Leituras

Notas de Leitura 8: Marighella a partir de seus escritos

Coletânea 'Carlos Marighella: Chamamento ao povo brasileiro (UBU, 2019), organizada por Vladimir Safatle, traz textos-chaves do líder político e revolucionário.

05/11/2021 10:49

 

 
O resgate da biografia, do pensamento, da luta revolucionária de Carlos Marighella, executado em 4 de novembro de 1969, ultrapassou as fronteiras da academia. A canção de 2012, Mil faces de um homem leal, dos Racionais MC´s, que ouvimos conforme sobem os letreiros de “Marighella”, filme de Wagner Moura, lançado na última quinta-feira, é prova disso.

Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo (Cia. das Letras, 2012) de Mário Magalhães; Um Comunista de Caetano, os documentários Marighella (2012) de Isa Grinspum Ferraz, e Marighella, retrato falado do guerrilheiro (2001) de Silvio Tendler, e tantos outros, também.

Poeta, comunista, político, guerrilheiro, Marighella participou da resistência em duas ditaduras, a de Vargas e a dos militares, e dedicou 33 de seus 57 anos ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). 

A ruptura se dá em 1967, quando, já convicto da via revolucionária, Marighella contraria as decisões do Partidão, e participa da conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), em Cuba.

Um mês depois, era expulso, ao lado de Manuel Jover Teles, Joaquim Câmara Ferreira, Mário Alves, Jacó Gorender, Miguel Batista e Apolônio de Carvalho.

No ano seguinte, em 1968, com Câmara Ferreira, fundava a Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo armado de resistência à ditadura militar.

Em todas essas fases, a formulação teórica foi parte integrante das atividades políticas e da ação revolucionária de Marighella. Daí a oportunidade, para além das releituras de sua biografia, de encontrá-lo em seus escritos, e neste sentido, a coletânea Carlos Marighella: Chamamento ao povo brasileiro (UBU, 2019), organizada pelo professor Vladimir Safatle (Filosofia - USP), é de grande valia.

Ensaios, artigos e livros alternam-se com poemas de Marighella, alguns escritos da prisão, e se distribuem cronologicamente em três partes: o livro de 1965; textos escritos entre 1966 e 1967, quando se dá a ruptura com o Partidão; e a terceira, com textos produzidos durante a luta armada. 

Como explica Safatle, a decisão de compor este livro com textos de múltiplas procedências e momentos, com poemas e análises econômicas, com circulares internas ao PCB e textos da época da guerrilha, visa mostrar o processo que leva Marighella à luta armada, suas avaliações e pressupostos.

Lembrando que a luta armada nunca foi a primeira opção de Marighella, ele também destaca a relevância do fato de que o mais importante líder guerrilheiro do Brasil veio de dentro do campo da política institucional. Sua decisão pela luta armada é tardia, ocorrendo aos 55 anos, quando já tinha atrás de si uma longa trajetória política (p.11).

Por que resisti à prisão?

O texto que abre a coletânea, Por que resisti à prisão? (1965), é considerado um dos principais livros de Marighella. Jorge Amado, inclusive, afirma que para conhecer Marighella é preciso passar por suas páginas. 

Nelas, Marighella, deputado do PCB da Bahia, conta conta por que resistiu à prisão, em 9 de maio de 1964, após ser vítima de agentes da polícia política fluminense, que o perseguiram e nele atiraram, dentro de um cinema, em pleno funcionamento, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.


Fonte: Blog do Mário Magalhaes / Foto: Correio da Manhã/ Arquivo Nacional

A cena,  flagrada pelo Correio da Manhã acima, transforma-se em literatura no testemunho do autor:

Em qualquer filme americano de faroeste as peripécias não seriam diferentes. Só que agora a tela branca estava sem imagens e muda, e a figura de Bob Hope já não mais se agitava, como antes, entre outros personagens e animais em pleno safári. O que se passava na vida real era muito mais trágico: um homem que não estava na selva, e sim numa grande e populosa cidade coberta de asfalto, e entretanto caçado como um animal selvagem. Tudo se passava com a rapidez do raio. Meu olhar perpassando em torno do curioso espetáculo desenrolado fora da tela, numa agilidade que só o perigo e o instinto de conservação podiam explicar. Com a mesma incrível rapidez, minha atenção concentrou-se na atitude estranha e agressiva de um policial, de cócoras, em minha frente, empunhando uma arma de fogo, cano apontado para o meu coração. Não havia dúvida. O crime ia ser perpetrado ali. Friamente planejado. Premeditado. Com todos os requintes de barbárie e de irresponsabilidade – características inseparáveis do atual regime.

