Memória

A ruptura de 1961: a mobilização popular ''destroçou'' o golpe

O jornalista e escritor Flávio Tavares, testemunha privilegiada do Movimento da Legalidade, reforça que o golpe de estado contra a posse de Jango foi ''destroçado'' pela mobilização popular, fato nunca ocorrido no Brasil

08/09/2021 16:35

Brizola discursava no rádio em 1961 (Reprodução/Portal Memória Brasileira)

Créditos da foto: Brizola discursava no rádio em 1961 (Reprodução/Portal Memória Brasileira)

 
Foram treze dias de altíssima tensão entre a renúncia do presidente Jânio Quadros e a posse do vice-presidente João Goulart. Ministros militares tramaram o golpe para impedir a posse de Jango. Os governadores, à exceção de Leonel Brizola, do Rio Grande do Sul, aceitaram.

A resistência e a mobilização lideradas pelo governador gaúcho são descritas pelo jornalista e escritor Flávio Tavares em seu livro 1961: O golpe derrotado. A resenha da revista Le Monde Diplomatique Brasil aponta que:

“Além da perfeita contextualização dos acontecimentos, ele revela as ações astuciosas de Brizola para reagir ao cerco do Rio do Grande do Sul, desde a utilização do rádio para exortar a população a resistir até a emissão de dinheiro pelo governo estadual, passando pela formação de comitês de mobilização da cidadania em Porto Alegre e pela obtenção de combustível junto ao governo do Uruguai.”

Flávio Tavares, em sua participação no documentário Rupturas, publicado por Carta Maior, em 31 de agosto, por ocasião dos cinco anos do golpe de 2016, nos conta que:

“O movimento da legalidade que completa agora 60 anos, foi a maior mobilização de massas do século XX, ou pelo menos da 2a metade do século XX. Vivíamos em plena guerra fria, o enfrentamento das duas grandes potências, Estados Unidos e Rússia Soviética, pela hegemonia do mundo.

Os ministros militares haviam vetado a posse do vice-presidente da República, João Goulart, sob pretexto de que, era simpático ao comunismo e estava na China comunista, e havia elogiado as comunas populares.

O golpe foi, praticamente, aceito por todos os governadores, menos um, Leonel Brizola, que era governador do Rio Grande do Sul, muito jovem ainda, que se mobilizou, e iniciou, numa audácia inaudita, uma contestação que se transformou em um movimento de massas.”

A Rádio da Legalidade

O avanço dos meios de comunicação e das mídias sociais dificulta imaginarmos que através de uma cadeia de rádiostenha se conseguido uma mobilização popular nacional potente o bastante para estancar um golpe militar. Entretanto, foi exatamente o que ocorreu, como relata Tavares:

“A audácia do Brizola, naquele momento se espalhou pelo país inteiro, através de uma rádio que, como nós estávamos no Rio Grande do Sul, em rebelião, os canais internacionais de potência da rádio não foram obedecidos.

Então, aumentou-se a potência da Rádio da Legalidade, que era uma emissora de Porto Alegre, requisitada pelo governo do Estado. A Rádio era ouvida até no Caribe, até em Miami, no Estados Unidos, desrespeitando, por que nós estávamos em rebelião, as convenções internacionais.

O exército do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina aderiu ao movimento, em defesa da constituição, desafiando até os próprios ministros militares. Mas tudo isso se deve a audácia do Brizola.”

A esistência popular impulsionada por Leonel Brizola barrou golpe desencadeado por renúncia de Jânio Quadros (Museu da Comunicação Hipólito José da Costa)

A ameaça de bombardeio

Flávio Tavares compara que a campanha da Diretas Já mobilizou amplamente o país através dos comícios e manifestações. Não houve, porém, a ordem de bombardeio de qualquer palácio de governo estadual, tampouco a iminência de sua realização.

Na campanha da Diretas, diz ele, “houve apenas mobilização em comícios, mobilização do povo, mas sem ameaça de bombardeio, como ocorreu no Rio Grande do Sul, quando Brasília mandou uma ordem de bombardear o palácio [Piratini] do governo onde estava instalado o Quartel General da Resistência”.

“Os pilotos numa base próxima a Porto Alegre, em Canoas, estavam decididos a bombardear, a obedecer a ordem recebida, que, na hierarquia militar não se pode discutir ordens, não se deve nem se pode discutir ordem, mas antes de decolarem os sargentos furaram os pneus, esconderam as bombas de inflar e desarmaram os aviões. Era impossível armá-los e voltar a encher os pneus.

