Mãe Terra

Cop26 tem que ser sobre manter os combustíveis fósseis no subsolo. Todo o resto é distração.

Os acenos e a complexidade obscurecem uma simples verdade: os Estados-nação devem parar de financiar as indústrias sujas

10/11/2021 14:56

A mina de linhita Garzweiler a céu aberto, oeste da Alemanha (Ina Fassbender/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: A mina de linhita Garzweiler a céu aberto, oeste da Alemanha (Ina Fassbender/AFP/Getty Images)

 
Em alguns aspectos, evitar o colapso climático é algo incrivelmente complicado. Mas em outros, é realmente simples: temos que deixar os combustíveis fósseis no subsolo. Toda a grandiloquência e arrogância, as promessas extravagantes e os mecanismos detalhados discutidos em Glasgow, não representam nada se essa coisa óbvia e simples não acontecer.

Um estudo recente na revista científica Nature sugere que para termos 50% de chance de evitar um aquecimento global de mais de 1.5C, precisaremos aposentar 89% das comprovadas reservas de carvão, 58% das reservas de petróleo e 59% das reservas de metano fóssil (gás natural). Se quisermos ter chances melhores do que 50-50, precisaremos deixar quase todas elas inalteradas.

Ainda assim, a maioria dos governos que detêm as reservas mais importantes está determinada a fazer a escolha errada. Como mostra o último relatório sobre lacuna de produção da ONU e de pesquisadores acadêmicos: nas próximas duas décadas, a não ser que haja uma mudança rápida e drástica na política, é provável que o carvão entre em um breve declínio, mas a produção de gás e petróleo continuarão a crescer. Em 2030, os governos estão planejando extrair 110% a mais de combustíveis fósseis do que foi prometido no acordo de Paris (“limitar o aumento da temperatura para 1.5C acima dos níveis pré-industriais”).

Mesmo as nações que alegam estar liderando a transição, pretendem continuar perfurando o solo. Nos EUA, Joe Biden prometeu pausar todas as novas concessões para petróleo e gás em terras públicas e em águas offshore. Seu governo foi processado por 14 estados Republicanos. Embora os ativistas climáticos argumentem que Biden possui muitas outras ferramentas para impedir que tais concessões sejam liberadas, ele se dobrou imediatamente, e seu governo iniciou agora o processo de leiloar os direitos para a perfuração “drill” em águas alasquianas e no Golfo do México. É justamente o tipo de fraqueza que os Republicanos estavam esperando explorar.

A Alemanha prometeu parar gradualmente a produção de carvão até 2038 (muito tarde). Mesmo assim, ainda está desenvolvendo novos depósitos. Por exemplo, o vilarejo de Lützerath em Rhine-Westfalia do Norte, que está em cima de um filão grosso do tipo mais imundo de carvão – o lenhite – está atualmente sendo destruído. Mas se a Alemanha seguir sua própria regra, a mina terá que ser abandonada antes que chegue na produção total. Então, ou as casas e as florestas estão sendo destruídas sem motivo, ou o governo alemão não pretender honrar com a sua promessa.

No Reino Unido, o governo ainda insiste no que chama de “maximizar a recuperação econômica” do petróleo e do gás. No ano passado, ofereceu 113 novas licenças para explorar reservas offshore. Busca, pelo menos, dobrar a quantidade de combustíveis fósseis que já estão sendo explorados aqui.

Cada discurso, promessa e gesto em Glasgow é uma brisa, em comparação com os fatos concretos sobre novas minas de carvão, e campos de petróleo e gás. É a mineração e a perfuração que contam: o resto é distração.

Mas a distração é um grande negócio. As corporações petrolíferas gastaram muitos milhões de dólares em propagandas, memes e filmes para nos convencer de que se tornaram verdes. Mas o último relatório sobre o assunto feito pela Agência Internacional de Energia revela que em 2020 “os investimentos em energia limpa pelas indústrias de petróleo e gás representaram somente 1% dos seus gastos capitais totais”.