Levantei-me gritando: — Matem, bandidos! Abaixo a ditadura militar fascista! Viva a democracia! Viva o Partido Comunista!

Ato contínuo, o policial deu ao gatilho. Foi tudo numa fração de segundo. Um estampido dentro do cinema. Os gritos de horror. A fumaça do tiro. O cheiro de pólvora queimada. O sangue quente rolando aos borbotões sobre a camisa, o paletó. As vestes ensanguentadas. Um filete de sangue em minha boca e seu sabor adocicado
(pp. 41-42).



Após ter sido baleado, Marighella ficou preso durante um mês, e foi solto graças ao habeas corpus impetrado pelo jurista Sobral Pinto. Neste livro, com o talento acima visto, Marighella conta o que sofreu neste período, relacionando o que sofreu com o contexto nacional, a ditadura, as violações que estavam em curso. 

O objetivo da polícia política é quebrar a moral dos que combatem politicamente a ordem retrógrada dominante. Tentar desmoralizá-los perante o povo com acusações infundadas,
afinal, será mais fácil, assim, levar os explorados à passividade, a aceitar sem protestos os desmandos e a arbitrariedade. E a conformar-se com a prevalência do poder econômico sobre as massas (p. 53).

E mais adiante:

A abrilada surgiu como um movimento anticomunista e antimarxista, a pretexto de combater uma fantástica ditadura que estaria para ser implantada pelos comunistas no país. Por uma ironia da história, os comunistas, agora acusados de subversão, defendiam a democracia burguesa, interessados que são na permanência de um clima de liberdade e na conquista da legalidade para o Partido Comunista. O golpe que destruiu as liberdades no Brasil sobreveio a 1º de abril. Não foi desencadeado pelos comunistas e, sim, pelos “gorilas”, que implantaram a ditadura – ou seja, o fim da ordem constitucional burguesa estabelecida em 1946.
(pp. 121-122).

Como observa Antônio Cândido, ao longo do livro, o leitor vai desconfiando que aquele não é bem um relato autobiográfico..

Com o mesmo calor, o mesmo ritmo expressivo com que narrou as vicissitudes da prisão em suas diferentes fases, Marighella reflete sobre o processo do golpe (falsamente qualificado de “revolução” pelos seus promotores), caracterizando-o como tentativa de barrar as aspirações populares, cuja força vinha crescendo. Em consequência, mostra a necessidade de uma oposição firme e constante. (pp. 31-32).


Ruptura com o Partidão

A segunda parte da coletânea reúne três textos que marcam a ruptura entre Marighella e o PCB: A crise brasileira (1966), Carta à Comissão Executiva do Partido Comunista Brasileiro (1966) e Críticas às Teses do Comitê Central (1967).

A partir de suas críticas ao PCB e de sua análise sobre país e o golpe de 1964, nesses textos, Marighella busca fundamentar sua opção pela luta armada, trazendo um panorama sobre o Brasil daquele período. Ao refletir sobre o golpe de 1964, afirma:

A subestimação do perigo de direita no panorama político brasileiro foi fruto do reboquismo e da ilusão no governo. Foram inúmeras as vezes em que repetimos que o desencadeamento de um golpe de direita seria a guerra civil no país ou que à violência dos golpistas responderíamos com a violência das massas. Como as palavras não coincidiram com os fatos, isto significa que não nos preparamos. Estávamos confiantes em que o governo resistiria. Nem ao menos denunciamos insistentemente o golpe de direita. Deixamos de chamar as massas à vigilância e não as alertamos para a eventualidade de uma resistência, (p. 173).

Nosso objetivo não é somente alcançar algumas liberdades formais, com a atenuação ou eliminação de uma ditadura por pressões políticas ou armadas, que podem inclusive favorecer os interesses do imperialismo. Nosso objetivo é de maior alcance: substituir tal governo ditatorial por um governo que assegure a independência do país. E isso não será possível pela via pacífica, mas sim pela via armada e com a unidade das forças populares (p. 247).



A reflexão teórica sobre o país e a luta armada, construídas nesta segunda parte, é levada à outra dimensão na terceira e última parte da coletânea, onde alguns textos carregam um valor histórico, como Pronunciamento do Agrupamento Comunista de São Paulo, texto considerado fundador da ALN, de fevereiro de 1968. 

A linha política da “Declaração geral” da Olas é a linha que adotamos (...) Pensamos sobre a guerrilha o mesmo que a Conferência da Olas quando, no ponto 10 de sua “Declaração geral”, apresenta a guerrilha como embrião dos Exércitos de Libertação e como método mais eficaz para iniciar e desenvolver a luta revolucionária na maioria dos países latino-americanos (p.263).

