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Ainda não existem líderes climáticos verdadeiros - quem dará o passo à frente no Cop26?

Como outras nações ricas, o Reino Unido fala mais do faz sobre a crise climática. Algo precisa mudar em Glasgow

22/10/2021 16:49

Uma plataforma de petróleo no Mar do Norte (Reuters)

Créditos da foto: Uma plataforma de petróleo no Mar do Norte (Reuters)

 
António Guterres, secretário geral da ONU, chamou o recente relatório do IPCC sobre a crise climática de “código vermelho” para a humanidade. “Estamos à beira do abismo”, ele disse.

Você pode pensar que essas palavras soam algum tipo de alarme na nossa sociedade. Mas, como muitas vezes antes, isso não aconteceu. A negação das crises climática e ecológica é tão enraizada que, dificilmente, qualquer pessoa presta atenção. Já que ninguém trata a crise como uma crise, os alertas existenciais continuam a se afogar em uma maré constante de “maquiagem verde” e um fluxo diários de notícias.

E, ainda assim, há esperança, mas ela começa com a honestidade.

Porque a ciência não mente. Os fatos são evidentes, mas nós nos recusamos a aceitá-los. Nos recusamos a reconhecer que agora temos que escolher entre salvar o planeta vivo ou salvar nosso estilo de vida não sustentável. Porque queremos ambos. Exigimos ambos.

Mas a verdade inquestionável é que está muito tarde para isso. E não importa quão desconfortável essa realidade pareça, é exatamente ela que os nossos líderes escolheram para nós com suas décadas de inação. Suas décadas de blá, blá, blá.

A ciência não mente. Se quisermos ficar abaixo das metas estabelecidas no acordo de Paris de 2015 – e, com isso, minimizar os riscos de iniciar uma cadeia irreversível de reações que vão além do controle humano – precisamos de reduções imediatas, drásticas e anuais sem precedentes. E já que não temos as soluções tecnológicas que sozinhas fariam algo parecido com isso no futuro próximo, significa que temos que realizar mudanças fundamentais na nossa sociedade.

No momento estamos caminhando em direção a um mundo 2.7C mais quente até o final do século – e isso só se os países alcançarem todas as promessas que fizeram. Atualmente não estão nem perto disso. Estamos “anos luz de distância de alcançar nossas metas de ação climática”, novamente citando Guterres.

Na realidade, estamos acelerando na direção errada. É esperado que 2021 experiencie o segundo maior aumento de emissões já registrado, e é esperado que as emissões aumentem em 16% até 2030 em comparação com níveis de 2010. De acordo com a Agência Internacional de Energia, somente 2% dos gastos de recuperação “construir novamente melhor” foram investidos em energia limpa, enquanto, ao mesmo tempo, a produção e a queima de carvão, petróleo e gás foi subsidiada em 5.9 trilhões de dólares somente em 2020. A produção global planejada de combustíveis fósseis no ano de 2030 representará mais que o dobro da quantidade que seria consistente com a meta de 1.5C. Esse é o jeito da ciência de nos dizer que não podemos alcançar nossas metas sem uma mudança no sistema. Porque fazer isso exigiria rasgar contratos e abandonar acordos a níveis inimagináveis – algo que simplesmente não é possível dentro do nosso atual sistema.

Em suma, estamos fracassando totalmente para até mesmo alcançar metas que são completamente insuficientes em primeiro lugar. E essa não é a pior parte. No meu próprio país, Suécia, uma investigação recentemente concluiu que ao incluir todas as atuais emissões do país (territoriais, biogênicas, de consumo de bens importados, da queima de biomassa, de investimentos de fundos de pensão, e por aí vai), somente um terço do total líquido está presente nas metas climáticas do país. É sensato presumir que esse não é um fenômeno exclusivamente sueco.

Certamente o primeiro passo para abordar a crise climática deveria ser incluir todas as nossas emissões atuais nas estatísticas, de modo a obter uma visão geral holística. Isso nos permitiria avaliar a situação e começar a fazer as mudanças necessárias. Mas essa abordagem não foi adotada – ou mesmo proposta – por nenhum líder global. Ao invés, todos se viram para táticas de comunicação e PR de modo a parecer que estão agindo.

