Leituras

Na noite escura da alma, saudade de Copacabana

O livro de poesia 'Poente', do jornalista brasileiro Celso Japiassu, vem mitigar as tensões de fim de ano com seu lançamento pela editora portuguesa Glaciar, e é o oitavo volume de poemas do autor que vive na cidade do Porto

23/12/2021 09:57

 

 
"Eis - me diante da coletânea de poemas de Celso Japiassu. O autor, distinto professor e admirável criador de fantasias literárias, abre a oficina de sua indústria de poemas. Oferece aos leitores a particular função de coautores, à mercê do seu misterioso poder de persuasão''.

Assim, o escritor mineiro Fábio Lucas, um dos principais críticos literários do Brasil, apresenta o volume de poesias Poente, do jornalista brasileiro, publicitário e poeta Celso Japiassu,.

Lançamento da Glaciar, de Lisboa, o livro está no catálogo de fim de ano da Editora e presente em alguns dos principais sites internacionais de venda de livros - Fnac, Wook e Almedina. O preço varia entre dez e onze euros. ''Acho caro'', diz Japiassu, ''mas os livros são caros em Portugal, por causa das tiragens pequenas.''

''As tiragens de livros em Portugal são pequenas se comparadas com os números do Brasil, proporcionais à população de cada país. Mas o livro é algo muito presente entre a população educada. É muito comum se ver no metrô pessoas lendo um livro ao invés de batucando no celular'', diz o poeta.

''Lê-se muito também poesia e é reconhecida a qualidade da poesia portuguesa e dos seus poetas. Mas o quadro não é alentador. Acompanha uma tendência mundial. A cada dia fecham-se livrarias tradicionais, e a Amazon, infelizmente, tende a predominar''

Fábio Lucas, que foi Premio Jabuti, Premio Juca Pato e recebeu o premio Governo de Minas Gerais de Literatura, há três anos, segue na sua apresentação do Poente de Japiassu: ''No fulgor de suas variadas escritas e leituras, mostra-se inspirador de bons costumes artísticos, pescador de obras-primas, raro aprendiz de tercetos e de quartetos que dão vida a canções, ao mesmo tempo atento a tendências contemporâneas."

Celso nasceu e foi criado na Paraíba, em João Pessoa. Deixou o Rio de Janeiro, onde morava, cinco anos atrás, e depois de uma longa trajetória profissional no Brasil exilou-se na cidade do Porto para lá iniciar uma nova fase da vida.

Autor da coluna O Novo Velho Continente e suas Contradições, de Carta Maior, ele publicou até agora, O Texto e a Palha (Edições MP, Belo Horizonte 1965), Processo Penal (Artenova, Rio de Janeiro 1969), A Legião dos Suicidas (Artenova, Rio de Janeiro 1972), A Região dos Mitos (Folhetim, Rio de Janeiro 1975), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, São Paulo 1980), O Último Número (Alhambra, Rio de Janeiro 1986) e Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, Rio de Janeiro 1992)

Ainda quando vivia em João Pessoa o autor publicou os seus primeiros poemas nos jornais da cidade. Trabalhou, como ator semi profissional, em grupos de teatro locais e companhias de teatro que ali realizavam temporadas. No ano seguinte, transferiu-se para Belo Horizonte. Então, já trabalhava como jornalista e, depois, publicitário.

''Escrevo poesia desde os 11, 12 anos de idade por uma necessidade interior - o ''cão negro'' me acompanha desde a infância - e também por influência de Augusto dos Anjos, cujos poemas e o seu livro Eu e outros poemas descobri nessa idade. O “cão negro”, o “passear o cão negro” são metáforas da tristeza e da depressão popularizada por Churchill, e ataca na mais incerta das horas''.

''Fiquei fascinado quando descobri Augusto dos Anjos e comecei a escrever poemas procurando imitar o seu estilo surpreendente. Depois, descobri Castro Alves e os seus versos contra a escravidão. Em seguida vieram os modernos. Manoel Bandeira, Drummond, Jorge de Lima''.

Celso conheceu os poetas portugueses ainda adolescente, em um pequeno livro intitulado 12 jovens poetas portugueses editado no Brasil pelos Cadernos de Cultura do Ministério da Educação e Cultura.

Em uma conversa que mantivemos com ele, a sua constatação: ''O poeta que talvez me conforte neste momento complicado da pandemia continua a ser Augusto dos Anjos e a sua visão do mundo sombria e pessimista. Ainda o leio''.

Poente - e não ocaso, como sublinha o poeta - é o seu momento para observar:

''Poente - que melhor palavra
Para dizer dos olhos que vasculham coisas e pessoas
Do que a incorrespondente Ocaso!
O poente está em movimento,
Vibra nele a vida do Sol quando se deita.
Ocaso é o particípio passado do Sol posto.
Ocaso é triste.''

Com o poema Entreato, um dos que se encontram no seu livro, Celso se diz particularmente. "Identidade subjetiva porque Entreato é autobiográfico e fala de um amigo morto que me fez muita falta.''

Mas é a presença do bairro de Copacabana, onde morou durante muitos anos, o que mais fascina o autor, nesse volume com 56 poemas. Luar sobre Copacabana e Noturno de Copacabana apresentam a entranhada humanidade exposta em tipos comoventes, o mar e as areias da sinuosa praia de Copacabana, seus botequins lendários, os ventos, as sombras acompanhando e protegendo os pássaros e as madrugadas cheias de presságios.

''Amo aquele bairro, um microcosmo do Rio de Janeiro e do Brasil com seus contrastes e as suas cores'', diz Japiassu. ''Tenho saudades, sim, dos seus botequins, do Real Chope e do Pavão Azul em especial, onde sempre encontrei as cachaças prediletas. Rainha, da Paraíba, a minha terra, e as marcas de Salinas, de Minas Gerais. Confesso que tenho predileção pelos botequins que o gosto burguês olha com desprezo''.

Quem lembra este trecho de poema de Luar sobre Copacabana'' é Fábio Lucas em seu belo prefácio à obra:

''Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais''.

E diz Celso: ''O livro chama-se Poente porque achei apropriado para um livro que talvez seja o último de um poeta com mais de oitenta anos de idade. O primeiro poema do livro, Dedicado a Ti, Emmanuel, faz referência a isso''.

Que não seja o último volume de poesias do autor - e seja editado também no Brasil - porque, como escreve Fábio Lucas, ''Poente é um prodígio. Uma construção. A arquitetura de signos gerados entre a noite e a manhã.''

Signos esses nascidos na ''noite escura e profunda da alma'', onde são sempre três horas da madrugada'', como nos ensinou tão bem Scott Fitzgerald. Citação que acompanhou Japiassu a vida toda, diz ele, e que pode ser também a nossa companhia na próxima passagem para um ano repleto de expectativas, tensões, esperanças e resgates, de drásticas transformações e de fé.





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