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O Estado Islâmico tomou o Sinai?

A "queda" do Sinai só enfraqueceria mais as afirmações de al-Sisi que, após ter dado um golpe de Estado, afirmou que acabaria com o "terrorismo" no Egito.

30/11/2017 16:11

The Guardian

 
O massacre na mesquita do Sinai prova o que muitos já suspeitam há meses no Egito: que o ISIS – mesmo que ainda não haja uma reivindicação direta – está controlando a península, mirando cada vez mais nos membros do governo e na polícia do presidente Abdel Fattah al-Sisi. E provando assim que a derrota tática no Iraque e na Síria significa uma simples mudança geográfica.
 
A "queda" do Sinai – talvez se estendendo até Sharm e-Sheikh, o resort turístico supostamente "seguro" – só enfraqueceria ainda mais as afirmações audaciosas de al-Sisi que, após ter dado um golpe de Estado, afirmou que acabaria com o "terrorismo" no Egito.
 
Esta suposta batalha levou à prisão de 60.000 prisioneiros políticos egípcios – supostos "terroristas", mas muitos deles jovens revoltados com o autoritarismo de al-Sisi – e a um número indeterminado de assassinatos e desaparecimentos. Mas o mundo, como de costume, apenas envia condolências pelas vítimas inocentes dos inimigos de al-Sissi. Previsivelmente, as vítimas do regime foram esquecidas, enquanto o atentado "malvado e covarde" de pelo menos 235 fiéis na mesquita al-Rawda, perto de Al-Arish, foi condenado pela Otan e por uma série de outros líderes ocidentais.
 
Em seguida, na reunião do gabinete de emergência de Al-Sisi – e há cada vez mais encontros "de emergência" do governo no Cairo – será perguntado como os assassinos, com bombas e armas de fogo, conseguiram matar tantos civis, muitos deles próximos das forças de segurança. Poderia ser um "trabalho interno"? A pergunta deve ser feita uma vez que os últimos assassinatos no Sinai, que deixaram oficialmente mais de 30 mortos (embora o número possa ser muito maior), incluíram uma emboscada a mais de dez generais seniores da polícia e do exército que estavam, eles mesmos, supostamente preparando uma emboscada contra o ISIS.
 
Esse é, talvez, o elemento mais sério da atual insurreição do Sinai, que já tirou a vida de milhares de outras pessoas, incluindo membros da minoria cristã, soldados e policiais. Há mais de um ano, o exército egípcio vem usando ataques aéreos contra insurgentes – seguindo assustadoramente o padrão do início da guerra civil síria. Mais de dois anos atrás, al-Sisi enviou homens de sua segurança para discutir com o governo sírio como lidar com seus oponentes. Quem sabe quando as autoridades sírias serão convidadas a enviar seus próprios oficiais para aconselhar os egípcios?
 
Para o Ocidente, é claro, o aumento de ações ligadas ao ISIS no Sinai abala as afirmações – do Irã e também dos americanos e britânicos – de que o grupo foi vencido. O Egito é, evidentemente, o próximo alvo. Desde os ataques a igrejas no Cairo, Alexandria e outras cidades a oeste do Nilo, está claro que o ISIS já "atravessou o rio". Ninguém está seguro no Sinai – nem no Cairo.
 
Nem é preciso dizer que o Egito receberá agora ainda mais apoio militar do Ocidente – a expedição de compras militares de al-Sisi na França no início deste mês será, sem dúvida, repetida. E o aumento do armamento vai fortalecer as forças militares egípcias; possibilitando, assim, ao governo de al-Sisi prender ou torturar ainda mais oponentes políticos. O ISIS certamente também deve saber que a popularidade de al-Sisi é cada vez menor no Egito: suas promessas de recuperação econômica após um período de austeridade se mostraram falsas até agora. E as eleições são iminentes.
 
A única coisa que as autoridades egípcias têm a seu favor é que a mídia foi praticamente proibida de cobrir a guerra do Sinai. Assim, o número de mortos – que pode ser muito maior do que o divulgado – foi amplamente ignorado, ou descartado como "falso" pelos militares. O massacre do Sinai foi o mais sangrento da atual guerra islamista contra o governo no Cairo. Mas não será o último.
 
 
Tradução de Clarisse Meireles



Créditos da foto: The Guardian