O conceito teórico pelo qual nos guiamos é o de que a ação faz a vanguarda. Seria para nós imperdoável perder tempo organizando uma nova cúpula, lançando os chamados documentos programáticos e táticos e fazendo novas conferências, de onde surgiria outro Comitê Central, com os vícios e deformações já por demais conhecidos. A mesa das discussões hoje em dia já não une os revolucionários. O que une os revolucionários brasileiros é desencadear a ação, e a ação é a guerrilha (pp. 269-270).

Integram, também, a terceira parte da coletânea a Carta circular aos homens das classes dominantes, Algumas questões sobre as guerrilhas no Brasil, Frente a frente com a polícia (1966), Cartas de Havana (1967) e, em particular, Chamamento ao povo brasileiro (1968).

Autêntico chamamento à Nação, nele a existência de uma resistência contra a ditadura é informada, seus métodos e a guerrilha explicitados, além da denúncia das violações em curso no país, diz o texto:

Os militares tomaram o poder pela violência em 1964 e foram eles mesmos que abriram o caminho à subversão. Não se podem queixar nem ficar assombrados de que os patriotas trabalhem para desalojá-los dos postos de mando que usurparam descaradamente. Afinal, que classe de ordem querem preservar os “gorilas”? Os assassinatos de estudantes na praça pública? Os fuzilamentos do Esquadrão da Morte? As torturas e espancamentos no Dops e nos quartéis militares? (p. 255). 

Para os operários, o que existe é o arrocho salarial e o desemprego. Para os camponeses, os despejos, a ocupação ilegal de terras, os arrendamentos usurários. Para os nordestinos, a fome, a miséria e a doença. Não existe liberdade no país. A censura é exercida para coibir a atividade intelectual (p. 256). 

Chamamento ao povo brasileiro elenca algumas medidas populares previstas para serem executadas de forma inapelável, com a vitória da revolução.

São elas:

– aboliremos os privilégios e a censura;

– estabeleceremos a liberdade de criação e a liberdade religiosa;

– libertaremos todos os presos políticos e os condenados pela atual ditadura;

– eliminaremos a polícia política, o Serviço Nacional de Informação (SNI), o Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e os demais órgãos da repressão policial;

– depois de julgamento público sumário, executaremos os agentes da CIA encontrados no país, e os agentes policiais responsáveis por torturas, espancamentos, tiros e fuzilamentos de presos;

– expulsaremos os norte-americanos do país e confiscaremos suas propriedades, incluindo empresas, bancos e terras;

– confiscaremos as empresas de capital privado nacional que colaboraram com os norte-americanos e que se opuseram à revolução;

– tornaremos efetivo o monopólio estatal das finanças, comércio exterior, riquezas minerais, comunicações e serviços fundamentais;

– confiscaremos a propriedade latifundiária, terminando com o monopólio da terra, garantindo títulos de propriedade aos agricultores que trabalhem a terra, extinguindo as formas de exploração como a meia, a terça, os arrendamentos, o foro, o vale, o barracão (escravidão agrária), os despejos e a ação dos grileiros, e castigando todos os responsáveis por crimes contra camponeses;

– confiscaremos todas as fortunas ilícitas dos grandes capitalistas e exploradores do povo;



– eliminaremos a corrupção;

– serão garantidos empregos a todos os trabalhadores e às mulheres, terminando com o desemprego e o subemprego e aplicando o lema “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo seu trabalho”;

– extinguiremos a atual legislação do inquilinato, eliminando os despejos e reduzindo os aluguéis, para proteger os interesses dos inquilinos, assim como criaremos condições materiais para a aquisição de casa própria;

– reformaremos todo o sistema de educação, eliminando o acordo MEC-Usaid e qualquer vestígio da intromissão norte-americana, para dar ao ensino brasileiro o sentido exigido pelas necessidades da libertação de nosso povo e seu desenvolvimento independente;

– daremos expansão à pesquisa científica;

– retiraremos o Brasil da condição de satélite da política exterior norte-americana para que sejamos independentes, seguindo uma linha de nítido apoio aos povos subdesenvolvidos e à luta contra o colonialismo.

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Sobre a coletânea:



Carlos Marighella


Chamamento ao povo brasileiro

Vladimir Safatle (org.) – Editora UBU,
2019. Coleção Explosante.

Adquira aqui


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Tatiana Carlotti escreve para as editorias de Arte-Literatura / Arte-Leituras de Carta Maior. É graduada em história, mestre em crítica literária e doutora em linguística. tcarlotti@gmail.com

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