Leituras

Notas de Leitura 7 - O teatro político e social do Grupo Decisão (1963-1967)

Obra traz história do grupo fundado por Antonio Abujamra, Sérgio Mamberti, Antonio Ghigonetto, Berta Zemel, Lauro César Muniz, Emílio de Biasi e Wolney de Assis, em março de 1963

15/10/2021 12:59

Grupo Decisão

Créditos da foto: Grupo Decisão

 
Estamos todos órfãos de Sérgio Mamberti e para aplacar a saudade, nós conversamos com o ator e professor de Artes Cênicas, Luiz Campos, que lança Grupo Decisão: o grupo político teatral paulistano que estava entre o Teatro de Arena e o Teatro Oficina (Paco, 2021) sobre a companhia de teatro fundada, em março de 1963, por Antonio Abujamra, Sérgio Mamberti, Antonio Ghigonetto, Berta Zemel, Lauro César Muniz, Emílio de Biasi e Wolney de Assis.

Com dez peças encenadas entre 1963 e 1967, o Grupo Decisão se tornou referência no enfrentamento à ditadura militar, reunindo talentos recém-saídos do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e da Escola de Artes Dramáticas (EAD) e os que despontavam no circuito dos festivais de teatro, que agitavam a vida cultural e política no país. Entre eles, Antônio Ghigonetto (em pé, na imagem acima) que anos mais tarde influenciaria Campos a  pesquisar sobre o Grupo. Quando o ator faleceu aos 82 anos, em 2010, eles estavam produzindo uma peça juntos.

Em Ghigonetto, um homem de teatro (Giostri, 2016), seu primeiro livro, Campos conta sobre essas conversas. Agora, em Grupo Decisão: o grupo político teatral paulistano que estava entre o Teatro de Arena e o Teatro Oficina, ele publica sua pesquisa de mestrado em Artes Cênicas (UFSJ, 2019). Voltada à reconstituição da memória histórica do coletivo teatral, a partir da reunião de documentos até então dispersos, a obra situa o Grupo Decisão dentro do panorama do teatro nacional. Quem eram esses jovens? De onde vieram? Que teatro pretenderam? Quais peças encenaram? Como foram recebidos?

Perguntas que Campos reconstitui a partir de entrevistas com os protagonistas dessa história como Mamberti, Lauro César, Ghigonetto entre outros; de fontes históricas, fotografias, recortes de época, ele inclusive organiza as fichas técnicas de cada uma das peças, seguidas de breve síntese e análise. Dedica ainda um capítulo à análise do primeiro espetáculo Sorocaba, Senhor! e de sua proposta política e estética.

“Já no ano de 1962, deu-se a aproximação do grupo com sindicatos, grupos estudantis e classe trabalhadora paulistana com leituras e consultas públicas com temas variados a fim de atender a necessidade e democratizar o acesso à cultura teatral”, conta. 

Acompanhe a entrevista.

Luiz, localiza para nós o Grupo Decisão no tempo e no espaço? Sempre falamos da fervura cultural dos anos 1960, mas as coisas já estão acontecendo nos anos1950...

Luiz Campos (foto) – 1948. A Escola de Artes Dramáticas (EAD) e o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), estratégicos para a profissionalização do teatro em São Paulo, surgem nesse ano. E como pioneiros, eles vão provocar críticas de outros grupos que surgirão depois, o Teatro de Arena (1953), o Teatro Oficina (1958), o próprio Grupo Decisão (1963) entre outros.

Grosso modo, EAD e TBC eram a tradição, o pensamento hegemônico. A EAD seguia a linha francesa; e no TBC, você tinha teatro “brasileiro” de comédia com textos e diretores estrangeiros. Entre 1948 e 1963, dos 114 espetáculos do TBC, somente 25 foram dramaturgia nacional. É contra essa “síndrome do colonizado” que se insurge o Teatro de Arena. Também contra o elitismo. No TBC, o público ia de terno e gravata. Criado por ex-alunos da EAD que, percebendo isso, decidiram levar o teatro aos que não tinham teatro, o Teatro de Arena foi levar o teatro para escola pública, sindicato, movimentos, igrejas, praças. E consolidou uma prática que nós ainda temos. É esse o teatro que vai inspirar, profundamente, o Grupo Decisão e até hoje inspira muita gente.

E é interessante pensar, porque se trata do retorno a um teatro que sempre existiu. O teatro nasce na rua e não dentro de uma sala chamada “teatro”. Foi depois que o teatro foi capitalizado pelas elites, que o prenderam dentro do palácio, e ai de quem encenasse nas ruas... Eu faço teatro de grupo há quase 15 anos, e quando você leva o teatro, por exemplo, para a escola, ela pode se tornar uma porta de entrada de muitos jovens neste universo.


Apresentação da Cia. Los Puercos , dirigida por Campos, na Escola Estadual Quintiliano Jardim (Uberaba/MG). Saiba mais sobre a Cia. e os acompanhe pelo Instagram.

