Leituras

Uma só Cuba e vários destinos

Lançado em português, novo livro de Leonardo Padura tem o título lírico de 'Como poeira ao vento' e é o romance de uma geração histórica

29/11/2021 16:43

 

 
Em 2015, um dos autores contemporâneos mais admirados e mais lidos de língua latino-americana, o cubano Leonardo Padura comentou conosco, em entrevista publicada em Carta Maior, que ''o ódio é um elemento próprio da condição humana, bem próximo da inveja''. No ano passado, numa segunda conversa que tivemos com Padura, ele se referiu a esse ódio crescente, como sendo um dos produtos da ''crise estrutural do capitalismo, o grande vencedor da luta política do século 20''.

Agora, por ocasião do lançamento em português de mais um dos seus excelentes romances, Como poeira ao vento (Boitempo, 542 páginas), Padura assesta suas baterias para uma outra chaga do mundo contemporâneo: as diásporas forçadas de populações nos quatro cantos do mundo. Dos fugitivos da miséria e da fome ocasionadas pelas guerras e sanções econômicas criminosas das grandes potências, e, em particular, de parte da população da sua Cuba insular que, no caso, como que continua cumprindo um destino histórico.

Como polvo en el viento ''é uma novela sobre a diáspora da minha geração'', diz ele, '' e sobre a perda de ilusões e de fé, a busca de outras ilusões e de outras crenças, e sobre a permanência e a distância''.

Nas três semanas seguintes ao lançamento o livro ocupou os primeiros lugares de vendas na Espanha e na Argentina. Teve críticas positivas e recebe bons comentários dos leitores. Lançado também na França, foi um dos indicados este ano ao Prix Médicis Étranger, prêmio de prestígio concedido a romances estrangeiros. Segundo a designação, trata-se de ''uma leitura deslumbrante, um retrato humano comovente, outra obra-prima de Leonardo Padura''.

Com os acontecimentos deste ano, os protestos públicos em Havana e nas principais cidades cubanas, Padura voltou a se pronunciar em um texto importante, escrito em sua casa, no bairro de Mantilla, na capital, onde nasceu e vive com a família, e publicado em Carta Maior, em 15 de julho deste ano.

Para ele, os protestos foram ''um grito fruto do desespero de uma sociedade que atravessa não só uma longa crise econômica e uma crise pontual de saúde, mas também uma crise de confiança e uma perda de expectativas''.

''Também acredito que qualquer cubano dentro ou fora da ilha sabe que o bloqueio, ou embargo comercial e financeiro dos Estados Unidos, como queiram chamá-lo, é real e se internacionalizou e intensificou nos últimos anos. E é um fardo muito pesado para a economia cubana (como seria para qualquer outra economia)''.

''Parece bem possível que tudo o que aconteceu em Cuba desde o último domingo, 11 de julho, tenha sido encorajado por um maior ou menor número de pessoas contrárias ao sistema, algumas delas até mesmo pagas, com o objetivo de desestabilizar o país e causar uma situação de caos e insegurança''.

Ambas, a questão do exílio, tema onipresente para os conterrâneos do escritor, e os protestos deste ano nas ruas de cidades cubanas tornam o novo livro especialmente relevante. Note-se que desde 1959, ano da Revolução Cubana, mais de um milhão de pessoas deixaram a ilha; número expandido pelos descendentes nascidos em outros países.

O romance de Padura é a história de uma Cuba e de muitos destinos. ''O exílio'', diz ele, ''é um tema com frequência utilizado na literatura cubana. Porque, sem dúvida, o exílio implica em traumas e foi um drama que marcou a história de Cuba desde nossas origens nacionais, como já mencionei em O romance da minha vida''.

Para o próprio Padura, inclusive, O romance da minha vida é o seu livro principal - e não o excelente O homem que amava os cachorros com o qual foi projetado internacionalmente.

Com escrita modulada pelo romance policial, gênero no qual ele é brilhante, e ''pai'' do célebre detetive Mario Conde, protagonista da maioria de seus romances (traduzidos para quinze países), essa saga de uma geração registra as difíceis circunstâncias que hoje abatem e tornam exausto o povo cubano.

Os personagens são todos vindos de um grupo de amigos na juventude - o ''Clã' -, que viveram plenamente a revolução socialista. Uns se exilaram nos Estados Unidos há mais de meio século. Outros, descendentes desses ou de pais que permaneceram no país, procuraram e continuam buscando novos horizontes. Ou não. Mas todos, ao se reencontrarem nas mais diversas circunstâncias e situações, seja por obra do acaso (?) ou não, acabam acertando contas consigo mesmos e com os demais, procurando desse modo iluminar aspectos de suas vidas que permaneciam nas sombras e as quais, por serem complexas e contraditórias eram até então inexplicáveis.

O sentimento do pertencimento às origens, fundamental para Padura, e que perpassa com destaque toda a sua obra - sentimento onipresente entre os altivos cubanos -, neste novo livro é mais intenso ainda e funciona como um dos eixos principais da história que envolve culpa, frustração, adaptação (ou não) cultural e nostalgia.

A Editora Boitempo apresenta aos seus leitores a chave para abrir o relato de Como polvo en el viento, a espinha dorsal da narrativa:

''O dia começa mal para Adela, jovem nova-iorquina de ascendência cubana, quando ela recebe uma ligação de sua mãe, que não está contente com as escolhas que a filha, que fez de se mudar para Miami e viver com Marcos, um jovem cubano recém-chegado aos Estados Unidos''.

''Marcos conta a Adela histórias de sua infância na ilha, em meio ao Clã de amigos de seus pais, e lhe mostra uma foto da última refeição que o grupo teve 25 anos antes, quando ele era criança.

Surpreendentemente, Adela descobre alguém familiar entre os rostos. E perde o chão''.

''Como poeira ao vento é a história desse Clã que sobreviveu ao exílio e à dispersão. O que aconteceu aos que partiram e aos que decidiram ficar? Como o tempo os transformou? O magnetismo do sentimento de pertencer e a força do afeto os aproximará novamente? Ou a vida deles agora é apenas poeira ao vento''?

Na entrevista que nos concedeu, ano passado, o romancista, ensaísta, jornalista e autor de roteiros para cinema que agora vai para os seus 66 anos de idade comentou sobre os cubanos que moram na Flórida e votaram em Trump.

"Não, não fiquei surpreso'', ele responde. ''Mas não quero julgá-los. Eu gostaria de entendê-los. Não porque sejam trumpistas, mas porque não consigo entender que qualquer pessoa (exceto Trump) possa ser trumpista. Um homem que faz aquele gesto de desprezo por tudo e por todos com a boca... Como admirar alguém assim? Não, juro que não entendo''...

Esperamos que o homem tenha se transformado em definitivo numa pequena porção de poeira ao vento. Como o daqui também.



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