual Macri foi convidado, mas não pretende comparecer.

No caso do encontro do G20, a contaminação das matrizes energéticas das potências econômicas, os modelos de produção e consumo, e as consequências que muitas pessoas já sofrem como consequência das mudanças do clima, apesar da insistência de vários atores sociais e de grande parte da comunidade científica, não estarão na agenda.

Quem também enviou mensagens ao governo argentino sobre ausência do tema na pauta do encontro foram o economista assessor da secretaria geral das Nações Unidas, Jeffrey Sachs, e o papa Francisco, que reclamou da falta de um “eixo ecológico” no G20. As pressões sobre a agenda foram em vão, devido à decisão de evitar um conflito entre líderes ou até mesmo a possível ausência Estados Unidos, um fantasma chantagista que se agita pelas críticas à OMC e o retiro de Washington do Acordo de Paris e da Unesco.

A Argentina prefere abordar a necessidade de provar soluções para aos mudanças que o mundo do trabalho experimenta devido à revolução digital, e como isso poderia ajudar a diminuir a pobreza, ao mesmo tempo em que impõe ao país uma política de flexibilização das leis trabalhistas, o que significa cortes de direitos dos trabalhadores, o aumento do desemprego e consequentemente da pobreza no país. Também apoia outros temas, como a busca por financiamento privado para obras de infraestrutura e a inserção de produtos agrícolas em cadeias globais de valor, em linha com o tema da segurança alimentar.

“Há uma disputa que devemos gestionar”, reconheceu o embaixador Pedro Villagra Delgado, representante do presidente Macri no G20. “Mesmo assim, os debates que consideramos incômodos também vão acontecer”, admitiu o diplomata argentino, que falou também de temas onde não há posições uniformes, como o papel que deve ter na reunião da OMC e no intercâmbio global de bens e serviços, a regulação do mercado de aço (que a China produz em grande escala) ou o caminho a seguir para aplicar a agenda de desenvolvimento sustentável da ONU.

O país a cargo da presidência tem o direito de pautar a agenda que se discutirá durante o ano de reuniões, e a mesma estará fixada no documento de trabalho que se conhecerá ao finalizar a cúpula. Sob esses parâmetros se realizará, durante um ano, mais de 50 reuniões, divididas em dois canais temáticos: o dos emissários, os negociadores que representam os governos de cada país, e o de finanças, para os técnicos, ministros e presidentes de bancos centrais.

O diplomata também ressaltou que “a Argentina não possui conflitos estratégicos em sua agenda global, e isso permite ao país exercer o papel amigável que buscamos”.

Os mais de 20

O G20 foi criado em 2008 e reúne os governos dos Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Índia, Brasil, Itália, Canadá, Coreia do Sul, Rússia, Austrália, México, Indonésia, Turquia, Arábia Saudita, Argentina e África do Sul. Também participam representantes de organizações como a ONU, o FMI, o Banco Mundial, a Organização Internacional do Trabalho, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OMC e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.

Embora as resoluções não sejam vinculantes, elas se transformam em diretrizes políticos após os acordos que se assinam entre os membros. Este ano, a mudança climática foi um ponto de tensão, a partir das declarações negacionistas do presidente norte-americano Donald Trump.

Em 2009, o eixo mais debatido foi o dos denominados “paraísos fiscais”, tema que, caso entrasse na agenda, seria bastante incômodo para o governo argentino.



Créditos da foto: Agência Efe