Então, essa militância que a gente herda, essa necessidade de popularização da nossa arte, o Teatro de Arena tinha como missão. E ele se preocupava em formar politicamente as pessoas. Neste sentido, era um teatro que encenava temas que interessavam às pessoas. Um teatro que denuncia a violência, as desigualdades, as injustiças. Augusto Boal, Chico de Assis, Zé Renato, Gianfrancesco Guarnieri vão marcar oposição cerrada ao TBC, trazendo brasileiros para dirigir, atuar e escrever peças sobre os problemas nacionais. E, nesse movimento, em 1958, eles estouram com Eles não usam black-tie, com texto do Guarnieri e direção do Zé Renato. Uma peça que traz o povo e os problemas do povo, da classe trabalhadora, para o centro do palco.


Lélia Abramo e Gianfracesco Guarnieri em Eles não usam black-tie. (Imagem republicada do site O Patativa)

Até então predominava Shakespeare, Molière, Tchekhov, Ibsen e outros tantos estrangeiros que, naturalmente, são clássicos, mas era preciso falar sobre o Brasil. Agora, quando o Boal quis fazer suas experimentações com o método Stanislavski, não foi somente no Teatro de Arena, mas sim no Teatro Oficina, que também tinha uma crítica social e uma posição política forte, mas ele era muito mais reconhecido pela exploração estética, a novas experimentações da linguagem, muito presente naquele momento.

Em termos de linguagem, de método, o que predomina?

Luiz Campos – O Brecht chega por aqui depois da ascensão nazista, nos anos 1950 já. E é um teatro muito político, o chamado teatro épico, que busca se contrapor ao realismo do Stanislavski, que buscava uma dramaturgia mais próxima possível do real. O TBC seguia essa linha realista, com cenários ou ambientações ilusórias. E o teatro épico quebrava com o realismo, criando o distanciamento nas suas ações. O teatro do Brecht sempre te lembra que aquilo - o espetáculo - não é realidade, que tem algo por trás, fazendo com que seu público reaja criticamente e tome uma posição. Ele vai problematizar o real, a consciência de classe, a luta contra a tirania, o direito à liberdade. Dogville do Lars Von Trier é um bom exemplo. Você tem aquele cenário todo riscado no chão, as marcações expostas, você sabe que aquilo é uma encenação.


Cenário de Dogville

Os grupos que surgem em oposição ao TBC e a EAD vão testando esses modelos e há outras experimentações. No Grupo Decisão, o Brecht predomina e daí a má vontade da crítica, tem esse componente político implícito e um pensamento de encenações avançado para época.

Você não só estuda teatro político, mas faz teatro político com a Cia. Los Puercos. Como teu objeto de pesquisa e o teatro que você pratica se encontraram?

Luiz Campos – Elas se encontram primeiro nas conversas que eu tive com o Ghigonetto, em Santos. Meu mestrado que, em síntese, busca uma recuperação histórica do Grupo Decisão, começa com as histórias dele. Quando eu cheguei em São Paulo, eu perguntava se a pessoa conhecia o Ghigonetto, e todos mandavam-lhe um beijo. Aí eu contava que ele havia falecido, em 2010, bastante isolado, e as pessoas ficavam chocadas. A nossa profissão está cheia de casos assim. Já o trabalho que realizo com a Cia. Los Puercos se encontra frequentemente, pois realizamos esse teatro épico brechtiano, de conscientização de classe.

O que eu e tanta gente vem fazendo, em um imenso trabalho de formiguinha, é recuperar essas histórias. Eu quero que as pessoas saibam que existiu o Grupo Decisão, e que ainda existe diversos outros coletivos semelhantes, fazendo coisas incríveis, como por exemplo o Teatro Popular União e Olho Vivo (TUOV), um dos mais antigos grupos de teatro popular em atividade do nosso país. Quero porque a gente sabe que tem um propósito em curso de se colocar essa história no esquecimento, esses coletivos à margem. Um projeto de sabotagem da cultura!

Alguns alunos meus não sabem quem foi Cacilda Becker, Procópio Ferreira, Antonio Abujamra, Grupo Decisão, TUOV. E se a gente não realizar esse trabalho de formiguinha, quem vai fazer?

Você recupera peça por peça, e faz uma síntese já relacionando com o diálogo implícito entre a peça e a conjuntura política...


Levantamento de todas as peças do Grupo Decisão

Luiz Campos – Eles estreiam em março de 1963, e o Abujamra foi criticado porque as pessoas diziam que ele estava exagerando ao colocar tortura, pau-de-arara, no centro do palco. Não estava, nós saberíamos depois...

Sorocaba, senhor! era uma adaptação de Fuenteovejuna (1612-1614), obra-prima do dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635), sobre o assassinato de um tirano pelo povo. Ao adaptar a cidade Fuenteovejuna (Castilha) para Sorocaba, Abujamra fazia que as personagens, quando questionadas pela polícia sobre quem matou o tirano, respondessem “Sorocaba, senhor”. Ou seja, por todos da cidade. E ele ainda deixava o julgamento em aberto, sem a sentença, para que o público levasse tal questão para casa.

