Mídia

Mark Zuckerberg sabe exatamente o quão ruim é o Facebook

A declaração de uma denunciante prova que a gigante das redes sociais é prejudicial e desonesta, e que não pode ser confiada para se autorregular

21/10/2021 12:44

(Andrew Harnik/AP Photo)

Créditos da foto: (Andrew Harnik/AP Photo)

 
Em 25 de março, a deputada Republicana Cathy McMorris Rodgers interrogou o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, sobre se as plataformas de redes sociais estavam causando danos em crianças. A primeira resposta de Zuckerberg foi colocar de lado a questão das crianças e, ao invés, resmungar vagamente sobre “pessoas”: “Deputada, a pesquisa que eu vi sobre isso sugere que se as pessoas estão usando computadores e redes –“ Rodgers cortou e pediu por uma simples resposta de sim ou não. Zuckerberg respondeu, “eu não acho que a pesquisa é conclusiva sobre isso. Mas eu posso resumir o que eu aprendi, se isso ajudar”.

Em seu comentário, Zuckerberg salientou a boa notícia de que “em geral, a pesquisa que vimos mostra que usar aplicativos sociais para se conectar com outras pessoas pode ter benefícios positivos para a saúde mental e para o bem-estar, ajudando as pessoas a se sentirem mais conectadas e menos sozinhas”.

As palavras, na época, pareceram hipócritas e sujas, mas soam muito pior agora. Graças às dezenas de milhares de páginas de documentos internos fornecidos por Frances Haugen, ex-gerente de produtos do Facebook que se tornou denunciante, sabemos que Zuckerberg estava mentindo descaradamente sobre essa e muitas outras questões em relação a sua empresa. Haugen levou esses relatórios internos ao Wall Street Journal, que os publicou em uma longa série chamada “The Facebook Files” (Os Arquivos do Facebook).

Há tempos, o Facebook tem sido receptor de muitas críticas externas. O enorme tesouro de Haugen não somente valida esse criticismo, mas também faz com que pareça muito generoso. Parte da pesquisa da empresa focou no Instagram, o website de compartilhamento de imagens. Como salientou o Journal: “O Facebook vem conduzindo estudos sobre como seu app de compartilhamento de fotos afeta milhões de jovens usuários. Repetidamente, [seus] pesquisadores descobriram que o Instagram é danoso para uma considerável porcentagem deles, mais notoriamente meninas adolescentes”. De acordo com um cálculo interno da empresa, “32% das adolescentes disseram que quando se sentiam mal com seus corpos, o Instagram as fazia se sentirem pior”.

Resumindo os “Arquivos do Facebook”, o Journal nota: “A própria pesquisa da empresa detalha como suas regras favorecem elites; suas plataformas possuem efeitos negativos na saúde mental adolescente; seus algoritmos promovem desacordos; e que cartéis de drogas e traficantes de pessoas usam seus serviços abertamente”. O jornal adiciona, “os documentos mostram que o Facebook frequentemente fez o mínimo esforço para abordar essas questões e as minimizam em público”.

O padrão repetitivo mostrado pelos documentos é que, em uma tentativa de amenizar a raiva pública, o Facebook periodicamente acenaria para reformas, principalmente conduzindo pesquisas internas sobre os impactos em seus usuários. Os pesquisadores voltariam com relatórios extremamente negativos e sugestões de reformas totais. Zuckerberg e outros executivos então rejeitariam essas recomendações porque elas supostamente amorteceriam o crescimento da empresa.

Não há como negar que o foco de Zuckerberg no crescimento valeu a pena. O Facebook passou de uma ideia que ele uns colegas de classe desenvolveram como estudantes de Harvard para se tornar uma empresa avaliada em 1 trilhão de dólares, com estimados 3.5 bilhões de usuários no Facebook e em suas plataformas afiliadas (Instagram, Messenger, e WhatsApp). Ainda assim, quanto maior fica o Facebook, mais ele precisa continuar crescendo. No programa 60 Minutos, Haugen disse, “o que eu vi no Facebook muitas vezes é que existiam conflitos de interesse sobre o que era bom para o público e o que era bom para a empresa”.

Uma das ações mais perspicazes de relações públicas do Facebook foi banir Donald Trump em 7 de janeiro, um dia após a multidão que ele incitou atacar o Capitólio. Bernie Sanders tem sido um dos únicos políticos à esquerda do centro a criticar a ação, com base no fato de que tal poder poderia ser usado menos rigorosamente pelas empresas de tecnologia no futuro.

Os “Arquivos do Facebook” justificam a crítica de Sanders. Antes de banir Trump, o Facebook o concedeu uma exceção especial. Junto com outros políticos e intelectuais da elite, Trump estava em uma “lista branca” de pessoas que não se encaixavam na aplicação normal de regras. Em maio de 2020, em resposta aos protestos após o assassinato de George Floyd, Trump tuitou e também postou no Facebook um alerta dizendo que “quando o saqueio começa, os tiros começam”. Um sistema automatizado ranqueou essas palavras incendiárias como 90 de 100 em termos de violação das regras da plataforma. Se uma pessoa comum tivesse postado isso, seria necessária somente uma denúncia de um usuário para causar a remoção do post. Ao invés, foi marcado para revisão, e o próprio Zuckerberg interveio para manter o post.

A lição dos “Arquivos do Facebook” é que a empresa não pode ser confiada para se autorregular. Não há necessidade para mais argumentos sobre se o Facebook possui um efeito deletério: a própria pesquisa da empresa diz que sim. O Facebook está, com isso, na mesma posição que as empresas de tabaco que sabem que fumar causa câncer, ou das empresas petrolíferas que sabem há tempos o consumo de combustíveis fósseis está conduzindo a mudança climática.

A reorganização do governo é o único modo de seguir. A urgência se tornou clara após o “apagão” de 4 de outubro, quando as muitas plataformas da empresa ficaram offline por horas. O Facebook pode ser só um lugar para as pessoas postarem fotos, para a maior parte das pessoas, mas para dezenas de milhões, particularmente nos países mais pobres, o WhatsApp e o Messenger são tão essenciais quanto os telefones. O Facebook é uma utilidade pública comandada por um oligarca irresponsável.

A questão política agora é qual forma essa reorganização deve ter. As várias remediações internas propostas por pesquisadores do Facebook deveriam ser obrigatórias? O Facebook, como defende Elizabeth Warren, deveria ser desmantelado em empresas menores? Ou uma proposta mais radical de socializar o Facebook e comandá-lo como uma utilidade pública, liberando-o dos imperativos do crescimento econômico para que trabalhe somente para promover a comunicação, seria a melhor proposta?

Essas soluções divergentes precisam ser discutidas politicamente. A única coisa que têm em comum é que começam pela premissa de que nem Zuckerberg nem outro CEO podem ter a permissão de ditar o futuro da empresa. O Facebook se tornou um problema público que precisa de soluções públicas.

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de Isabela Palhares



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