Mas, mesmo assim, os ministros militares insistiram e enviaram ao Rio Grande do Sul a frota do mar, uma frota de guerra, capitaneada pelo porta aviões, e com 1 cruzador, 2 destroyers, 2 corvetas, 2 fragatas e 2 navios de transporte de paraquedistas e fuzileiros navais, dispostos a entrar pela Lagoa dos Patos, veja no mapa onde fica Porto Alegre, entrar pela Barra do Porto de Rio Grande, que não é como o de Santos, é um canal apertado junto ao mar, e Brizola mandou enterrar barcaças para tapar o canal e impedir que a esquadra entrasse”, continua Tavares.

Entre as peripécias da rebelião, o blefe sobre as barcaças é das mais fascinantes:

Enterrar as barcaças no canal: “era perigosíssimo, porque, interromperia a navegação por dezenas de anos, então, houve uma simulação da interrupção do canal, as barcaças que iam supostamente ser afundadas saíam durante o dia, centenas de barcaças, e voltavam à noite furtivamente, e, a simulação foi tão perfeita que o capitão do porto, que era oficial da marinha, acusou o ato de ser uma ousadia absurda e renunciou ao posto de capitão do porto, e, se declarou preso”.

Prossegue Tavares: “Foi essa ousadia do Brizola que tornou possível a mobilização ainda com outro detalhe, o rádio penetrou nos lares e nos quartéis. As pessoas em Porto Alegre andavam armadas na rua, homens e mulheres, para alguns, muitos, até por exibicionismo, mas até esse exibicionismo mostrava uma mobilização popular, o exibicionismo também tinha uma função.

Houve os chamadas comitês de resistência armados em todos os municípios do Rio Grande do Sul, alguns chegaram a ser efetivos também em Santa Catarina e no Paraná, era área do terceiro exército, que assim se chamava o atual Comando Militar do Sul”.

A posse de Jango sob um regime parlamentarista

A rebelião agregou multidões, formou comitês municipais e conquistou apoio de militares “a tal ponto que os militares se viram obrigados a negociar, eles que haviam dado o golpe, um golpe que, pela primeira vez no Brasil, havia uma resistência contra o próprio golpe. Foi essa mobilização popular que, no fundo, … conteve o golpe em si. O golpe foi abortado, e, ainda que, o presidente João Goulart tenha concordado, implicitamente com a poda dos seus poderes, e se instituiu então, um regime parlamentarista, que mesmo assim dava algumas prerrogativas essenciais ao presidente da República.”

Um feito sem precedentes

“O golpe de estado foi destroçado, eu uso este termo porque nunca ocorreu algo semelhante no Brasil, E, repito, porque é fundamental repetir neste momento… nós vivemos agora um momento, em alguns termos, semelhante, ainda que não tenhamos chegado à situação de 1961, que foi contida por essa mobilização popular, que se deu fundamental e unicamente pela mobilização propiciada pelo Rádio, pela radiofonia.

Naquela época, tinham recém surgido os radinhos de pilha, e, a televisão ainda não tinha o prestígio que tem hoje, não havia telefone celular e situações de comunicação semelhantes como hoje. O rádio tinha um papel fundamental na vida das pessoas e das famílias em si, penetrou até nos quartéis, mas sempre guiada pela voz incisiva do Leonel Brizola.

Eu acho que este é um resumo que pode definir para as novas gerações, o que são estes 60 anos do Movimento da Legalidade, que assim se chamou e teve até um hino: “Brasileiros avante de pé, unidos pela liberdade”. Tudo feito às pressas e com plena exatidão e noção de triunfo. Oxalá eu tenha podido explicar em síntese o que foi o Movimento da Legalidade, e, porque é fundamental lembrá-lo hoje, quando as ameaças são difusas, mas vem também de cima, da cúpula governamental, como em 1961”, conclui Flávio Tavares.

Há exatos 60 anos, em 7 de setembro de 1961, João Goulart tomava posse em Brasília.

* O livro 1961: o golpe derrotado. Luzes e sombras do Movimento da Legalidade, foi lançado pela editora L&PM, em 2011.

* Assista a íntegra da exposição do jornalista e escritor Flávio Tavares na TV Carta Maior.

* Transcrição da exposição de Flávio Tavares por Pedro Aguiar.



Conteúdo Relacionado