Em seguida, eles montaram duas peças de Brecht: Terror e miséria do III Reich, escrita em plena ascensão nazista, entre 1935 e 1938; e Os fuzis da senhora Carrar, de 1937, sobre a questão do posicionamento político. A sra. Carrar não quer entregar os filhos para a guerra, apesar das atrocidades em curso. As três peças em 1963.



O Serginho [Mamberti] dizia que eles estavam prevendo o golpe. Quando o golpe chega, em 1964, eles estavam em Porto Alegre, prestes a encenar O Inoportuno, mas aí não tem peça. Eles correm para a praça, onde Brizola resistia e convocava as pessoas para a Campanha da Legalidade.

Agora, apesar de O Inoportuno de Harold Pinter, um texto mais subjetivo, ter sido premiado, o Grupo estourou com Electra, em 1965, com direção do Abujamra. E a peça ficou ainda mais famosa, principalmente pela classe artística, porque dias antes da estreia, a atriz Isolda Cresta havia lido publicamente um manifesto, em nome do coletivo, posicionando-se contra o envio de tropas brasileiras para a destituição do governo da República Dominicana.

Nós estamos em plena Guerra Fria, e num momento em que a polícia ou os grupos fascistas invadem teatros, batem nos atores, assustam as pessoas; e a Isolda, por conta da leitura do manifesto, é presa e levada para o DOPS. Resultado: a classe artística em peso vai, em solidariedade, até a delegacia para pressionar para a soltura da atriz. Em meio ao desespero, acontece o episódio hilário do Sófocles.

Nas palavras de Isolda Cresta:

Começou o célebre interrogatório: nome, endereço, filiação e nome da peça que estava fazendo. Respondi: Electra. Pergunta: Quem é o autor da peça? Resposta: Sófocles. Pergunta: Brasileiro? Resposta: Não, grego. Pergunta: Está na Grécia agora? Resposta: Não sei. Pergunta: Veio ao Brasil para a inauguração da peça? Resposta: Não me lembro. Pergunta: Memória fraca a sua, moça. Agora, vê se responde a essa pergunta direito porque é importante para a gente, e acho bom a senhora dizer a verdade. Resposta: Sim, senhor. Pergunta: Esse tal de Sófocles é comunista? Resposta: Ah, meu senhor, eu não sei, pode até ser. Era terrível e engraçado ao mesmo tempo, eu é que não ia dizer que Sófocles tinha escrito Electra há mais de dois mil anos antes de Cristo. Vi que mandaram um bando de policiais prender o Sófocles, aí eu me senti mais forte. E prosseguiram com as perguntas: quem era comunista na classe teatral? Quem era, quem era? Engrossaram e fizeram ameaças, eu nunca mais trabalharia no teatro se não falasse... (trecho de Isolda Cresta: Zozô vulcão - Imprensa Oficial, 2009).

Perguntas absolutamente cabíveis na fala do Bolsonaro.

Luiz Campos – Totalmente. Esse é o nível. Você querer prender Sófocles é uma piada, mas ao mesmo tempo diz muito sobre o que aconteceu com o militarismo brasileiro.

O Mamberti contando essa história era muito bom também. Aliás, ao longo do livro, a gente observa como essa formação política no Grupo Decisão permaneceu firme em algumas figuras. Nas últimas peças do Mamberti, tinha sempre aquela conversa com a plateia no final, e lá estava ele, com uma paciência: “o que vocês acharam da peça?”...

Luiz Campos –
O Serginho sempre se posicionou, e foi de uma coerência política muito grande. E a gente hoje sabe o quanto isso é importante e necessário, sobretudo, o posicionamento dessas figuras de grande apelo popular. E muita gente se calou em 2016, quando do golpe da Dilma. Ele estava lá e nos carregou junto. Ele também sempre foi muito solidário com a luta do teatro de grupo.

O teatro continua acontecendo e ele acontece nas ruas, nos teatros, nas escolas – ou acontecia, antes da pandemia –, e a gente vai precisar muito de público agora. De leis de incentivo e do circuito público ou semipúblico (SESC, SESI, centros culturais), mas também do circuito dos movimentos sociais e populares que nos acolhe e nos permite resistir de mãos dadas, porque quem está com a mão na massa, fazendo teatro, está vendo a sabotagem contra a cultura que estamos vivendo; mas está vendo também a resistência, porque o Teatro resiste e sempre resistirá.


Primeira reunião do Grupo Decisão. Em pé: Antonio Ghigonetto e Belinha Abujamra. Sentados (da esquerda para direita): Lauro César Muniz, Emílio Di Biasi, Wolney de Assis, Berta Zemel, Sérgio Mamberti e Antonio Abujamra. De costas: não identificado.


 
Luiz Campos

Grupo Decisão:
O grupo político teatral paulistano que estava entre o Teatro de Arena e o Teatro Oficina
Paco, 2021
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Confira também:

Ghigonetto, um homem de teatro (Giostri, 2016)


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Tatiana Carlotti escreve para as editorias de Arte-Literatura / Arte-Leituras de Carta Maior. É graduada em história, mestre em crítica literária e doutora em linguística. tcarlotti@gmail.com .


Leia também: Notas de Leitura 6: "Paulo Freire: a prática da liberdade, para além da alfabetização" 





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