Um exemplo de praxe é o Reino Unido – uma nação que está atualmente produzindo 570 milhões de barris de petróleo e gás todo ano. Uma nação com outros 4.4 bilhões de barris de reservas de petróleo e gás a serem extraídos da estante continental. Uma nação que também está entre as dez maiores emissoras da história. Nossas emissões ficam na atmosfera por até mil anos e já emitimos cerca de 89% do orçamento de CO2, o que nos dá uma chance de 66% de ficar abaixo dos 1.5C. É por isso que as emissões históricas e o aspecto da equidade representam 90% de toda a crise.

Entre 1990 e 2016, o Reino Unido reduziu suas emissões territoriais em 41%. No entanto, ao incluir toda a escala de emissões do país – como o consumo de bens importados, aviação internacional e fretamento – a redução fica em 15%. E isso sem mencionar a queima de biomassa, como a usina Drax Selby – a chamada usina de energia “renovável” altamente subsidiada, que é, de acordo com análises, a maior emissora de CO2 do país e a terceira maior em toda a Europa. E, ainda assim, o governo ainda considera o Reino Unido como líder climático global.

O Reino Unido está, certamente, longe de ser o único país que depende de tal contabilização criativa. Essa é a norma. A China, atualmente de longe a maior emissora global de CO2, está planejando construir 43 novas usinas de energia movidas à carvão, além das 1.000 usinas já em operação – enquanto também alega ser uma “desbravadora” ecológica comprometida a deixar um “mundo bonito e limpo para as futuras gerações”. Ou vejamos a nova administração estadunidense, afirmando “ouvir a...ciência” mesmo tendo anunciado recentemente planos de abrir milhões de acres para petróleo e gás que poderiam resultar na produção de até 1.1 bilhões de barris de petróleo cru e 4.4 toneladas cúbicas de gás fóssil. Ser de longe o maior emissor na história, assim como o produtor global número um de petróleo, não parece envergonhar os EUA enquanto afirmam ser um líder climático.

A verdade é que não existem líderes climáticos. Ao menos não entre as nações de alta renda. O nível de conscientização pública e a pressão sem precedentes da imprensa que seriam exigidas para qualquer liderança real aparecer ainda é basicamente não existente.

A ciência não mente, nem nos diz o que fazer. Mas nos dá uma imagem do que é preciso ser feito. Estamos, é claro, livres para ignorar essa imagem e permanecer em negação. Ou continuar nos escondendo por trás de contabilizações espertas, brechas e estatísticas incompetentes. Como se a atmosfera se importasse com números. Como se pudéssemos argumentar com leis da física.

Como observou Jim Skea, cientista do IPCC: “limitar o aquecimento a 1.5C é possível dentro das leis da química e da física, mas fazer isso exigiria mudanças sem precedentes”. Para a Cop26 em Glasgow ser um sucesso, muitas coisas serão necessárias. Mas acima de tudo precisaremos de honestidade, solidariedade e coragem.

A emergência climática e ecológica é, é claro, somente um sintoma de uma crise de sustentabilidade muito maior. Uma crise social. Uma crise de desigualdade que remonta ao colonialismo e além. Uma crise baseada na ideia de que algumas pessoas valem mais do que outras e, por isso, têm o direito de explorar e roubar outras terras e recursos. Está tudo interligado. É uma crise de sustentabilidade que todos se beneficiariam se fosse atacada. Mas é ingênuo pensar que poderíamos resolver essa crise sem confrontar suas raízes.

As coisas podem parecer muito obscuras, e tendo em vista a vastidão de relatórios e incidentes crescentes, o sentimento de desespero é mais do que compreensível. Mas precisamos nos lembrar de que ainda podemos dar uma reviravolta. É completamente possível se estivermos preparados para mudar.

A esperança está em todo lugar. Porque tudo o que seria necessário seria um líder global ou uma nação de alta renda ou um grande canal televisivo ou um jornal importante que decida ser honesto, realmente tratar a crise climática como a crise que realmente é. Um líder que conte todos os números – e então aja bravamente para reduzir emissões no ritmo e na escala que a ciência exige. Então tudo poderia ser direcionado para a ação direta, esperança, propósito e significado.

A hora está passando. Conferências continuam acontecendo. Emissões continuam crescendo. Quem será esse líder?

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares 



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