Desde o acordo de Paris em 2015, os 60 maiores bancos do mundo despejaram 3.8 trilhões de dólares nas empresas de combustível fóssil. Pessoas em nações ricas buscam culpar o colapso climático na Índia ou na China, que continua a desenvolver novas usinas movidas a carvão. Mas estimados 40% das “emissões de carbono esperadas” para as plantas de carvão asiáticas amostradas por pesquisadores, podem ser atribuídas a bancos e investidores na Europa e nos EUA. Mesmo se a culpa fosse proporcionada por nacionalidade – uma noção absurda em um mundo onde o dinheiro se movimenta livremente e o poder é exercido além das fronteiras – não poderíamos nos desvincular dessas decisões.

É raro ver um projeto de combustível fóssil na Terra que não tenha sido facilitado por dinheiro público. Em 2020, de acordo com o FMI, os governos gastaram 450 bilhões de dólares em subsídios diretos para a indústria de combustível fóssil. O FMI estabelece em 5.5 trilhões de dólares os outros custos que a indústria impõe sobre nós – poluição, destruição e caos climático. Mas eu acho que tais números não significam nada: dólares não compreendem a perda de vida humana e a destruição de ecossistemas, quem dirá a perspectiva do colapso ambiental sistêmico. Uma a cada cinco mortes, de acordo com uma recente estimativa, é agora causada pela poluição movida pelos combustíveis fósseis.

As corporações de financiamento público ainda estão jorrando dinheiro no carvão, petróleo e gás: nos últimos três anos, governos do G20 e bancos de desenvolvimento multinacionais gastaram duas vezes mais dinheiro no financiamento internacional de combustíveis fósseis do que no de energia renovável. 93% das usinas movidas a carvão do mundo são protegidas contra as forças do mercado por contratos governamentais especiais e tarifas não competitivas. O Reino Unido reduziu o imposto de renda sobre o petróleo para empresas que estão perfurando (“drilling”) para zero. Como resultado, é provável que os nossos campos de petróleo logo custem mais do que ganham. Para quê?

Por apenas 161 bilhões de dólares – uma fração do dinheiro que os governos gastam apoiando combustíveis fósseis – eles poderiam comprar e fechar todas as usinas movidas a carvão da Terra. Se fizessem isso como parte de uma transição justa, criariam mais empregos do que destruiriam. Por exemplo, pesquisas da “Oil Change International” sugerem que o Reino Unido poderia gerar três empregos em energia limpa para cada um emprego perdido nas indústrias de petróleo e gás.

Tudo sobre a relação entre Estados-nação e a indústria de combustível fóssil é perverso, estúpido e auto-destrutivo. Pelo bem dos lucros e dividendos dessa indústria suja – concentrados esmagadoramente entre um pequeno número de pessoas no mundo – os governos nos conduzem para a catástrofe.

Em todo o mundo, as pessoas estão se mobilizando para mudar isso, e suas vozes precisam ser ouvidas. A campanha para criar um tratado de não proliferação de combustíveis fósseis reuniu assinaturas de milhares de cientistas e mais de 100 laureados do Nobel. A organização Europa Além do Carvão está reunindo movimentos ao redor do continente para impedir novas minas e fechar minas existentes. Os governos visionários da Dinamarca e da Costa Rica fundaram a Aliança Além do Petróleo e do Gás. Deveríamos pressionar os nossos governos a se unirem a ela.

E sim, é realmente simples assim. Temos a tecnologia exigida para substituir os combustíveis fósseis. Temos muito dinheiro, que está atualmente sendo gasto na destruição da vida na Terra. A transição poderia acontecer em meses, se os governos quisessem. A única coisa que está no meio do caminho é o poder das indústrias tradicionais e das pessoas que lucram com elas. É isso que precisa ser derrubado. Os acenos, a complexidade, a distração grandiloquente em Glasgow são projetados acima de tudo por um motivo: não para acelerar essa transição, mas para frustrá-la.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

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